terça-feira, 18 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #6

É-me impossível concluir com exactidão quando, como e por onde entrei no Algarve pela primeira vez. Sei que era muito pequeno e enjoei na viagem. Talvez por isso o Algarve tenha ficado para sempre colado na minha memória à imagem espiralada de um enjoo. Mas não consigo lembrar-me se o vómito foi expelido inicialmente em Faro ou em Lagos. Para o efeito, irei considerar Albufeira. 
Bem mesmo no centro do Algarve, onde o barlavento se divide do sotavento, Albufeira e Loulé, mais propriamente Quarteira, eram (são?) os destinos veraneantes predilectos dos saloios endinheirados cá do burgo, que durante largos anos fintaram o fisco com os olhos postos num apartamento de férias com vista para o clima mediterrânico. Criadores de gado e altos quadros do estado, o que vai dar ao mesmo, faziam (fazem) questão de exibir o magnífico destino algarvio como uma espécie de passaporte social, degrau acima no estatuto de uma sociedade caracterizada na sua raiz pela boçalidade dos hábitos e dos costumes. 
Estamos a falar já da linha que nos anos 80 impôs à paisagem filas intermináveis de prédios horrorosos e hotéis de mau gosto a dez passos da praia, destruindo tudo o que ali era belo com a máquina trituradora da avidez. Andei por lá porque era amigo de quem por lá tinha casas, mas nunca me senti feliz. Excepto quando resolvi caminhar a pé por entre neófitos campos de golfe e ruas de má fama a horas improváveis, olhando com desprezo para os carros que circulavam entre a Kadoc e a Marina de Vilamoura. Nunca vi tanta falta de gosto e pirosice concentrada como neste desgraçado local. Suponho que quem de lá seja não tenha culpas no cartório senão por ter permitido que o lugar chegasse onde chegou, ao nenhures da vacuidade absoluta. Tudo ali é feio, plástico, encenado, tudo ali parece saído do pior cenário de um filme de baixo orçamento filmado em Hollywood. 
Com o passar dos anos, a tendência tem sido para que concelhos alternativos, tais como Aljezur e Vila do Bispo, Vila Real de Santo António e Tavira, se aproximem cada vez mais do padrão médio de degenerescência cultural e paisagística, cedendo aos caprichos de uma classe vasta de energúmenos deslocados da Britânia e da Germânia com objectivas intenções de morrer em sossego com a pele afogueada. As excepções não fazem regra, mesmo quando estamos a falar de artistas falhados nos seus países, gente deprimida com um sentido trágico da existência ou reformados com certo grau de sucesso nas diversas áreas a que se dedicaram ao longo de uma vida que pretendem abandonar. 
Portanto, o Algarve, entretanto adaptado à sua nova fauna com a designação pseudocosmopolita de Allgarve, é um belo lugar para ir morrer, para ir acabar os dias. Eu optaria pelas vistas do Cabo de São Vicente ou pelo mais alto lugar da Serra de Monchique, são sítios que, apesar de tudo, em dias de céu limpo oferecem uma perspectiva propícia a derivas nostálgicas sobre como há-de ter sido belo e agradável esta terra agora enferma. 
Há já muitos anos que por ali transito. À excepção de Alcoutim, que conheço mal, lamento o que vou sentindo: o esmorecer da paixão. Em tempos, confesso, senti enorme interesse por Silves e uma mística parva pela Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe (perto de Sagres), mas tudo se perdeu sob o manto aterrador do consumismo turístico mais insuportável. Os índios da Meia Praia são um mito de simplicidade e miséria atraiçoado por praças com artistas de rua para turistas de salão, marinas atoladas com lixo da mais assoberbada ostentação, cocktails de ruído e de poluição mediática, porque é para ali que toda a gente vai quando não tem mais para onde ir. 
Este Verão, enquanto procurava fintar o inevitável na costa de Aljezur, inquietava-me com a imagem de um homem a estender a toalha numa praia às cinco da manhã para garantir lugar ao longo do dia. Vi-a num jornal e não me largou mais. Esta caricata disputa por uma parcela de areal diz muito daquilo em que se transformou o Algarve para lá de São Brás de Alpotrel, ou seja, o Algarve que toda a gente disputa durante três meses do ano para que nos restantes nove ele se transforme numa ala espectral de um país com história a mais e revoluções a menos. 
Há qualquer coisa de “para o ano que vem” que sempre me assustou por aquelas bandas, estivesse eu em Cacela Velha, na Ilha de Tavira ou no Burgau. Para o ano que vem, um sentimento de esperança redefinida pela realidade, a perda consumada num anseio de ver o tempo passar para que no futuro possamos talvez remediar o que o passado provou ser irremediável. Para o ano que vem, caramelos em Huelva. Mais do mesmo, pescadores à deriva, imobiliárias em excitação. E muitos turistas em busca de um canto onde possam morrer sossegados.  

