sábado, 8 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #3

Há dezasseis anos fixado em Caldas da Rainha, reparo agora que estou prestes a ter mais anos destes nevoeiros do que de outros climas quaisquer. Sobre Caldas não há muito a acrescentar ao que disse Luiz Pacheco: é a cidade onde melhor se caga porque é a cidade onde melhor se come. E isto remete-me para uma das mais evidentes características na população distrital: a cagança. Verdade seja dita que não é problema que afecte tanto os povoados de Peniche, Nazaré e Marinha Grande como afecta, sem margem para dúvidas, as gentes de Caldas da Rainha, Óbidos e Alcobaça. Não será também por acaso que o império dos moldes emergiu por estas bandas. Os moldes estão ligados a uma certa forma de ser e de estar, uma certa forma de pensar moldada por ideias fixas, preconceitos, doutrinas e rituais. Os leirienses são os mais confucionistas dos portugueses, conhecem-se pelo apelido, preservam as castas, são capazes de não conhecer na rua alguém que acabaram de cumprimentar no supermercado, arranjam casamentos entre famílias como manda a mais nobre tradição. Nisto, são mais ciganos que os próprios ciganos. Importa-lhes o estatuto, e em nome do estatuto não há cá misturas, como apregoavam os alunos dos colégios privados ainda há bem pouco tempo. 
Isto tem uma razão de ser histórica. Desde muito visitadas por burgueses e alguma aristocracia, as pessoas destes lugares habituaram-se à postura do serviçal. Olhavam para os forasteiros com espanto e admiração, queriam chegar onde eles haviam chegado, atingir o estatuto de quem é servido em vez de passarem a vida a servir. Este fenómeno deu azo àquilo a que podemos chamar de trampolim do saloio, um desenraizamento que se manifesta em cómicos paradoxos: gente essencialmente rural com aparência urbana; a dizer mal do que é seu, mas sofrendo sempre que alguém de fora lhe aponta defeitos; votando, se for preciso, num macaco, desde que ele tenha vestida a camisola do partido; gente moldada, formatada, cumprindo religiosamente os rituais de ir à praça espreitar famílias e partilhar filhos como quem oferece dotes. 
Sou do tempo em que na praia de São Martinho do Porto as esplanadas se enchiam de gente vinda de Lisboa, gente ligada às artes e quadros médios do Estado, secretários, alguns ministros, que por ali metiam conversa com industriais, jantavam e bailavam uns com os outros, exibiam as filhas e os filhos betos acabados de se formar em Medicina, Engenharia ou Direito. Vi com os meus próprios olhos gente da terra levantar-se da mesa para dar lugar a tais doutores, vi como estes doutores deixavam os filhos - que tratavam por você - à guarda de amas e de empregadas domésticas - que tratavam por tu -, fardadas em plena praia, debaixo do sol, a servir uvas sem grainhas aos meninos do senhor. Vi e não deixei de ver, que é fenómeno perdurável em terra de cagões. Ainda o ano passado lamentei não ter como registar um cenário que parecia saudita em plena Foz do Arelho. Tais costumes perseguem em múltiplas dimensões as gentes de aqui, entretidas com as ondas gigantes da Nazaré, os doces conventuais de Alcobaça, os vinhos do Bombarral, enquanto não se abrem fendas na fachada e a sociedade se equilibra em antas finas de mesquinha vaidade, tantas vezes iludida por uma falsa ostentação que se resume a um nada de gabarolice, soberba e altivez, com acentuação especial no apelido e no brazão. 
O melhor que Leiria tem é ter perdido Ourém, lugar de aparições para esfaimados alimentados a esperança. De outros alimentos se foi nutrindo o estômago dos leirienses, consolados com castelos em ruínas e estádios inoperantes, todos eles inclinados para rugby, para a equitação, para o golfe do Bom Sucesso e desportos similares que nos façam sentir importantes e aristocráticos mesmo quando é óbvio sermos pacóvios inúteis e saloios pluricasta. A tais contrastes há a acrescentar um apreciável domínio das línguas estrangeiras, sobretudo em Óbidos, Batalha, Nazaré, Peniche, associado à necessidade de bem receber quem nos visita turisticamente. Falar estrangeiro é para a fauna destes lugares romper abertas em céus carregados de nuvens escuras, é possibilidade de negócio, é a perspectiva de não ficar confinado à pobreza capital dos falidos da nação. E há cada vez mais estrangeiros a ir na cantiga, compram por cá casa que começa por ser de férias para passar a ser de ano inteiro, trazendo consigo os bons hábitos ingleses de beber até cair para o lado e os bons hábitos franceses de não falarem outra língua que não seja a sua. 
No fundo, é de turismo que estamos a falar desde o início. É o horizonte que aproxima Leiria da nação, distrito, como se ouve dizer, onde há dinheiro, bem localizado por estar perto de tudo, embora não seja nada, mixórdia de emproados e de necessitados a viverem numa submissão patética, uns entre os outros, as fantasias, as loucuras e a feérica predisposição de um país para inglês ver. Um país de megalómanos que não podem com uma gata pelo rabo. 

2 comentários:

Luis Eme disse...

Que excelente retrato da "gente da minha terra", que gostava (e ainda deve gostar) de parecer mais do que é...

hmbf disse...

Agradecido.