terça-feira, 29 de novembro de 2016

OPÇÕES

Há quem se contente com o velho dito: se não os consegues vencer, junta-te a eles. Há quem não se contente com o velho dito. Anda triste,

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

FLASHING FOR THE REFUGEES ON THE UNARMED ROAD OF FLIGHT

Muitas canções de Another Side of Bob Dylan (1964) distanciam-se do tom socialmente empenhado dos registos anteriores, enveredando por um lirismo de tipo romântico marcado por histórias onde incompatibilidades diversas colocam o amor em xeque. All I Really Want to Do dirige-se desde logo a uma segunda pessoa, neste caso indefinida, declarando uma posição sobre o relacionamento a dois: «I ain’t lookin’ for you to feel like me / See like me or be like me». Canções como Black Crow Blues ou I Don’t Believe You, mas também Ballad in Plaine D ou It Ain’t Me, Babe exibem o estigma da separação. Noutros casos, a presença de personagens femininas – a «gypsy gal» de Spanish Harlem Incident, Ramona, ou mesmo Rita da divertida Motorpsycho Nightmare – parecem aludir a uma espécie de incompatibilidade entre o espírito livre e alucinado do trovador, como se nota em I Shall Be Free N.º 10, e os requisitos de uma existência a dois. 
É relevante que no primeiro volume das crónicas Bob Dylan reforce a importância determinante que a família acabou por exercer nas suas decisões, sobretudo na opção por uma vida recatada e tanto quanto possível concentrada no núcleo familiar. Mas mais relevante ainda é tentar conciliar essa opção com a bandeira da liberdade. Naquela que é talvez a mais reinterpretada canção de Another Side of Bob Dylan é-nos oferecida uma perspectiva complexa da liberdade, a qual aceita no seu vasto programa todos quantos à face da terra façam da vida uma luta pela sobrevivência. O que é a liberdade senão esta possibilidade de, como se costuma dizer, fazer pela vida? 
Chimes of Freedom é um poema enorme em qualquer parte do mundo, daí que não seja de estranhar o sentido que faz tanto na voz de Bruce Springsteen como na de Youssou N’Dour. Os The Byrds ofereceram-lhe uma versão açucarada, saltando três estrofes inteiras. Mas vale mesmo a pena ler aqui a letra na íntegra.


CONFORTO DO LAR

Deverá o conforto de um lar determinar a credibilidade de uma opinião?
Opiniões de barriga cheia acerca do problema da fome são credíveis?
Precisará de contrair o vírus aquele que o trata?
Se a fome impede o pensamento, como pensar a fome sem estar alimentado?
Aquele que atravessou o terror estará mais habilitado a falar acerca do terror do que aquele que nunca o atravessou?

O que é um lar confortável para o animal selvagem?
Poderá o macartismo ser aceitável?
Que credibilidade oferecer a teorias sobre a liberdade proferidas por aquele que coloniza?
A caridade iliba o crime?
Mais simples: quem estou eu a ajudar se comprar umas sapatilhas Adidas made in Camboja?

domingo, 27 de novembro de 2016

FERIDO

Sob o pseudónimo literário de m. parissy, o jornalista Mário Galego (n. 1969) vem publicando desde a estreia em 1989, com um volume em edição de autor intitulado corpo indómito, vários livros de poesia em editoras de distribuição restrita. Oriundo da Nazaré, foi aí que participou na dinamização de projectos editoriais como a extinta non nova sed nove ou a activa Volta d’Mar. Além dos opúsculos editados através desses projectos, conhecemos-lhe livros aparecidos na Universitária Editora - dublin e tu (1999) -, nas Edições Mortas – morte com dedos em ferida (2000) -, na Black Son Editores - mãos de arquipélago (2003) -, na Canto Escuro – vertigem (2007) -, e na Tea for One – dança (2015). O seu mais recente livro, intitulado Ferido (Setembro de 2016), é o quarto título que faz sair na Volta d’Mar. Tal contabilidade é relevante para que se perceba a inscrição desta poesia num circuito marginal ao da produção poética merecedora, aqui e acolá, de atenções críticas facilitadoras de uma visibilidade menos reduzida.
Do que conhecemos desta poesia, importa salientar, desde logo, uma forte ligação ao lugar de origem do seu autor. Os livros de m. parissy são profícuos na reprodução de uma paisagem costeira onde o mar, a praia, as falésias, marcam presença recorrente. Ferido não é excepção. Logo nos primeiros versos encontramos “mares desconhecidos” e “cheiro a peixe”, tornando-se ainda mais evidentes as demarcações geográficas com a referência a locais concretos tais como a pensão Leonardo ou a uma toponímia deveras familiar: «rua França Borges, rua / da Saudade, rua das Flores» (p. 10). Estas referências, que em livros anteriores poderiam surgir mais veladas, assumem num livro com as características de Ferido um papel determinante. São o espaço de ocorrências que os versos recuperam e percorrem como quem narra uma história. Ainda que a dimensão metafórica não tenha sido de todo abandonada, ela encontra-se aqui em equilíbrio com a dimensão narrativa.
Não é por acaso que o livro começa com a conjugação do verbo haver na primeira pessoa do singular do pretérito imperfeito do indicativo, anunciando a existência de algo ao mesmo tempo que nos envia para um tempo passado. Onde se lê havia podíamos ler era uma vez, como tradicionalmente sucede na maioria das histórias. E é a partir de aqui, e desta forma, que somos introduzidos num universo íntimo onde a memória ocupa uma função primordial. De estrofe em estrofe, como quem salta de capítulo em capítulo numa sequência cujos versos se interligam naturalmente, ficaremos a saber que esse tempo é o da infância, clara e objectivamente declarado numa das estâncias finais do poema. É a memória dos sete anos, idade de uma etapa escolar iniciática, que aqui vem à superfície, não por dela se conservar a banal imagem do paraíso perdido ou o tão vulgarizado sentimento de uma nostalgia romântica, mas por nela se entreverem fracturas que o poema procura resolver num gesto que é em si mesmo catártico e, por isso, rejuvenescedor: «Foi preciso / inscrever o passado, para que dali / voltasse a nascer» (p. 30).
A par desta dimensão narrativa do poema, m. parissy insiste numa das suas características discursivas mais reconhecíveis, isto é, o uso sem peias de uma linguagem metafórica como reforço imagético de sensações e de percepções dos momentos em que o sujeito poético se coloca: «Um nevoeiro cobria o / peito» (p. 10), «Um sol / por baixo da língua» (p. 11), «Acordava com o silêncio que doía» (p. 22)… Agradável se torna quando associamos estas leituras da realidade à criança de sete anos aludida no poema, por fazerem ainda mais sentido no contexto específico em que a criança se encontra: fechada num quarto, isolada do exterior, adivinhamos que por doença, ligada ao mundo apenas através de uma janela de madeira velha que nunca se abre. Seis meses de reclusão aos sete anos de idade são, pois, a ferida que o poema procura sarar. Dessa experiência de reclusão, surge «O medo que a liberdade / não existisse» (p. 37). Ora, que medo maior pode um poeta sentir?