4 comentários:

luisa disse...

Acho esta sua série de viagens notável. Gosto de o ler. Mas permita-me que me entristeça com a sua chegada à minha região.

Quando eu era criança costumava sempre enjoar em viagem. De carro ou de camioneta, independentemente da paisagem, lá vinha o vómito.
O Algarve, esse, lá vai sobrevivendo aos muitos visitantes portugueses que ano após ano nunca desistem do ano que vem e nunca resistem a maldizê-lo.

hmbf disse...

Há mais de vinte anos que visito sem interrupções o Algarve e entristece-me aquilo a que venho assistindo. Como é óbvio, tenho por aí alguns refúgios que não me apetece partilhar. Mas na generalidade o Algarve é cada vez mais pano de fundo para uma espécie de hooliganismo turístico. Esta é uma série de impressões generalistas onde o que há de bom tende a ficar de fora para que não venha a ser corrompido pelo que há de mau.

Jorge Muchagato disse...

A história recente de Portugal está repleta de gente que tem medo do chão mas nunca enjeita, em nome do seu «curriculum vitae», o mais ténue indício de capacidade decisória sobre a terra a que possa deitar as unhas. A história recente e decerto a mais antiga também. Um historiador que não se interessa ou desdenha o tempo em que respira bem pode deitar para trás do capote o título que reclama. Um historiador que não se interessa, quero dizer, um historiador que não investe no tempo em que vive a mesma acuidade de observação que se esforça por deter no que diz respeito ao passado. Porque, na verdade, o passado não é um «país» assim tão distante como o incauto pensamento dominante pretende inculcar todos os dias pelos meios disponíveis à domesticação intelectual que nos afoga, desde os festivais literários ao pasquim que o povo consome como o pão do mal dos outros que lhe justifica o pão amargo que come e agradece ao banqueiro da sua eleição.

Estes textos notáveis sobre a história contemporânea de Portugal deviam chegar ao papel para que os historiadores sequiosos de mais uma lombada na estante da sua «persona», e os «sociólogos» com um olho no testemunho «privilegiado» e outro na cadeira senatorial de um regime que não as tem, os lessem. É preciso recordar a frase de abertura de um livro bem arrumado no silêncio e no esquecimento por aqueles que deviam lê-lo todos os dias com o sentido de conseguirem arriscar alguma ideia nos relatórios que escrevem e conseguem publicar: «S[ua] M[ajestade] foi a Belém comer uns patéis». Oliveira Martins começa assim a escrever a história do seu «Portugal Contemporâneo». Não há melhor. Tentam, mas não há melhor. Porque a frase continua válida.

Nestes textos em que arriscas, e do ponto de vista do que sei e já vivi, em que acertas, há uma frase a todos os títulos verdadeira: «um país com história a mais e revoluções a menos». Há historiadores que conhecem muito mas pouco viveram. Devemos ler os seus livros, se os publicam, como ao índice de um arquivo (e ainda assim com reservas porque as notas de rodapé transformaram-se num estigma de loucos dados aos rendilhados da probidade). Eu prefiro, para compreender um dado tempo, a verdade de um escritor à ostentação de um historiador. Conversa bem longa, naturalmente, e com muitas particularidades.

Desculpa-me a extensão deste comentário mas a justificação de ter escrito um pouco mais advém apenas do valor destes textos, que tanto aprecio, e gosto de ler.

hmbf disse...

Obrigado pelo comentário.