domingo, 9 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #4

Entrei em Setúbal pela Costa de Caparica, mais propriamente pela extinta freguesia da Sobreda. Passava parte das férias do Verão à guarda de uma tia que aí residia. Para mim, Setúbal começa por ter o sabor de iogurtes caseiros que eu temperava com carradas de açúcar e degustava debaixo da cama por ser o local mais fresco de um sétimo andar em brasa. Só depois a paisagem de prédios sobre prédios, edifícios que me pareciam gigantescos por desconhecer outros maiores. Prédios repletos de pessoas a viverem umas por cima das outras, partilhando fúrias, exibindo raivas, contornando esquinas com programas e esquemas. 
Regressei a Almada por outras vias, conquanto nenhuma delas me tenha parecido ápia. Sempre as torres de betão armado e os elevadores estreitos, gente apinhada em correrias destravadas, repartindo hálitos e suores com incomodativa proximidade. 
Anos decorridos, o incómodo não foi ultrapassado. Com duas irmãs a residirem em Setúbal por épocas distintas, foram várias as vezes que ali passeei o olhar sem, confesso, a mínima curiosidade. Em ambos os bairros, um mais próximo do Sado, outro para os lados do Bonfim, preservo o cinzento dos prédios erradicados dos postais da cidade. É mais comum iludirem-se as hostes com a estátua erguida ao poeta Bocage na Praça com o seu nome, eternizando porventura a mirada deste sobre as águas remansas do rio enquanto sonhava com a boémia lisboeta. 
Quem se perder pelos recantos da cidade, ouvindo quem nela habita, ficará inevitavelmente com a sensação de estar rodeado de gente que preferia estar noutro local. Ainda que a Serra da Arrábida fique perto, oferecendo múltiplos focos de interesse a quem pretenda refugiar-se da orquestra de prédios horrorosos que caracteriza a zona urbana - nomeadamente visitando as belíssimas pedreiras que há anos vêm esventrando a paisagem natural, transformando em ruínas o que outrora foi rosto privilegiado do misticismo pátrio, entretanto adornado com as catedrais cimenteiras da SECIL -, é longe, muito longe, o mais longe possível que percebemos estar o horizonte de quem faz da vida obrigação na cidade de Setúbal. Não é sequer na Península de Troia, do outro lado do Sado, já no concelho de Grândola, nem na Comporta, onde a burguesia lusitana adora fazer férias das férias que vai fazendo durante o ano inteiro. 
Olhamos para tudo isto como em 2005 olhámos para a implosão das Torres Torralta, assistindo que nem burros a mirar um palácio à decadência de um território que se era sublime nos tempos de Viriato só pode ser humano, demasiado humano, nestes tempos d’A Desgraçada Máquina: «O retorno à glaciação deixou florescer as seguintes espécies: os burocratas, armados e civis, a generalidade das vítimas e os terroristas, anjos do mal. Artista, obreiro, artífice, palavras que foram quase coincidentes, caminham para a extinção». Palavras de António Osório, outro dos poetas sadinos que convém ir recordando. Porém, neste caso, não nos fiemos em demasia: cresceu embalado pelas palavras de Homero em grego antigo. Ainda assim, são sábias e eloquentes palavras que justamente se aplicam à região em apreço e, por defeito e extensão, a todo o chamado território nacional - com a devida exclusão das Ilhas Selvagens. 
Mas lá chegaremos. Se não nós, o carnaval. Quiçá o mais brasileiro dos que se fazem em Portugal, nomeadamente em Sesimbra, onde pululam escolas de samba e de axé, as portuguesas têm bunda melancia, os portugueses tocam pandeiro como nem no Brasil se escuta e em Fevereiro o sol é abrasador. 
Sobra-me de Setúbal o Seixal. Não me sobra muito. Entre o Seixal Jazz e a Festa do Avante, banhado pelas águas mortas e putrefactas do estuário do Tejo, guardo duas utopias que são muito minhas e estão interligadas. Uma nasceu entre os escravos da América, a outra entre os escravos da Europa industrial. Neste recanto há séculos plantados, ainda pouco colhemos de cada uma das lições. Resignados seguimos iludidos num viver que é ir vivendo, rodeados de prédios e mais prédios, betão disseminado indiscriminadamente pelos campos, pessoas tão umas em cima das outras que já nem conseguimos perceber aspectos que singularizem este de aquele, todos burros a olhar para a implosão dos palácios, prédios embargados onde outros prédios serão erguidos, para que da paisagem e das águas e do clima possam desfrutar uns tantos, uns poucos, para quem o bem-estar dos demais é tema sem interesse. A selecção natural fará o seu trabalho. Entre paredes. Nos prédios.

3 comentários:

Manuela Fialho disse...

Estou mesmo a gostar destes textos. Deste e dos anteriores. Continua!
Abraço
MF

MJLF disse...

Ui, estás a andar para sul, só falta dizer mal do Alentejo :D

hmbf disse...

Jamais direi mal do Alentejo. De certas coisas no Alentejo, sim. Mas jamais do Alentejo.