Tudo era esterilizado: pratos,
toalhas, roupa. Nada podia conter
sinais do exterior. Nem sequer as
revistas Natura pousadas na mesa-
de-cabeceira. Nem a comida, nem
as duas mãos que a transportava.


A esterilização do espaço interior para o qual vamos sendo deslocados ao longo do livro contrasta com a liberdade do espaço exterior, onde para lá da sombra se vêem rapazes a brincar, a jogar a bola, e o mundo decorre com uma normalidade insultuosa para quem se encontra na anormal circunstância de não poder sequer ser tocado pelas mãos impuras que lhe trazem comida. Entre os planos da doença e da saúde estabelecem-se elos de inúmeras leituras possíveis, acerca dos quais poderíamos formular as mais variadas conjecturas. A verdade é que não nos parece legítimo enveredar por tais caminhos quando a reminiscência transfigurada num livro como Ferido é já de si tão forte e intensa: uma criança de sete anos, isolada do mundo durante seis meses, fechada num quarto, limitada a observar o mundo exterior por uma janela fechada como se fosse um criminoso sem consciência do crime que cometeu. Transportar a intensidade de uma experiência destas para o poema, sem a tornar despudoradamente emocional e sentimental, é revelador de um engenho sem o qual nenhuma boa poesia subsiste. 

NA MORTE DE FIDEL

Tem piada, o modo como as pessoas reagem à morte de um homem. Lembrava-me ontem a Ana da repulsa que partilhámos ao observar as imagens de Muammar al-Gaddafi ou Saddam Hussein a serem humilhados e executados. Nenhuma simpatia pelas personagens fundamentava tal repulsa, apenas respeito pela pessoa humana. Esse respeito paradoxal que nos obriga a salvaguardar a humanidade da selvajaria, mesmo quando estão em causa seres humanos que atentaram contra outros seres humanos. 
O exemplo de Fidel é diferente, muito diferente. As pessoas que festejam a sua morte têm as suas razões, tal como aqueles que ainda hoje celebram o aniversário de Salazar. Tenho a certeza que há-de haver quem festejará a morte de Mário Soares, como vi pessoas festejarem a morte de Cunhal. Há gente para tudo, diz a minha mãezinha amiúde e eu repito. 
Mas para mim Fidel é mesmo um herói, sem qualquer espécie de dúvidas e apesar de vários gestos que podemos criticar na sua acção ao longo dos anos. As grandes figuras históricas são sempre ambivalentes. Constato porém que para as pessoas que hoje celebram a morte de Fidel, chamando-lhe ditador, como se nessa palavra estivesse contido o significado final do mal (Bush filho, por certo, não foi um ditador, e no entanto…), Cuba não existia antes da revolução. Saberão as pessoas o que era Cuba antes de Fidel e de Che? Saberão o que era a Cuba de Fulgencio Batista? Talvez não fosse esperar muito que investigassem um pouco, procurando pelo menos perceber que a História não é a preto e branco. Está tingida de inúmeras nuances
Libertada Cuba de Batista, saberão de facto as pessoas o que foi o regime implantado por Fidel e seus camaradas? Como se relacionou com o mundo do seu tempo? Como conseguiu sobreviver à reacção do neo-colonialismo norte-americano? Saberão das privações a que ficou obrigada toda uma nação depois de um embargo que fez o que fazem sempre as tão elogiáveis "democracias" do mundo capitalista? Isto é, isolar, condicionar, manipular, obrigar os outros a serem como elas são em proveito não de si próprias, mas dos interesses de terceiros. 
Leia-se este livro e tente-se perceber um pouco para lá dos lugares-comuns que tantas vezes limitam o pensamento. Muitas pessoas estarão convencidas de que a democracia, por si só, é um dado adquirido, mesmo quando permite que energúmenos se perpetuem no poder. E que democracias? Votar de quatro em quatro anos? Esperar que esta gente esclarecida possa em consciência escolher os seus líderes? Fará sentido a democracia se não for acompanhada de educação e de cultura? De uma imprensa de facto livre que não esteja à mercê dos interesses de quem a financia? 
Mais ou menos repressivos, os sistemas encontram sempre maneira de reprimir quem se lhes oponha. Em última instância, somos todos vítimas das black fridays que, tal como nos tempos do pão e do circo, falseiam a negra realidade de um mundo profundamente desigual, assimétrico, onde uns poucos obesos consomem desmesuradamente os recursos do mundo, condenando à miséria perpétua a maioria que nele sobrevive em condições democraticamente aceitáveis. Mas as boas consciências do capitalismo selvagem podem suspender a democracia quando bem entenderem.
Grato, pois, a Fidel, e a outros como ele, por terem colocado as suas vidas ao serviço de um mundo mais equilibrado, contra injustiças que, está visto e provado, não são eleições de quatro em quatro anos, com percentagens absurdas de abstencionistas, que as vão resolver. O problema é mais profundo e não tem uma única face. Tem várias. Daí que seja tão subjectivo falarmos hoje de "imprensa livre" (qual?) ou de democracia (quais?), apontando o dedo àqueles cuja história foi e é de resistência, resiliência e sobrevivência a males bem maiores do que não haver eleições de quatro em quatro anos ou uma imprensa tão livre e esclarecedora como, por certo, será a nossa (para não irmos mais longe). 
A talho de foice, desejo apenas que todos os portugueses que este Natal façam compras numa Zara, a título de exemplo, se sintam imensamente gratos pela democracia que vigora no Bangladesh.

sábado, 26 de novembro de 2016

FIDEL CASTRO (1926-2016)


A história absolver-me-á! - afirmou nos idos de 1953. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DEFINA POVO

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A URGÊNCIA DE UMA CANÇÃO

Será sempre ingrato tentar determinar a influência social de uma obra de arte. Não tão ingrato é procurar perceber como essa obra se relaciona com a sociedade do seu tempo. Muitas das canções que Bob Dylan escreveu são autênticas crónicas de um tempo, reflectindo angústias, temores, dramas de toda uma sociedade. Mas será que morreram nesse tempo? Terrível de constatar é a actualidade que mantêm, nomeadamente quando apontam o foco para os direitos cívicos na América de todas as oportunidades. Tomemos de exemplo duas canções do álbum The Times They Are A-Changin’ (1964), sem dúvida um dos mais empenhados em colocar a canção ao serviço de causas. Escutemos Only a Pawn in Their Game:


A qualidade do vídeo pode não ser a melhor, mas a dimensão histórica do acontecimento merece a partilha. Refere-se a letra a Medgar Evers, um activista dos direitos civis assassinado a 12 de Junho de 1963 por um declarado racista que os tribunais americanos conseguiram absolver por duas ocasiões. A performance de Dylan data de 28 de Agosto de 1963. Estávamos em cima dos acontecimentos e Dylan cantava, para uma multidão de negros, que o assassino de Evers era apenas um peão no jogo de uma injustiça maior. Que injustiça maior era essa? A forma como os brancos pobres da América eram manipulados e usados, pelos senhores do poder, contra os negros: «the poor white man’s used in the hands of them all like a tool». O ódio de Dylan, por assim dizer, não se afirmava contra um criminoso como Byron De La Beckwith, apenas condenado em 1994, mais de 30 anos depois do homicídio cometido. A letra da canção não fica pela rama, vai à raiz do problema. Outro exemplo imperdível da inteligência dylaniana é a canção The Lonesome Death of Hattie Carroll. Vale a pena ver este vídeo com atenção, até pelo que tem de pedagógico sobre a construção de uma letra para ser cantada:



Partindo mais uma vez de factos, Dylan não se limita a relatar o que levou à morte de Hattie Carroll. São diversas as versões acerca dos acontecimentos de 9 de Fevereiro de 1963 em Maryland, sendo certo que Hattie Carroll foi insultada e agredida por um rapaz branco, rico, que se encontrava alcoolizado e havia provocado vários distúrbios nessa mesma noite. Zantzinger, o jovem branco, agrediu Hattie, de 51 anos, mãe de 11 filhos, com uma bengalada, acabando esta por falecer de hemorragia cerebral. Apanhou seis meses de pena suspensa. De estrofe em estrofe, Dylan conta os factos e remata cada uma das estrofes com três versos de elevado teor crítico: «But you who philosophize disgrace and criticize all fears / Take the rag away from your face / Now ain’t the time for your tears». Só na última estrofe, depois de denunciar a injustiça da pena aplicada ao criminoso, é que o verso derradeiro se transforma: «For now’s the time for your tears». Como se estivesse a apontar todo um sistema judicial e dissesse: tenham vergonha na cara. Talvez estas não sejam canções de protesto, mas são, certamente, canções de denúncia. E é isso que as torna urgentes ao longo dos tempos. 

MESA 26


Num programa que começa com Sonic Youth, ao minuto 7:13 continua com um texto do livro ao alto. Adolfo Luxúria Canibal ofereceu voz à Mesa 26. Amigos fizeram-me chegar o link: ouvir aqui. Escusado será dizer que fiquei tão surpreendido quão feliz por me ouvir na voz do vocalista dos Mão Morta. O texto:

MESA 26

Tento abrir um livro na página certa. Retomar o sentido dos sublinhados. Dobro o pescoço para a esquerda. Depois, para a direita. Como se quisesse encostar os ouvidos aos ombros. Rodo a cabeça. Descomprimo os nervos. Não encontro a página certa deste livro. Estarei pronto para a página certa? Volta e meia, sou interrompido por uma gargalhada. Duas mulheres aconchegam-se no frio. Duas mulheres nuas, sentadas à beira do cais. Todas as mulheres nuas sentadas à beira de um cais são belas. Amo-as. Acendo um cigarro, bebo um copo de vinho. Não fosse real, seria um cliché. Olho as mulheres no cais. O mar tão vazio que até ofende. Retomo os sublinhados. Os papéis amarelos destacando certas páginas cuja importância esvanece ao pé das mulheres. Que consideração dar a um caixão de palavras secas, quando a natureza nos grita do outro lado da rua? Tanto tempo perdido. Assaltam-me alguns momentos. Assaltam-me livros fechados em estantes poeirentas. Mais uma imagem. Mas nada justifica esta desistência. Nada justifica este ritual morto de respirar o mundo numa página manchada de tinta. Como quem evita desalentar uma oportunidade. A oportunidade de aceitar, humildemente, o sorriso que nos é enviado por duas mulheres nuas à beira de um cais.

Estórias Domésticas & Outros Problemas, OVNI, Dezembro de 2006, pp. 87-88 (esgotado).


O programa prossegue com Soul Coughing, Fernando Guerreiro… Maravilhosas companhias me arranjaram.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

EM DIRECTO NA TELEVISÃO

David S. “Davey” Moore foi um pugilista norte-americano que morreu aos 29 anos de idade "em pleno combate". No dia 21 de Março de 1963, ao que parece no dia da poesia, bateu-se contra o cubano Sugar Ramos com direito a transmissão televisiva a nível nacional. Ainda antes de abandonar o ringue, proferiu algumas declarações. Mas no balneário as lesões consequentes do combate revelaram-se fatais. Entrou em coma, acabando por falecer 75 horas depois. Bob Dylan dedicou-lhe uma canção intitulada Who Killed Davey Moore?



A partir de um facto histórico, as interrogações são um tratado acerca da desresponsabilização. Quem matou Davey Moore? — pergunta o trovador. E todos lhe respondem “não fui eu”. Todos têm um argumento que os iliba e desculpa perante os outros. Porventura de consciência aligeirada, já que limpa não estará, a plateia assiste ao tombo do guerreiro alheando-se da desgraça. O tema é antigo e podia levar-nos até às mãos lavadas de Pôncio Pilatos. Ao escutar esta canção ocorrem-me inúmeras situações de alienação social onde o desinteresse das populações redunda numa criminosa cumplicidade. A versão de Pete Seeger é absolutamente maravilhosa:

A PUTA CAMPONESA


O muro alto da frente que tapa o pátio
tem com frequência um reflexo de sol infantil
que lembra o estábulo. E o quarto desarrumado
e deserto de manhã, quando o corpo desperta,
tem o cheiro do primeiro perfume inocente.
Até o corpo, enrodilhado no lençol, é o mesmo
dos primeiros anos em que o coração saltava descobrindo-o.

Aqui acordamos desertas ao apelo antecipado
da manhã, e na pesada penumbra ressurge
o abandono dum outro despertar: o estábulo
da infância e o pesado cansaço do sol
quente sobre os portais indolentes. Um perfume
impregnava ao de leve o familiar suor
dos cabelos, e os animais sentiam-no. O corpo
gozava furtivo a carícia do sol
insinuante e calma como uma leve carícia.

O abandono do leito acalma as pernas
estendidas, jovens e roliças, quase ainda infantis.
A rapariguinha inocente sentia o cheiro
do tabaco e do feno e tremia ao contacto
fugitivo do homem: gostava de brincar.
Às vezes brincava com o homem deitada
no meio do feno, mas o homem não cheirava os cabelos:
procurava-lhe no feno as pernas contraídas,
moía-lhas, esmagando-as como se fosse seu pai.

O perfume eram flores pisadas sobre pedras.

Muitas vezes regressa no lento despertar
aquele sabor decomposto de flores distantes
e de estábulo e de sol. Não há homem que saiba
a subtil carícia daquela acre recordação.
Não há homem que veja, além do corpo estendido,
aquela infância passada numa ânsia inocente.


Cesare Pavese (n. 9 de Setembro de 1908, Santo Stefano Bello, província de Cuneo, Itália - m. 27 de Agosto de 1950, Turim), in Trabalhar Cansa, tradução e introdução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Fevereiro de 1998, pp. 101-103.

