quinta-feira, 20 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #7

Acusa-me a Ana de ainda não ter mencionado um lugar onde me tivesse sentido feliz. Não sendo inteiramente verdade, também não é inteiramente mentira. A felicidade é um estado complexo, talvez apenas remediável com a morte. A vida faz-se de alegrias e de tristezas, de momentos de consolo alternados com outros de insatisfação. Dado adquirido é que para onde quer que nos voltemos, teremos de carregar connosco, com as nossas frustrações mais íntimas, a inquietação e o desassossego que em cada um encontram terreno mais ou menos fértil para se apoderarem do sangue como a ramagem se apodera da terra. 
Leio por mero acaso num livro de Eugénio Lisboa que «levando connosco um mal profundo, viaja-se sempre em direcção ao ponto de partida. Viajar é não viajar. Mudar é ficar». No fundo, estamos condenados a nós próprios, os pés andam daqui para acolá, mas é a nós que sempre levam. Caminhamos por vales, junto a lagos, enseadas, atravessamos desertos, subimos serras, montanhas, mergulhamos no oceano, no rio, na cascata, cansamos o corpo, desfrutamos da paisagem, mas sempre em nós habita a ferida de nós próprios. Tenho para mim que os momentos de alegria são sempre de distracção, quando nos distraímos de nós e dos outros, quando olhamos para os outros com a ilusão de que são diferentes de nós, ou quando o ambiente circundante influencia esse nirvana fortuito da absoluta satisfação. 
Sim, já senti o gozo da alegria em certos lugares. Certo dia, na quebrada de São Romeu, uma vez que me perdi na Costa Vicentina, ou naquele dia de péssima memória em que tentámos montar a tenda debaixo de uma ventania dos diabos. Senti o gozo da alegria num dia de péssima memória. No Caliço? Já tive alguns momentos em que me pareceu ter saído de mim próprio, ficando para trás de uma sombra enquanto as pernas obedeciam à mecânica de caminhar. Mas estes parêntesis não apagam o texto, são meras interrupções poéticas no meio de uma prosa que há-de ter o seu fim. 
O que a mim parece injusto é alguém me exigir que não note as desigualdades regionais e as assimetrias gerais que dão forma a esta terra, que desvie o olhar quando o leproso passa, que finja ser fecunda a terra seca e aceite sem questionar os crimes do presente que um passado demasiadamente enfatizado não justifica nem sequer disfarça. Andamos há anos a tentar montar a tenda debaixo de um vendaval terrível, ora troveja e chove, ora o céu aclara e o sol estende-se pelos campos, os horizontes são sempre incertos e ondulantes, são miragens que sabemos enganosas apesar de ser para lá que apontamos enquanto dizemos, mais ou menos determinadamente, é por ali, e vamos e seguimos, passo a passo, dia a dia, enquanto a terra treme apenas para nos lembrar de quão ínfimos somos quando a verdadeira tragédia bate à porta. 
Sim, há um sorriso sobre a mesa farta deste repasto, há um sorriso no cheiro lamechas da terra molhada, há um sorriso nas águas límpidas do rio e no passadiço que nos levará não sabemos bem onde. Mas há também incêndios, uma geometria sazonal de incêndios, saques, roubos, há um património em ruínas que a gente aceita ser reparado quando o pretexto é uma recriação histórica ou um festival de comes e de bebes, há castelos ao abandono, pontes caídas, há o que de melhor foi feito antes de nós e o que de pior nós vamos permitindo que seja feito, há um corpo em transformação que é também o nosso corpo e que por isso, só por isso, sentimos cada parede quebrada como se fosse um osso nosso e, sem hipérboles nem disfemismos, há esse abandono das terras que é a nossa agonia e há os resortes que são as unhas de gel de uma fachada insuportável. 
Portanto, um lugar onde me sinta feliz é um lugar onde os sentidos possam abstrair-se da correnteza social e histórica, é o lugar volitivo dos sons irradiados pela guitarra do Carlos Paredes ou das palavras cantadas pelo José Afonso, é um lugar de poesia pura como a que sempre se escreve anonimamente, é cinema e teatro e dança onde os palcos se mantenham de pé. É talvez o lugar de ficar, como diz o povo, a olhar para o passarinho. Não no lugar do retratado, antes no daquele que retrata (sic). 

2 comentários:

ZMB disse...

'é um lugar de poesia pura como a que sempre se escreve anonimamente'

esta parte do seu texto tocou-me particularmente e
deixou-me a pensar que poderia dar a sua sincera opinião a este texto: ele foi escrito na verdade por um duo a quatro mãos.

http://zmb-mur.blogspot.pt/2016/10/a-pirata-invisivel.html

saudações

hmbf disse...

Para quê a minha sincera opinião?


Eis a minha sincera opinião, o texto não requer opinião alguma. Escreva, escreva, e marimbe-se para as opiniões.