sábado, 29 de outubro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #9

Um cartão salta de entre as páginas de um livro aberto ao acaso: Hotel Alarde, Algeciras. No verso, uma planta microscópica permite localizar o hotel e um parque de estacionamento. Em vão imploro à memória que me ajude a situar no tempo desvios por aquelas paragens. Socorro-me dos diários, neles registo os solavancos da existência, num caos de referências que nem eu consigo decifrar. A minha caligrafia acompanha os ventos do humor, adquirindo esta particularidade de se tornar incompreensível a um espírito ligeiro se tiver surgido em período espinhoso. E vice-versa. Os poemas constituem uma cábula imprescindível, pois surgem quase sempre em consequência de um tempo e de um lugar que me são fáceis de identificar. É num conjunto a que ofereci o título de “bolor na sola dos sapatos” que vou encontrar os esclarecimentos de que careço. 
Estive em Algeciras por alturas da Páscoa, escrevi um poema sobre as impressionantes procissões da semana santa, com inúmeras confrarias de aspecto sinistro carregando toneladas de altar aos ombros de homens exaustos. Recordo-me então de como fugi do caos em Sevilha, onde pernoitei uma única noite por ser quase impossível circular naquelas ruas e de todo impossível desfadigar numa péssima hospedaria. Acabei por ir parar ao Reino de Algeciras, repetindo o caos com a mesma intensidade, mas moderada multidão, até ter resolvido resvalar para Ceuta embarcado num ferryNada se passou em Ceuta, além da desilusão que me fez sentir saudades de certos lugares da minha terra. 
Ser português é isto, identificamo-nos por não sermos espanhóis e desidentificamo-nos por não suportarmos continuar portugueses. Pelo menos tal como nos entendemos, desapiedados, desgraçados, confinados, conservadores, hipócritas, cobardes, sempre empurrados pelas circunstâncias, convencidos de um passado heróico construído à mão de inevitabilidades e de necessidades, fatalistas, messiânicos. Não é preciso ir a Ceuta para sentir isto, mas é quanto basta para que pelo menos de olhos abertos outra clarividência trespasse os nevoeiros da História vendida ao desbarato.
Curiosamente, há locais em Portugal de uma beleza indiscutível onde estas matérias surgem à tona do espírito com a maior das naturalidades. Os cabos de Portugal são lugares de reflexão onde a nossa essência se mostra com um impacto tremendo. Dou o exemplo de três com os quais mantenho velhas relações de simpatia. 
Começo pelo Cabo Carvoeiro, em Peniche, também ele lugar de romarias à Capela de Nossa Senhora dos Remédios. O mais que se pode ali remediar é a percepção da nossa escala, sem que daí sintamos qualquer vestígio de inferioridade. Em criança fascinava-me com o Cabo Carvoeiro, as formações rochosas pareciam-me miniaturas de um Grand Canyon à beira mar plantado. Ainda hoje me delicio com os recortes nas rochas e os fossos que entre elas surgem como ratoeiras. É com inspiração infantil que desço à Varanda de Pilatos e fico ali largos minutos a olhar para o mar como se ele fosse uma multidão em fúria e eu o governador que hei-de lavar as mãos deste inferno não tarda nada. São os nomes que damos às coisas, somos nós enfiados entre os nomes, é a cabeça a redemoinhar fantasias. 
Desço ao Cabo da Roca, na bela freguesia de Colares, e estou no fim da Europa. Camões cantou este fim quando era ele o farol em construção de uma nação de poetas. Estranhas sensações se experimentam quando ali chegamos, a sensação de um animal em fuga perante o abismo, saber que não há mais para onde ir, uma prisão de encanto que dá forma à insularidade do pensamento. E agora, para onde me voltar? O único caminho que se avista possível é voltar para trás, nesse voltar para trás abrimos as portas à saudade porque ficamos a sonhar como teria sido se pudéssemos continuar. Mas também nos tornámos crentes, pois ainda que remota há sempre a hipótese improvável de um qualquer Moisés aparecer a separar as águas para que os lusitanos em fuga prossigam sua caminhada. 
De que fugimos em portos seguros? Talvez das aparências. Verdade que metemos as mãos à obra, quais Moisés de serralharia construímos navios que separaram os oceanos em dois como facas afiadas cortam cachaços. 