TEXTOS DE CONTRACAPA

Nem se dão ao trabalho de ler. Basta aparecer. O texto pode dizer cobras e lagartos por entre linhas, pode ser acéfalo, acrítico, pode ser um chorrilho de baboseiras, que não interessa. O que interessa é ter capa e foto, o artista em corpo para que seja celebrada a referência. E é só isso que se celebra, e no celebrar está a suma do interesse público. Em privado. Que isto agora é tudo público em privado. Ou será privado em público? Ou será privado de público?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

COINCIDÊNCIAS



São apenas obras literárias sofríveis assinadas por extraordinários escritores de canções. Belos Vencidos e Tarântula foram originalmente publicados em 1966, estão ambos editados em Portugal pela Relógio D’Água, traduzidos por estimáveis poetas da minha geração. Margarida Vale de Gato traduziu o livro de Leonard Cohen, Vasco Gato traduziu o livro de Bob Dylan. É ainda curioso que ambos os tradutores tenham o mesmo apelido. Demasiadas coincidências. 
Do livro de Dylan podemos reter um desejo e o reconhecimento das limitações que impedem o desejo de se concretizar: «gostaria de fazer algo que valesse a pena como por exemplo plantar uma árvore no oceano mas não passo de um guitarrista». Do romance de Cohen, igualmente experimental, mas menos confuso, podemos guardar inesperadas identificações escatológicas em forma de dúvida: «Por que me sinto eu tão reles quando acordo pela manhã? Especulando se vou ou não ser capaz de cagar. O meu corpo vai funcionar? As minhas tripas vão conseguir triturar? A velha máquina será capaz de transformar a comida em merda castanha?» 
Eis-nos perante os mais profundos dilemas de um homem. 

DA TERRA OCA


9.

os barcos ficam amarrados aos paredões
número um, número dois, número três do cais
e o frio aquece, ao redor dos guindastes
as grossas camisolas de lã dos estivadres
parados entre as encomendas e a última escala.
enquanto as docas estão ancoradas
vão contando como e porquê
viram, diferentes, as auroras boreais. 
dizem: mais para cima é o gelo
ou a perfídia magnética do pólo...
no perigoso rebordo das lendas
o desconhecido não se relata
mas inventa-se, de ironia em ironia
pelos interstícios dos mapas. 
é insuportável o reflexo do sol
neste frio e o mundo pode ser
um discurso impaciente
no meio de um grande silêncio.
ícaro teria voado para lá
onde dizem nascer os pássaros
e os gelos, mais a norte, se derretem?
é preciso explicar o inverso sentido dos climas
na transgressão dos animais... aqui
sabe-se de tudo como quem espreita
os vizinhos chegando aos bordos pelas escadas.
alguns dizem — no entanto —
que certos exploradores
foram mesmo silenciados pela loucura:
outro sol no centro do mundo.


R. Lino (n. 1952), in Atlas Paralelo (1984). Estreada em 1984 com Palavras do imperador Hadriano: Primeira, Segunda e Terceira Séries (Coimbra, Centelha), R. Lino é uma das mais discretas poetas portuguesas contemporâneas. Além de moderadíssima em obra publicada, prima pela reserva num tempo em que o culto da imagem tantas vezes sobressai diante da obra feita. Ainda em 1984, publicou Atlas Paralelo na saudosa colecção Gota de Água, da INCM. Seguiram-se Paisagens de Além Tejo (Rolim, 1986) e Daquíra (Frenesi, 1988). Refira-se que Atlas Paralelo e Paisagens de Além Tejo constituiriam os dois primeiros volumes de uma trilogia a ser completada com Mapas, sobre o qual não temos qualquer notícia. Depois dos títulos vindos a lume durante a década de 1980, R. Lino regressou apenas em 2012 com : Predação: / Urânia, Nós e as Musas (edição da Autora). Em 2013 a Companhia das Ilhas publicou-lhe Baixo-Relevo, com poemas concebidos nos idos de 1984 e 1985. Enigmática, esta poesia furta-se a definições programáticas. Nela reconhecemos a relevância dos dados históricos e geográficos, deles surgindo uma linguagem sem preocupações retratistas ou testemunhais.  Climas, ambientes, paisagens, lugares, sítios povoados por fauna e flora mormente campestres, atravessam esta obra sem que nela os elementos rurais se sobreponham a uma criticidade ontológica sem fronteiras de qualquer espécie. Paralela à geografia física dos dias, surge a geografia do poema entendido não como representação, mas como realidade outra onde lugar e história são assimilados e dessa assimilação decorrem como expressões do ser.

sábado, 19 de novembro de 2016

RECORDAÇÃO DO PAI


Batia com a esquerda,
por vezes cego de raiva.
A direita estilhaçada até ao ombro
num campo de batalha russo.

Quando chovia
a luva preta cheirava a cabedal
e doía-lhe o braço perdido.

Se estava de feição dava-nos dinheiro
e deixava-nos enfiar-lhe o elástico branco
pela manga da camisa.

Mais ainda que a força da sua esquerda
e os rompantes da sua ira
temíamos
a sua ternura sem jeito.

Talvez até o amássemos,
sentindo-lhe escondido o medo da solidão.
Mas acabávamos sempre a fugir-lhe.

Melhor me lembro
desse braço postiço
com a mão de couro preto
do que lembro o seu rosto.

Ainda estou a vê-la
imóvel na toalha branca,
ao lado do prato,
com a carne já cortada:

Incapaz de violência,
e de uma dependência inexprimível.


Hans-Ulrich Treichel (n. 12 de Agosto de 1952, Versmold, Vestefália, Alemanha), in Como se Fosse a Minha Vida, tradução colectiva (Mateus, Outubro de 1993), revista e apresentada por João Barrento, Quetzal Editores, 1994. pp. 13-14.

SUBMARINO N.º 1


Submarino - Rivista Luso-italiana di Studi Comparati, n.º 1
Direttore responsabile: Carlo Cerrato
Comitato Direttivo: António Fournier, Alessandro Granata Seixas, Manuele Masini
Scritturapura Casa Editrice, Dezembro de 2015


- Cesare Pavese (in Suicidas, Deriva, 2013), traduzido para italiano por Livia Roggero, pp. 52-53;
- Solidão (in Antologia do Esquecimento, 2003), em edição bilingue, versão italiana por Livia Roggero, p. 109.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

UMBIGO

Na precipitação preguiçosa com que tudo é feito e escrito, literatura ou crítica, raríssimos são os que têm, ao mesmo tempo, a culta humildade de conhecerem as suas limitações, e a autoridade para falarem de alguma coisa que não seja a sua raivinha semanal. Pelo que não há alternativa para um honrado escritor português senão partilhar alguns louros com a canalha, e receber dela o esterco que ela lhe reserva. Isto não sou eu quem o diz — curiosamente, é toda a gente, quando fala dos "outros", por certo achando que são menos como os "outros", exorcismando-se. Não haverá no mundo vida literária em que tanta gente se compraza deliciadamente, em privado, com julgar pulhas os outros. Em público, é diferente. Pois saibam V. Ex.ª que, enquanto não tiverem a coragem de se conhecerem como tal, continuarão a sê-lo e a envenenar uma juventude que não tem outro remédio senão criar-se à vossa imagem e semelhança. Como princípio de cura, leiam o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. E deixem de ler-se uns aos outros, que não vale a pena. Há décadas passadas, foi moda atacar José Régio por, dizia-se, contemplar o próprio umbigo. O mais que pode dizer-se, hoje, é que mais vale o próprio do que o alheio. Porque, se uma pessoa começa no umbigo, é um perigo onde acaba.

