terça-feira, 4 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #2

Ainda não tinha dezoito anos feitos quando aportei na capital da República. Inscrição no curso de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, por onde passei como cão por vinha vindimada, coleccionando biografias e manhãs de tédio. Num piscar de olhos foram-se oito anos de vida rodeado de padres e de acólitos, séquitos da mais universal das imposturas. O edifício da universidade fica(va) entre o Hospital de Santa Maria e o Jardim Zoológico, fazendo-me crer ser de facto irónico o destino. Foi, sem dúvida, a única crença que amealhei de tais momentos de aprendizagem, era de uma congruência inesperada ver a padralhada e sua fiel beataria entalada entre o hospício e o cárcere da selvajaria. Só tinha pena dos animais, ainda hoje tenho, que mereciam melhor sorte do que a de milhares de turistas a entreterem máquinas fotográficas. E padres por perto.
Desde muito petiz que a capital da República é para mim muito isto, um Zoológico, um Aquário Vasco da Gama, um Oceanário, ou seja, fachada, simulacro, aparência, tudo exibido com maior ou menor eloquência numa feira de vaidades para saloios sem consciência da mesquinhez em que vivem atolados, um pântano de intriguistas que vistos de Paris ou de Nova Iorque assumem a configuração patética dos pobres de espírito a quem há-de ser um dia oferecido o reino dos céus. Que a Terra está reservada para outros.
O primeiro choque foi quando na paragem do autocarro me quiseram convencer de que havia uma diferença entre camioneta e 55, que não se dizia carreira, dizia-se 55, que o apeadeiro por detrás da Estação Cabo Ruivo era o princípio do mundo e no princípio do mundo mandavam os números. Palavras para quê? Chegar à cidade era chamar as coisas pelos números, as palavras trocadas por números, os nomes substituídos por números, era tudo número e matemática e aritmética. E eu desfeito em desejos de puto a querer imitar o Tarzan com um mergulho da Ponte 25 de Abril para o Tejo dos tollans encalhados.
Às vezes percorre-me uma ligeira nostalgia desses tempos na Rua Actriz Palmira Bastos, pendurado na janela do sexto andar com os olhos regalados na chama da Torre TCC. A Exposição Mundial de 1998 apagou para sempre a chama. Onde antes havia entulho há agora orgulho, o Parque das Nações é o cartão postal da modernidade portuguesa, a qual se reveste invariavelmente de mais olhos que barriga. Chelas permanece por perto a dar um ar de sua graça. Mas é preciso ser justo, ainda me lembro de ser recebido na cidade por autênticos bairros de lata, o Casal Ventoso oferecia-nos um certo ar de favela, os guetos existiam de um modo muito mais ostensivo. Com o tempo, fomos aprendendo a disfarçar-nos, respeitando o bom costume, lá está, da fachada, do simulacro, da aparência. 
Está incomparavelmente melhor assim, não restem dúvidas. Podemos passear agradavelmente pela baixa como quem desfila em passarela, podemos descer das Avenidas Novas ao Cais das Colunas com a ilusão de que somos um país onde a sopa dos pobres em fila indiana no Campo das Cebolas é apenas uma nota de rodapé na história do nosso progresso. As colinas, ó romantismo mamário, entroncamento da face cosmopolita com o rosto provinciano, o lado pícaro da coisa servido em prato de iscas. Na realidade, depois do cerco aos mouros fomos todos nós cercados pelo fado, pelo futebol e pelas fátimas do Intendente. Podem agora disfarçar o cenário com hortas urbanas e feiras de oportunidades, a breve história de Lisboa subsume-se cada vez mais no ruído intrépido dos tuque-tuques.

Byron não deixava de ter razão quando nos acusava o servilismo, uma raça que nem merecia possuir o paraíso de Sintra. Talvez o melhor de Lisboa seja mesmo Sintra, talvez não. Talvez seja a espuma do Atlântico ou os ratos-gambozinos de Mafra. Talvez a ponte para a Caparica da minha infância. Não foi por causa de Lisboa que não gostei de viver em Lisboa. É com langor que me dou ao assunto, desinteressado de compreender por que raio de razões sempre que regresso me apetece vir embora. Há um verso de O’Neill, o mais lisboeta dos poetas, que abrevia o sentimento: «Dias que passei no esgoto dos sonhos». Foram oito anos disto, a tomar consciência disto, irremediavelmente confinado ao exílio por não me dar com a aritmética dos números, por teimar em apanhar a camioneta em vez do 55, por recusar submeter à razão dos números o significado dos nomes. To call a spade a spade, como diria o amigo inglês que não tive mas que me fez muita companhia no decorrer desses anos de aprendizagem. Em Lisboa chama-se a isto, por desmesurado calculismo, inconveniência, impertinência, porque por lá é tudo forma e número, forma e número.

2 comentários:

MJLF disse...

Eu sou fã de Sintra, mas é muito húmido para viver no inverno ;)

hmbf disse...

Húmido é isto aqui.