segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #1

Começo por Santarém, distrito do lugarejo onde cheguei ao mundo vai fazer 42 anos. Conheço relativamente bem a cidade para dela afirmar que não pretendo regressar senão impelido por obrigações inadiáveis. É lugar de moços de forcado e de recados, boiadeira à solta com mexericos nos cornos para ferir sem dó nem piedade. 
Minha irmã mais madura nasceu no Cartaxo, onde eu ia em adolescente aguentar matinées entediantes. Detestei sempre pezinhos de dança, não sou dado ao ululante menear das ancas. Devo também ter observado por aí a minha primeira tourada, porventura no decorrer de uma visita à Feira de Todos os Santos. Curiosa topologia para tão demoníacas práticas em picadeiros e picarias de exibicionismo pacóvio. Gado, gado e mais gado, gado bovino, gado suíno, gado equino, e no ar uma fragrância a estrume que se incrusta na pele, cola aos trapos, revoluteia o estômago. Gado, gado infindo. 
Leccionei durante um ano do outro lado do rio, conheci a Lezíria e guardo boa memória de passeios junto ao Tejo. Come-se bem em Almeirim, lugar-comum de sopas com pedra, caralhotas, orelha de porco, tripas. Foi em Almeirim que se estrearam os Ventilan, numa taberna com o nome de Toino da Cunha. Sempre teve fama de juventude assanhada, a melhor discoteca do distrito ficava ali, embora, como disse, nunca tenha eu sido dado a tais convívios. Julgo que andei por lá um ano completo a imitar o rosto do melão. De resto, o facto de se comer bem num local não o enaltece particularmente. Come-se bem em todo o lado neste país, pelo que é mais do mesmo. 
O maior problema de Santarém é ter-nos dado o Mário Viegas, a quem o município prestará homenagem com um vergonhoso Teatro Rosa Damasceno a cair aos bocados enquanto a caminho do Jardim das Portas do Sol podemos sonhar com sair dali, partir a nado até ao Castelo de Almourol e lá escolher a melhor torre para um enforcamento colectivo. O segundo maior problema de Santarém é Rio Maior, o concelho que viu nascer Ruy Belo na aldeia de São João da Ribeira. Perto, muito perto, nasceu e criou-se a família, são raízes que a gente não consegue matar, pelo contrário matando a fome nelas sempre que nos falha o alimento nesta travessia do deserto que é viver. 
Terra de mineiros e de salineiros, de Rio Maior tenho as piores memórias em contradição com os melhores sonhos. Nunca fui capaz de amar por ali, mas senti algo próximo da felicidade quando era criança e percorria açudes, rio abaixo, rio acima, desafiava serra e areeiros, pedalava uma bicicleta que ainda hoje acredito ter levantado voo em certos momentos. Seria hipócrita afirmar pela minha terra uma qualquer réstia de paixão. Nem desprezo, nem amargura, nem revolta, nada que me inquiete, apenas indiferença, uma incompreensível indiferença que talvez possa ser associada ao desencanto de nada ali me espantar, porque tudo ali me parece óbvio e previsível. A turba da minha geração ainda vislumbra diversão sazonal pela Feira das Tasquinhas, tornada entretanto ex-líbris da bebedeira colectiva, da comezaina e do arroto generalizado. Incapaz de me integrar, fiquei quase invariavelmente à margem das romarias aguentando ao lado de outros exilados o ar pesado e trambolhão da excitação alcoólica. 
Em todo o lado há gente boa e gente má, para onde quer que nos voltemos encontraremos sempre as virtudes e os vícios da presença humana. O problema, se é que a tal inevitabilidade devamos chamar problema, é estarmos condenados a transportar connosco, para todo o lado, os nossos próprios demónios, as nossas próprias angústias, o problema é andarmos sempre carregados connosco próprios, levarmo-nos de arrasto como Sísifo carregando-se a si mesmo pelo monte arriba. 
Seja como for, pedindo ao relance uma percepção instantânea do distrito em causa, a primeira imagem que me ocorre é a do gado. Infelizmente, não o vislumbro apascentando em campo aberto, à solta pelas planícies verdejantes de um filme inexistente. Vejo-o entre tapumes, enjaulado nas pocilgas, vejo-o triste e ensimesmado, conformado com uma existência de engorda para matadouro. Não farei publicidade às salsichas, mas foi assim que me habituei a ver o gado no distrito da minha infância, fazendo o seu percurso natural entre pocilgas, aviários, e as caixas de salsicha à venda nas grandes superfícies.  

4 comentários:

Miguel B. disse...

Muito interessante... Partilho o mesmo tipo de sentimentos relativamente ao sítio e área onde cresci. Obrigado

hmbf disse...

De nada.

maria disse...

"Não farei publicidade às salsichas, mas foi assim que me habituei a ver o gado no distrito da minha infância, fazendo o seu percurso natural entre pocilgas, aviários, e as caixas de salsicha à venda nas grandes superfícies." mais nobre não podia ser esta viagem à tua terra. :)

hmbf disse...

Ai, ai... deixa lá a publicidade.