Jorge de Sena, in Poesia e Cultura, excerto do ensaio A poesia e a vida (1972/73), Edições Caixotim, Outubro de 2005, pp. 107-108.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

LANÇAMENTO

Talvez fosse avisado deixar a biografia fora disto, não se desse o caso de em nota introdutória ao seu mais recente livro, de título Lançamento (Douda Correria, Outubro de 2016), Margarida Vale de Gato (n. 1973) induzir entre os poemas coligidos e a vida vivida uma interdependência impossível de ignorar. Tal interdependência sucede em dois sentidos paralelos, o da perda, aliada a mortes inesperadas, e o de quem permanece entre os vivos. «Eu quero fazer sentido da perda», declara a autora como quem manifesta um programa poético. Para tal, cada um dos poemas reunidos convoca um nome próprio. Independentemente das associações que a uns e a outros possam ser permitidas, em apenas um dos poemas o nome próprio se faz acompanhar do apelido que determina a pessoa a quem os versos claramente se dirigem: Rui Costa, cabeçudo, por tudo. Trata-se de uma excepção, pois em mais nenhum poema se estabelece uma interlocução do mesmo tipo. Ainda que a espaços possamos encontrar elos objectivos entre sujeito poético e receptor (no poema Alice, por exemplo, é evidente que o discurso se dirige à filha da autora), esta objectividade não é de todo relevante para a compreensão do poema. De resto, há nomes que se repetem — Luís (4X), Miguel, Rui e António (3X), Pedro (2X) —, um que surge no plural — Teresas —, outros que aparecem acompanhados: Jaime e José; António, Henrique, Patrícia; Flarimundo e Manuela
Seguido de uma ensaio onde a autora achou por bem explanar os motivos por detrás de tal arrumação, ficamos a saber que: «Estes nomes que eu amo não são, de todo, recados, nem sequer destinatários. Quando muito transferências, estafetas e não arautos. Agrada-me por enquanto que se mantenham como sentinelas, resguardando a interpretação apressada. Interessa-me o confessional sonegado, o encontro entre escrita e biografia no emocionante efémero, que se resolve e fixa, quando lhe assiste a arte, sem causas nem razão». Como compreender este encontro entre escrita e biografia senão deixando a biografia fora disto? Ao leitor, pouco importará a biografia sonegada no poema. Esta é já a expressão de uma outra coisa que não exactamente a vida. O que o leitor encontrará é uma paisagem, nesse sentido que outrora lhe foi dado por quem descobriu haver entre a representação e o objecto representado uma cisão inultrapassável. Talvez caiba ao poeta, assim como a qualquer artista, fazer da sua obra uma ponte entre a experiência do vivido e uma possível transfiguração dessa experiência, conquanto aceitemos não haver obra onde a discursividade poética aflua invariavelmente para algo que por detrás da realidade se esconde. Que algo é esse? Podemos chamar-lhe ideia, podemos chamar-lhe amor, podemos chamar-lhe paixão, podemos chamar-lhe afecto, podemos chamar-lhe sentimento, podemos chamar-lhe respiração. Podemos chamar-lhe imensas coisas. No fundo, é sempre um ponto de encontro entre a percepção daquele que se expressa e a percepção daquele que pela interpretação procura entender o que foi expressado. 
Neste sentido, os nomes próprios atribuídos aos poemas não diluem a função contextualizadora de um título. Antes reivindicam para os poemas uma aproximação à vida que pode ser entendida, em suma, como um dos propósitos da escrita. Podíamos confrontar esta posição com a de um poeta como Ruy Belo, para quem o acto de escrever era uma espécie de suicídio repercutido até à palavra derradeira. «Ao escrever, mato-me e mato», escrevia. Resta saber se neste gesto não está implícita uma revogação da morte, na medida em que ao matar-se e matar aquele que escreve transfere para o texto os dados da vida. É precisamente de transferências que fala Margarida Vale de Gato, propondo para a poesia «um lugar grato onde um amigo ao menos nos habita». Realiza-o insistindo numa sintaxe complexa, repleta de inversões, e na desconstrução de formas fixas já testada nos livros anteriores, acrescentando agora uma inusitada narratividade em alguns poemas, sendo que em dois deles a quebra de verso cede à prosa e o discurso assume uma configuração sociopolítica que não é de todo a mais recorrente nesta poesia. 
Ainda que os temas sejam diversos de poema para poema, além do sentimento de perda que motiva o livro há uma outra temática que parece transversal. Refiro-me à inclinação para uma paisagem campestre desde logo introduzida nos primeiros versos: «Planto jasmim semeio bagas carrego terra / numa pá desde a ribeira ao quintal vingam / coisas que vivem». Sem que se oponha aos retratos capturados na agitação da cidade, este olhar mais estendido sobre as coisas da terra e, por vezes, penetrador de uma paisagem rural, não idealiza a Natureza nem sequer aprova o campo enquanto suposto paraíso perdido a que se regressa por nostalgia: «Para a ceifa não fui feita minha chorona mãe, / não te rales se souberes de mim presa ou a monte / com mau nome traficada, a capital é um pulo / eu não quero estar mal parada». Ao invés, o rural parece também aqui ser sinónimo de uma perda que regressos momentâneos, sejam físicos ou através da memória, não logram reparar. Em suma, tanto em sintonia com o homem só de Emerson como com o artista solitário de Rilke, «A poeta escreve sempre na prisão». A liberdade não advém do lugar como consequência deste nem do exercício mais ou menos lúdico de uma arte, ela constrói-se no corpo, pelo corpo, em paradoxal comunhão com o outro que connosco partilha espaço e comunica. Assim o entendemos ao ler num dos mais belos poemas deste livro versos que nos capturam por neles encontrarmos o essencial: «Nenhuma parte do corpo, porém, como a cabeça / segura tantos orifícios animais, por mais que a beleza / seja da nossa responsabilidade como a limpeza e a luz / da pele, como a limpeza e a luz do traço no papel / morreríamos incomunicáveis sem os nossos buracos. / O raro alimento, o faro, o bafo, o som, o beijo / necessitam feias fendas, alargados poros».