Chegamos a Sagres, ao Cabo de São Vicente, às supostas terras de um Infante acerca do qual todos os mitos se tornaram válidos. A Ponta de Sagres reveste-se do misticismo da neblina, nela os ventos cruzam-se e o sol nasce no mesmo lugar onde se põe. Promontório de meter respeito com falésias gigantescas à escala portuguesa, uma espécie de muralha a defender-nos do invasor que teremos de domesticar para sobre ele cavalgarmos o mundo. Perdoem-me a face tétrica do pensamento, mas tenho para mim que aquele é o mais belo lugar para um homem pôr fim à vida. Ali chegados, apetece-nos saltar. Mesmo sabendo que durante a queda nenhumas asas surgiriam por magia para nos fazer levantar voo, mesmo sabendo que nenhum anjo nos safaria da morte certa, é quase certo que voaríamos por brevíssimos instantes. 
Poucas perspectivas me parecem mais aliciantes em língua portuguesa do que esta de singrar em queda livre. Ou então apelarmos novamente às vagas da memória e tentarmos descortinar entre o matagal de ilusões e de factos as «breves imagens vivas», como diria Breton, de uma alegria em água doce, descendo rios que do alto das serras vão dar a esse mar do nosso desespero. 
Dois rios inteiramente portugueses, ambos vindos lá da Estrela — que momento de inspiração terem dado o nome de Estrela à nossa serra! —, com rotas diversas mas ofertas similares. Não posso afirmar que os tenha descido, seria um abuso. Apenas que fintei parte do seu curso. O Mondego, apanhado em Penacova até Coimbra. E o Zêzere, da barragem de Castelo de Bode a Constância. 
A gente desce os rios e vai-se-nos a mania das grandezas. Habituados à paisagem do western norte-americano, atravessada pelos caudais imponentes do Rio Grande, do Missouri ou do Mississippi, apanhamo-nos nas águas tépidas do Mondego e do Zêzere e faz-se-nos um certo pejo de chamar rápidos à agitação das águas por meia dúzia de pedregulhos inofensivos. Há no entanto nesta singeleza uma formosura que seria imprudente desprezar. O quartzo e o xisto são ossos de que somos feitos, em torno dos quais se desenvolveu uma carne que importa cuidar. 
Se em tempos mais recentes tem sido outro o reparo prestado às coisas do ambiente, não podemos distrair-nos do que de melhor temos. Nem, por distracção, impedir, afastar ou dissuadir todos quantos por cá vivem da relevância crucial que tem a defesa deste património único. Mais do que as pessoas é ele, esse património, o fundamento da terra, até porque é para servir de berço às pessoas que ele existe. 
Tenho bem vivas na carne as cicatrizes de jubilação proporcionadas dentro ou à beira rio, vindas da infância e até hoje cultivadas como uma sede que se mata para ir garantindo o corpo de pé. Não vejo como poderia manter-se de pé este país sem os seus rios e sem o que em torno deles se cultiva, incluindo um olhar humano mais selvagem e, por isso mesmo, mais sensível. Porque ao contrário do que tantas vezes se apregoa como lição de escola: não é da cultura que vem a sensibilidade, é de sabermos colher o fruto respeitando-o. 
Leio num livro sobre Nova Iorque o sufoco da cultura, representado pelo letreiro duma placa cuidadosamente e rigorosamente colocada num parque: «não pisar a relva». Ora, o embrutecimento da pessoa humana começa precisamente nesta cultura de «não pisar a relva». Daqui a termos a relva em vias de extinção será um passo ligeiro. Proibir a alegria do contacto com a natureza não é solução para nada. A aposta deverá ser outra, a de promover o respeito pela natureza em contacto com ela. Em suma, pisar a relva com amor. Será que ainda vamos a tempo?

6 comentários:

Amália Grimaldi disse...

Belo texto, leitura leve e agradavel!

hmbf disse...

Obrigado.

Manel Mau-Tempo disse...

basta mudar os avisos :) é uma excelente ideia: Pise a relva, mas com amor

Célia disse...

Sinto-me chegada de uma viagem de montanha-russa...

Célia disse...

Sinto-me a descer de uma montanha-russa. Tal foi a vertigem...Obrigada pela partilha!

hmbf disse...

Manel, seria uma excelente placa. Célia, grato pelos comentários.