sábado, 12 de novembro de 2016

#86



Tive um amigo lá no far west que me apresentou a Leonard Cohen. Agora que penso nisso, devo-lhe várias aproximações. Mas Songs of Leonard Cohen (1967), gravado numa BASF, foi uma das mais relevantes. Mais tarde tivemos uma daquelas discussões boas de se terem por causa de I’m Your Man (1988), um dos primeiros CDs que comprei quando os CDs eram a grande novidade. Esse meu amigo dizia que canções como First We Take Manhattan e Take This Waltz eram sinal de uma decadência difícil de suportar pelos fãs dos primeiros álbuns de Cohen. Arranjos sintetizados e sofisticados, coros femininos muito eighties, afastavam definitivamente as canções da sua raiz. A voz de Cohen também estava diferente, com uma gravidade que os anos não perdoavam. Mas o pior, o crime, era praticamente não se ouvir violão, o orgânico havia sido tomado pelo sintético. O bardo tinha-se transformado num crooner, e isso era imperdoável. Assim pensava o meu amigo à época, e não estava de todo enganado. Confesso que fiquei com sentimentos ambivalentes relativamente ao álbum de 1988, embora tenha encontrado lugar excepcional para canções como Everybody Knows e Tower of Song (bela versão lhe ofereceram os The Jesus & Mary Chain). Acontece que o registo declaradamente pop de I’m You Man, com Cohen na capa fotografado a comer uma banana warholiana, envelheceu como um bom vinho envelhece. E 28 anos passados, com tanta tecnologia a tomar conta da composição musical, chegam a parecer arcaicas as incursões pela electrónica aqui levadas a cabo, conferindo ao registo um tom nostálgico que cai perfeitamente com a ironia dos poemas na dança de uma valsa melancólica inflada de sensualidade:


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