DEMOCRACIA AMERICANA

Na democracia dos USA não ganha quem tem mais votos, nem que seja um milhão. Ganha quem vencer nos estados certos. Isto aplicado à bola tinha o seu quê de agradável. Não ganharia quem acabasse com mais pontos, mas quem ganhasse os jogos mais importantes (clássicos e "dérbis"). Todo um novo leque de possibilidades se abriria para que eu pudesse finalmente rever o meu Sporting campeão. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

VIAGEM SINGULAR A WORPSWEDE

Worpswede é uma localidade alemã próxima de Bremen. No final do séc. XIX, um grupo de jovens pintores, saturados dos ensinamentos da Academia, estabeleceu no local uma comunidade artística com propósitos inovadores. No início, integraram-na os pintores Fritz Mackensen (1866-1953), Hans am Ende (1864-1918) e Otto Modersohn (1865-1943), aos quais se juntaram mais tarde outros artistas e escritores. O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi um deles, tendo mesmo chegado a contrair matrimónio nessa cidade com a escultora Clara Westhoff (1878-1954). Um dos aspectos comum a todos estes artistas é o interesse pela paisagem. Viagem Singular a Worpswede (Feitoria dos Livros, 2016) é um dos breves ensaios dedicados por Rilke a esta tendência. Traduzido e precedido de um ensaio por João Barrento, revela-se uma agradável leitura acerca da relação do artista com a Natureza. E é precisamente no ensaio introdutório, entre citações de Georg Simmel, Walter Benjamin e Adorno, que vislumbramos uma forma curiosa de colocar este problema: Rilke olha para a Natureza com a nostalgia de algo perdido. 
Seria interessante confrontar esta perspectiva, porventura tipicamente europeia, com a de um transcendentalista como o norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) no ensaio A Natureza. Uma ponte se estabelece desde logo entre ambos: a condição solitária do homem entregue à natureza. Mas se em Emerson esta é ainda um desafio, no texto de Rilke surge na forma de um sentimento estranho. A comparação serve para reforçarmos a nossa convicção de que, salvo raríssimas excepções, a cultura europeia tendeu sempre a olhar para os fenómenos da natureza com distância, tornando-os coisas mentais quando se aproveita deles enquanto objecto de representação artística. O interesse de Rilke pela pintura paisagística não deve ser dissociado desta condição: «a paisagem é para nós algo de estranho, e sentimo-nos terrivelmente sós sob árvores em flor ou à beira de ribeiras que correm» (33). 



Sedentarizado nos complexos arquitectónicos das grandes urbes, o homem europeu perdeu definitivamente o seu contacto com a natureza, sentindo-a cada vez mais como algo «estranho e violento». O que a experiência de Worpswede proporcionou foi uma espécie de regresso a essa infância perdida cuja principal característica era a de um elo, entretanto quebrado, com a paisagem. Rilke vai longe ao reivindicar para o artista a viagem que procura reaproximar-nos do mundo natural: «Toda a arte é isso: amor que se derramou sobre enigmas» (p. 71). Ou seja, toda a arte é um enigma que permite ao homem nele mergulhado aproximar-se do grande mistério da natureza. Como validar uma tese destas num mundo em que a criação artística tende a exercer-se cada vez mais nos espaços confinados de estúdios, fábricas, ateliers? Ocorre-me a figura de Cesariny, afirmando e reafirmando que nunca escreveu um poema em casa. Os poemas surgiam-lhe na rua, escrevia-os à mesa de cafés, rodeado de uma energia vital que as paredes do lar tendem a aniquilar por domesticá-la. 
Em termos estéticos e, por consequência, éticos, temos aqui um problema ainda mais fundo, porventura cultural. São raríssimos os artistas que hoje se interessam pela paisagem, abrindo-se a ela com a inocência e o espanto da criança ou aceitando integrar-se nela com o espírito daquele que dizemos selvagem. Delimitado pelo Eu, em confronto com o Outro, aquele que cria tende a ser objecto de si próprio, esvaziando-se em auto-retratos de interesse duvidoso. E se isto é desde há muito evidente no mundo ocidental, com os seus desvios de ordem sociológica e política muito localizados, perguntamo-nos como será nesse outro mundo onde a arte tradicionalmente surgia de uma inversa anulação do eu. Experimentemos regressar, por exemplo, a múltiplas formas de poesia chegadas do extremo oriente, que facilmente se tornará compreensível por que razão a rã de Bashô jamais poderia coaxar num poema de Shakespeare, de Dante ou de Camões.
Concentrados nas coisas do espírito, os nossos artistas raramente se aperceberam do mundo que existia para lá deles próprios. A este propósito, é deveras interessante o olhar que Rilke lança sobre os camponeses de Worpswede, sublinhando, aliás, que com eles nunca se misturavam os artistas. Esta demarcação de espaços onde cada qual tem o seu papel a desempenhar enviou-me para o poeta norueguês Hans Børli, de origens humildes, ele próprio madeireiro, a escrever poemas no seio de uma floresta que soube ao mesmo tempo contemplar e representar. Era parte integrante de um todo imenso em contínua transformação, que, para todos os efeitos, não deixa de ser enigmático por dentro dele haver quem se descubra integrado. 

EMBANDEIRAR EM ARCO


Consumo inusitado de Kompensan estimula economia portuguesa. 

ABRIR UM INQUÉRITO


Segundo o jornal Público, a responsável por uma Associação de Psicólogos Católicos afirmou que ter um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente. Desconheço o contexto em que tal afirmação possa ter sido proferida, nem sabia da existência de uma Associação de Psicólogos Católicos. A invasão da ciência pelo esoterismo é-me estranha. Mas agrada-me o perfil da beata, desafia-me o pensamento com toda uma série de conjecturas:

1. Para esta "psicóloga", a que será comparável ter um filho gay toxicodependente?
2. Poderemos considerar que consultar um psicólogo católico é o mesmo que nos confessarmos a um padre?
3. Qual a diferença entre um padre e um padre e um padre?
4. E se o filho gay for católico?
5. E se for católico, gay, toxicodependente e seminarista?
6. Presumindo que a toxicodependência careça de tratamento, que receita para tratar um homossexual?
7. Referindo-se a psicóloga a estigmas, como surgirão os estigmas? 
8. Poderemos considerar a afirmação proferida um estigma social?
9. Ter um filho toxicodependente é um problema inquestionável. Ter um filho homossexual é um problema?
10. Ter um filho sacristão é como ter uma vítima de pedofilia? 
11. Ter um filho seminarista é como ter um potencial criminoso?

