terça-feira, 11 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #5

Auto-Estrada do Sul, sigo na direcção do tempo suspenso. Talvez venha a parar em Alcácer do Sal ou Grândola, talvez em Santiago do Cacém, onde tantas vezes tenho parado para esticar as pernas e comer uma bucha. Que mais poderia eu fazer por essas bandas? Há tempos, distraí-me a observar três cegonhas com o ninho montado na torre de uma igreja em Alcácer. Comida a sopa de cação num restaurante junto ao rio, caminhei pela cidade a pensar na informação recolhida na Wikipédia: uma das mais antigas cidades da Europa. Nota-se. Devemos sempre desconfiar do que lemos na Wikipédia, mas neste caso não é necessário confrontar factos. Mesmo não sendo uma das mais antigas cidades da Europa, Alcácer do Sal parece uma das mais antigas cidades da Europa. E o que parece tem muita força. De resto, também Portugal é frequentemente apresentado como o mais antigo Estado-nação da Europa. Se não é, tem todo o ar de ser. Aceitamos a taça sem contestação nem orgulho, velhas terras são velhas terras, locais óptimos para as cegonhas gloterarem saudades. 
É quando chegamos a Sines, ainda distrito de Setúbal, que percebemos ter deixado para trás a Idade Média. Ali se ergueu o progresso no corpo de uma refinaria, o futuro declarado em semitom industrial, com navios vários ao largo, muito fumo a poluir os céus, águas sedutoras mas de qualidade duvidosa, uma paisagem metalúrgica que só encontrará rival nos sobreiros Amorim. Uma vez, no Festival Músicas do Mundo, foi em Sines que ouvi o Tom Zé cantar qualquer coisa do género: «A grana da Europa que bate na porta / Doutor pouco se importa se ela seja porca / Vêm o godo, o visigodo, o germano, o bretão / Eita, globarbarização». Vale tanto para meninas que se prostituem como para países que se avexam. Impossível não recordar Al Berto, nascido em Coimbra mas em Sines desgastado, a escrever a desoras versos que jamais o país honrará. Porque o país é de poetas e os poetas odeiam-se uns aos outros. 
Estou em Porto Covo, prestes a abandonar o futuro, a canção do Rui Veloso há-de dar cabo disto tudo. Visito a Ilha do Pessegueiro sem qualquer tipo de interesse, é um calhau como outro qualquer, aquele ali, nós deste lado, a norte o Arquipélago das Berlengas e uma chinfrineira insuportável de gaivotas em êxtase. Deve ser tudo muito bonito… de passagem. Um minuto a mais dá cabo do estômago, 'inda por cima agora que o turismo entrou por todo o lado e transformou a paisagem numa estância para utilizadores capazes de se abstrair do mundo com baldes de água gelada ou caça aos pokémons. Parecem gaivotas, são piores do que gaivotas. 
Eis-nos no mais extenso distrito do país, um pedaço de terra com imenso abandono, uma extensa planície de falso deserto a atravessar a pátria de um lado ao outro. Beja é um mistério por decifrar, um logro mal interpretado. Ainda antes de ter percorrido Odemira pela costa, mais ou menos na mesma altura em que o Festival Sudoeste começou a seduzir para a região aquilo a que chamam desenvolvimento, ou seja, ruído, especulação imobiliária, magotes de gente à procura de um lugar vago na atolada Vila Nova de Milfontes ou na cada vez mais turisticamente rural Zambujeira do Mar, fui mesmo a Beja, a cidade, quando os professores desesperavam por colocação naquela coisa dos mini-concursos. Era uma terra triste, silenciosa, com muitos suicídios, desemprego, solidão, isolamento, desistência. Era um lugar fúnebre. Regressei há coisa de um ano, meti conversa com um rapaz que me serviu um café e ouvi-lhe, ipsis verbis, a seguinte resposta a uma pergunta sobre entretenimento local: «As pessoas agora vão todas para o Modelo». Notemos que todas as cidades têm os seus encantos, para quem não faça vida nelas há sempre algo que parece espantoso, aliciante, belo, mas para quem nelas sobreviva é custoso suportar o tédio, a modorra, a monotonia. O Modelo é, neste contexto e por uma espécie de paronímia, um arquétipo social que explica muito do que hoje somos: mais do que cidadãos, consumidores, mais do que contribuintes, clientes, menos do que pessoas, negócio.
Ora, aquela tristeza, aquela solidão, aquele isolamento, aquela desistência de revolucionários conformados com a derrota, aquele desemprego, contrastam fortemente com o litoral que vai de Almograve à Zambujeira, desta ao Carvalhal e por aí até Baiona. Vamos lá nas férias e andamos felizes, esquecemo-nos que no que resta de um ano inteiro há mais Beja para além do litoral Vicentino onde nos maravilhámos com praias calorosas e distintos repastos. Há um povo desolado que para interior se viu ao abandono com sonhos mortos nas mãos, e lá do alto de um monte uiva em desespero adiando a hora do enforcamento. Vai resistindo, resistindo, resistindo, cada vez mais só, cada vez mais exilado em si mesmo, vai resistindo... com tanto do que de melhor há para dar sem que saibamos como receber. Foram precisos os touros para sabermos de Barrancos, talvez sem os queijos não soubéssemos de Serpa. E no entanto, rodeado de melancolia, é por ali que o nosso coração bate mais árabe e se comove ao escutar vinda com o vento as palavras de Al-Mu’tamid:

Eu só quero que me fales
De cantigas e de vinho
Deixa lá e não te rales
Deus perdoa o descaminho!


9 comentários:

MJLF disse...

E chegaste ao Sul :)

Homem do lixo disse...

Peço desculpa por contacta-lo desta maneira.
Procuro ardentemente e sem sucesso o livro Extinção - Thomas Bernhard.
Como li algumas referencias ao autor no seu blog, lembrei-me de perguntar se tem o livro e em caso de ter se aceitaria, vender trocar ou o que seja.
Obrigado pela atenção
eugeniofonseca83@gmail.com

hmbf disse...

MJLF, pelo Sul hei-de andar mais uns dias.

Homem do Lixo, para já não posso ajudá-lo.

Jorge Muchagato disse...

Gosto muito destes textos. Bem, como dos demais. Mas estes textos, sobre esta terra de que somos naturais, são escritos dentro dela. A força destes textos está nessa verdade, ocultada quase com o terror do espelho transferido paras as revistas de «rankings» turísticos da «especialidade» que sustentam um «orgulho nacional» pouco mais do que indigente. Gosto muito.

hmbf disse...

Obrigado, Jorge.

maria disse...

comovem estas tuas viagens, Henrique.

Ivo disse...

Além do elogio à qualidade desta série de textos, para não destoar do que por aqui se lê, uma dúvida: Al Berto natural de Sintra? Ainda sábado passado ao sorriso de uma amiga que viu cá por casa "O Medo" e logo comentou "é de Sines" e assim ser quase seu conterrâneo, eu retorqui ser património de Coimbra... Em que ficamos?

hmbf disse...

É gralha, Ivo. O homem é de Coimbra. :-)

Ivo disse...

Pois, eu estava - e estou - convencido que sim. "Não é nada" respondeu-me ela, com ar de desilusão.
Ah continua a ser meu conterrâneo afinal! =)