terça-feira, 25 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #8

Experimento uma estranha ambivalência sempre que chego a Évora: amigos conservadores desdenham do passado revolucionário da região, os mais progressistas insistem que se mantém conservadora como sempre. Uns sorrindo com nostalgia, outros esboçando refegos de raiva na testa, ambos oferecem relatos de famílias poderosas a quem inda hoje se tira o chapéu, de cafés onde é desaconselhável permitir entrada a senhoras, de gente com traços genealógicos amargos, do tipo que José Cardoso Pires ilustrou n’O Delfim. Percebo-os, julgo compreendê-los. É mal que assola o país de alto a baixo, não sendo exclusivo de Évora. Talvez uma das características mais terrivelmente incutidas em terras portuguesas seja esse conservadorismo social que apela à subserviência, à servidão, a um respeitinho oportunista com olhos nas boas graças, brutalizado em expressões como a do amigo de seu amigo. Évora não será excepção, nem aí o fenómeno se revelará mais intenso do que noutras regiões. Mas ainda hoje existe nesse Alentejo demasiada vindima à moda antiga, demasiada tourada, demasiados senhores, demasiadas estufas para exploração de mão-de-obra barata.
Daquelas muralhas guardo para mim, porém, outros ossos, porventura secundários e algo fúteis para quem ali viva ou tenha vivido. Tenho uma fotografia, de quando era muito pequeno, junto ao Templo Romano. Estou encaracolado no interior de uma escultura de mármore próxima do templo, com um ar feliz que me é hoje tão estranho que parece nunca ter existido. Se calhar não sou eu, mas penso que sou. Talvez Évora também não seja exactamente o que pensa ser, se é que pensa alguma coisa. O que guardo para mim daquela fotografia é apenas a memória vaga de um passeio em família. A Barragem de Alqueva era tão-somente assunto de jornal, tema de disputas partidárias sem nexo, como quase sempre são as disputas partidárias, arma de arremesso político, promessa por cumprir, sonho adiado. 
Cresci a ouvir falar no Alqueva sem nunca ter entendido o que era. Recentemente regressado, sentei-me no adro da Igreja Matriz de Monsaraz a fumar um cigarro. A conversa com um local surgiu naturalmente: que a barragem só servia os espanhóis, disse, que na margem portuguesa não era permitido ter gado, disse, mas que do outro lado da margem os animais até aprendiam a nadar, disse, que o desemprego e a desertificação eram irreversíveis, disse, mais barragem, menos barragem, disse, que de vez em quando ouviam-se motas de água e organizavam-se passeios, disse, que a paisagem favorecia o turismo rural, disse, mas agricultura nem vê-la, disse, quem hoje trabalha prefere serviços, disse, não está para mondar, disse, quem não trabalha vive do que lhe dão, disse… Foi nestes termos fatalistas que atravessei a paisagem húmida do neófito mar alentejano, parecendo-me pressentir no discurso novas temáticas para o cante e uma desconfortável sensação de jetskis deslizando sobre aldeias submersas.
Sejam quais forem os frutos que venha a dar, o Alqueva é um mínimo sinal de progresso numa região que parece estranhamente resistente ao mesmo. Das pedreiras de Vila Viçosa aos tapetes de Arraiolos, destes às quintas e herdades de Borba, há toda uma outra rota que podemos desenhar que já não se cinge aos tons de mármore nem aos bordados em lã nem às adegas… É a rota mística de uma morte que tem símbolos centrais nos cromeleques e na Capela dos Ossos e no chamado Templo de Diana, mas que encontrou na desaparecida Aldeia da Luz o expoente máximo de uma rejuvenescida significação. Esta morte, que digo mística, talvez seja uma das faces mais encantadoras do país. Daí que se organizem excursões para avistá-la. Há uma beleza nesta morte que é difícil descrever, é a beleza que alimenta a arqueologia, que estimula a imaginação, que oferece ao sangue português a nostalgia de que ele é dependente. O que nos resta de saudade deve ser por ali procurado, nem que seja entre as barbas do carismático Beato Salú (animal que contradiz as vias de extinção).
Como é óbvio, toda esta conversa propicia uma certa melancolia. O homem com quem troquei breves impressões em Monsaraz lamenta o que outros exaltarão, queixa-se de dores que talvez deleitem mentes diferentes da sua, corpos distintos do seu. Talvez praticamente tudo se resuma hoje neste país a uma palavra que lhe provocará artroses: turismo. Que teríamos a dizer de Mora, vila portuguesa que vem do séc. XVI, não fosse o Fluviário? Estes paradoxos, estas contradições de que somos feitos, são o princípio fundador da tal estranha ambivalência que experimentamos quando chegamos a Évora. Ali chegados, queremos ser cartuxos, mas só se nos for permitido palrar pelos cotovelos. Amamos o silêncio até estarmos dentro dele, não vivemos sem opinião e tagarelice. Parece existir há muito naquele lugar um duelo insanável entre a tradição e o progresso, não sendo de todo previsível que um vença o outro. O que há de agradável nisto é podermos visitar o Redondo e regressarmos da enoteca com o ar transformado num bom vinho. Que se trate de produtor estrangeiro a operar em Portugal é pormenor de somenos interesse.

2 comentários:

MJLF disse...

Tens uma foto em miúdo ao lado de uma escultura de mármore perto do templo? Gostava de ver essa foto, para identificar a escultura. Não era um morto num caixão? Se for essa é do José Pedro Croft. Gostei de ler o texto. saúde e bjs para a tribo

hmbf disse...

Vou procurar a foto.