(…) 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

O RUMO

Os especialistas digladiam estatísticas, números, interpretações. Socorrem-se das revistas e dos jornais estrangeiros que leram e espantamo-nos com o tanto que lêem. Têm convicções fortíssimas acerca das causas e, quais pitonisas, prevêem já as consequências. De arrasto, misturam tudo numa salada de indignações que não aquece nem arrefece. A única coisa que lhes ferve é o estilo. Duvido que sentissem as mesmas coisas ou pensassem da mesma maneira se trabalhassem numa Bershka ou na Zara. 
O mundo prossegue a um ritmo vertiginoso na direcção do abismo, com seus Centros Comerciais gigantescos, inaugurados com pompa e circunstância, a comercializarem artigos produzidos com mão de obra barata estrangeira para serem vendidos a mão de compra inflacionada. Natal à porta, febre consumista exacerbada, chega a ser insultuoso passar-se ao lado destas matérias como se elas não coubessem nas estatísticas. Mas esperam o quê de uma sociedade assim? Gente frustrada, com cursos tirados, a trabalhar sábados, domingos e feriados, serventes da máquina consumista em distribuições horárias a que se dá o nome de flexibilidade para se disfarçar o desrespeito pelas 40 horas semanais.
Façamos nós contas da nossa especialidade: um dia tem 24 horas. 8 são para trabalho efectivo. Sobram 16. Retiremos já 2 horas, uma para almoço, outra para jantar. Sobram 14. Retiremos mais duas horas perdidas em transportes públicos. Sobram 12. Retiremos uma para a higiene pessoal e o pequeno-almoço. Sobram 10. Retiremos, pelo menos, 6 horas de sono para um corpo cansado. Sobram 4. Das 24 horas que um dia tem, sobram 4 ao burguês para cultivar valores fazendo o que bem entender: desporto, lazer, família, estudo, informação… Ora, alguém julga que nestas 4 horas um cidadão comum, arrasado pela fadiga quotidiana, vai estar interessado nas estatísticas dos especialistas? Tem a cabeça cheia de ruído. Dêem-lhe entretenimento, que merece, dêem-lhe sensacionalismo, que não pesa, dêem-lhe pornografia, que descontrai. 
Grosso modo, os efeitos de uma sociedade assim organizada são óbvios: comodismo, indiferença, letargia. Em dias de folga, se os tiverem, as pessoas não se dedicarão à reflexão nem à meditação transcendental. Aproveitarão para se embebedar, fazer churrascos, retirar da vida o parco prazer do que tomam por dia de liberdade. Desiludam-se os especialistas. O ódio, a raiva, os medos, que medram no imo de gente assim explorada, não encontram nenhum significado, nem por nenhum processo mágico se identificarão com discursos apaziguadores. Estas pessoas já só entendem a retórica dos recalcamentos. Mas essa não se mede em estatísticas, treina-se nos palcos de um espectáculo que é o das audiências.
Numa sociedade toda ela inclinada para o fantasioso da opinião (abram-se os jornais), da partilha indiscriminada e publicitária da intimidade (frequentem-se as redes sociais), da promoção do ódio dos fracos aos mais fracos (sentem-se nos cafés a ouvir o povo), que podemos nós esperar senão a redução da democracia a um degradante reality show? Com a cultura do saber e da reflexão completamente destruída, e até arcaizada pelos novos pensadores do imediatismo, não admira que o populismo some e siga. Irá somar ainda mais, movido, como sempre, pela estupidificação das massas. Não há tempo para pensar, o pensamento exige tempo e silêncio, tempo e silêncio são inimigos deste novo mundo, pensar exige ócio, o ócio é um terrorista do passado que a contemporaneidade pós-humana jamais tolerará. Com a complacência e a responsabilidade de todos que não se oponham a isto sem ceder à ditadura do humorismo e adoptando uma postura de exigência que tenha por fim mudar o rumo da sociedade, mas mudá-lo de facto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

BELOS VENCIDOS (um excerto)


   10. Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo de batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.


Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, pp 31-32.

AS CANÇÕES DE LEONARD COHEN


Começou tarde, dizem, quando comparado com outros que não começam por onde ele começou. Antes do primeiro álbum ser lançado em 1967, Cohen já tinha editado livros de poemas e dois romances. The Favourite Game (1963), o primeiro, desbrava o caminho da salvação através do sexo. Beautiful Losers (1966), o segundo, colocava algumas pedras no caminho. Certo crítico terá falado de um desagradável épico religioso de incomparável beleza. Conversa de crítico. As canções não simplificaram a complexidade do pensamento, deram-lhe antes uma voz porventura mais fácil de chegar ao outro, aquele com quem o vate em vão procura comunicar. Em abstracto, esse outro é sempre uma indefinição que se dilui na expressão do eu. Leonard Cohen nunca deixou de ser escritor nas suas canções, as quais reflectem uma inquietação mística sem igual no panorama da chamada cultura popular (perspectiva demasiado simplista e redutora da natureza de uma canção). O que é a santidade? E o amor? Como se conjugam com a liberdade? E com a sexualidade? Como explicar o mal? No fundo, as dúvidas que estas canções sugerem têm um pendor clássico que fica bem no cenário de ilhas gregas onde o autor viveu. Citemos William Kloman: «Cohen’s political temperament is revolutionary. But, like Camus, he is starkly aware of the paradoxes of rebellion. He is frozen in an anarchist’s posture, but unable to throw his bomb». Talvez a vida “monasterial” num templo budista fosse terapêutica menor para tamanha inquietação. Creio que uma vez na ilha, jamais de lá saiu. O universo de Leonard Cohen é o da insularidade, de guitarra na mão, rodeado de um mar de incertezas por todos os lados, enquanto da voz se estendem palavras ora melancólicas, ora irónicas, ora autocríticas, ora eróticas, palavras desconfortáveis como o canto de um pássaro engaiolado à procura de liberdade. Que bem ficou neste A Noite Fez-se Para Amar


as canções de Cohen no filme de Robert Altman são uma espécie de alma a ecoar a visão melancólica que o realizador tem do mundo. Não sei se triste, se desesperançado,  o eco reproduzido pelas canções induz um romantismo trágico na relação entre os dois malditos que se amam. Nada há de simpático nestas personagens, a não ser as suas fraquezas, os seus vícios, e de como delas surde uma força indómita que não pode senão ser considerada virtuosa. Coragem? Desespero? São figuras humanas, filmadas enquanto tal relegam para o plano da fantasia os heróis inverosímeis do westernclássico. Mas não deixam de ser, também elas, figuras de um tempo que a todo o momento nos chega como identificador da nossa própria miséria

UM POEMA EM PROSA DE LEONARD COHEN


PERGUNTO-ME SE O MEU IRMÃO

Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.


Leonard Cohen (n. 21 de Setembro de 1934, Westmount, Canadá - m. 10 de Novembro de 2016, Los Angeles, Califórnia, EUA), in Filhos da Neve - antologia poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, colecção Rei Lagarto n.º 10, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 1997, p. 167.

LEONARD COHEN (1934-2016)


«Algures estarás a ouvir a minha voz. Tantos que a estão a ouvir. Há um ouvido em cada estrela.»

Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trd. Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, p 227.

IRRITAÇÕES



Nunca devemos pensar que já vimos tudo. Devemos ser humildes perante as inúmeras possibilidades da parolice humana, sobretudo se vivermos em Portugal e formos portugueses. Hoje, num programa da SIC Radical chamado Irritações, deparei-me com o vídeo ao alto. Seria caso para confessar que me caíram os tomates ao chão, não estivesse eu devidamente preparado para imaginar ser tudo possível num país como o nosso. Acho bem que se veja este vídeo, que se reveja vezes sem conta e até que se façam debates e estudos sobre ele. Estão ali pessoas que, enfim, parecem respeitáveis fora do papel absolutamente ridículo e até algo petulante que estão a representar. O que o vídeo denota é bem mais grave do que parece. Para aquela gente, as eleições americanas não são eleições americanas. São eleições de uma espécie de administração central do mundo. Não admira que assim os EUA, ou pelo menos alguns americanos, se julguem senhores do mundo, pois que até por aqui há quem esteja disposto a reconhecê-lo. Não sei se parecem palhacinhos ou marionetas, mas que ficam todos com cara de imbecis não há qualquer dúvida.  

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TEMER TRUMP

Apoiantes do impeachment a Dilma, descontentes com as políticas defendidas pelo PT e embarcados no submarino anticorrupção, acharam conveniente meter no poder Michel Temer, mas mostram-se agora admirados e desiludidos com a chegada de Trump ao poder nos EUA. Temer Trump seria um bom título para uma crónica. Não serei eu a escrevê-la.


Adenda: este post no Take Direto:

Existem pessoas que apoiaram o golpe e que ficaram chocadas com Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos. Para estas pessoas é fácil explicar que o choque que elas conseguem ver que o mundo sente em relação a Trump é parecido com o que o mundo sentiu em relação a Temer. E ainda com um ingrediente especial: o mundo viu o golpe no Brasil como um ataque inaceitável à democracia (um golpe mesmo) e não como um resultado eleitoral que todos lamentam.

POTÊNCIA



Então, parece que o tipo do cabelo esquisito é o próximo big boss da maior potência mundial. Vai ser giro assistir ao fim do mundo. Só quem não vê westerns é que podia esperar outra coisa :-). 
No dia em que o criminoso de Arouca se entregou à polícia, retirar relevo a tamanho feito com a eleição de Trump para a Casa Branca é uma injustiça. Está garantida a alternância democrática. Que mais queriam? 
Entre Bush e Trump, tivemos Obama. Foi fixe. Agora é o aguenta aguenta do costume. No Web Summit discute-se se a Internet nos está a tornar mais estúpidos. É óbvio que não, pelo menos na América tem contribuído fortemente para o esclarecimento das populações.

Adenda:
É só rir#1:

«A manchete do New York Post condensa de forma terrível muito do que está em jogo: "Eles disseram que não podia acontecer". Quem são eles? Somos nós, os que ainda acreditavam que havia uma margem de conhecimento e racionalidade exterior aos populismos do nosso presente»... (João Lopes, aqui).

É só rir#2:


Já sei que sou anti-americano, pelo que será escusado virem com essa bandeira sempre que se quiser discutir a América para lá de Nova Iorque e de Los Angeles. Muitos europeus tendem a olhar para os EUA com uma incompreensível ingenuidade, como se nada existisse entre a Califórnia e Nova Iorque. Sucede que entre esses dois estados temos o Montana, o Wyoming, o Utah, o Kansas, o Texas, o Louisiana, o Mississipi, o Arkansas, o  Missouri, o Tenessi, Iowa, etc, etc, etc, onde não consta que os índices de racionalidade, cultura e conhecimento/saber das populações sejam, vá lá, muito promissores.
Aquilo a que normalmente se chama a América profunda só podia simpatizar com o discurso de Trump, um discurso todo ele voltado para o medo e, por consequência, para o ódio a esse outro sempre apresentado como uma ameaça. Recordemos uma das tiradas mais famosas e porventura mais eficazes de Trump:

«Os EUA tornaram-se a lixeira dos problemas dos outros. É verdade. E não falamos dos melhores e mais requintados. Quando o México envia cidadãos seus, não envia o que de melhor tem. (…) Envia pessoas com imensos problemas e essas pessoas trazem esses problemas para cá. Trazem drogas, trazem crime, são violadores».

Contra isto, Trump promete erguer um muro ao longo da fronteira dos EUA com o México. No Texas agradecem-lhe.

É só rir#3



«Tenho dificuldade em perceber como é que as vítimas dos algozes são sempre os seus primeiros defensores» (aqui).

É só rir#4

Solidário com Hillary, Passos Coelho funda o grupo terapêutico dos políticos que saíram derrotados de eleições apesar de terem tido mais votos:

terça-feira, 8 de novembro de 2016

DE NOITE

Publicadas em 1912, as Elegias de Teixeira de Pascoaes tiveram na sua origem a perda de um sobrinho. Muitos dos poemas resultam numa mera expressão da dor, fechados num sentimentalismo catártico que não me interessa particularmente. Mas outros são autênticas obras-primas do género, valendo por si só e isoladamente muito mais do que toneladas de literatura elegíaca vinda a lume posteriormente. Em poemas como Canto heróico ou Elegia da Solidão a dor afecta à escrita atinge uma dimensão crítica impressionante, atirando o poeta para um abismo de dúvidas acerca da existência que são o magma da própria poesia. Nesses e noutros poemas que à sombra desses perduram, Deus surge envolto em dúvida, indiferente, fantasmagórico: «Não sei quem és, eu não te entendo, Deus!» (Junto Dele). E ainda que o mistério da dor seja caminho desbravado para a esperança, a vida resume-se a um berço onde a morte já respira: «Dia a dia, nós vamos falecendo; / Esta vida carnal é um arremedo / Da vida, à luz da qual eu não entendo / A tragédia da morte, a dor e o medo» (Vida Eterna). Existir é, deste modo, experienciar «a tragédia da morte, a dor e o medo» como uma indefinição que leva à dúvida e, por fim, à esperança. Mas esta esperança não é a dos católicos, nem o Deus que surde desta inquietação é o Deus dos católicos. Esta esperança é a daquele que se sabe finito numa certa forma de ser, mas se descobre eterno na essência material das coisas: transformação. É a esperança de um homem ligado à terra, consciente do drama que representa em vida, corpo onde a esperança e a saudade se fundem num horizonte de perda.  

DE NOITE

Quando me deito e mais a minha dor,
Minha noiva-fantasma, e em derredor
Do meu leito a penumbra se condensa,
Faz-se em meus olhos nus uma luz imensa,
E parece-me o Reino espiritual.

E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias, não comigo,
Mas com a minha dor… o amor antigo.

A minha dor está contigo ali
Como outrora eu estava ao pé de ti.

Se eu fosse a minha dor, com que alegria
De novo a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dor, a dor etérea…
Sou a carne que sofre, esta miséria
Que no silêncio clama!

A sombra, o corpo agonizante, o drama…



Teixeira de Pascoaes, in Elegias (1912).