domingo, 27 de novembro de 2016

FERIDO

Sob o pseudónimo literário de m. parissy, o jornalista Mário Galego (n. 1969) vem publicando desde a estreia em 1989, com um volume em edição de autor intitulado corpo indómito, vários livros de poesia em editoras de distribuição restrita. Oriundo da Nazaré, foi aí que participou na dinamização de projectos editoriais como a extinta non nova sed nove ou a activa Volta d’Mar. Além dos opúsculos editados através desses projectos, conhecemos-lhe livros aparecidos na Universitária Editora - dublin e tu (1999) -, nas Edições Mortas – morte com dedos em ferida (2000) -, na Black Son Editores - mãos de arquipélago (2003) -, na Canto Escuro – vertigem (2007) -, e na Tea for One – dança (2015). O seu mais recente livro, intitulado Ferido (Setembro de 2016), é o quarto título que faz sair na Volta d’Mar. Tal contabilidade é relevante para que se perceba a inscrição desta poesia num circuito marginal ao da produção poética merecedora, aqui e acolá, de atenções críticas facilitadoras de uma visibilidade menos reduzida.
Do que conhecemos desta poesia, importa salientar, desde logo, uma forte ligação ao lugar de origem do seu autor. Os livros de m. parissy são profícuos na reprodução de uma paisagem costeira onde o mar, a praia, as falésias, marcam presença recorrente. Ferido não é excepção. Logo nos primeiros versos encontramos “mares desconhecidos” e “cheiro a peixe”, tornando-se ainda mais evidentes as demarcações geográficas com a referência a locais concretos tais como a pensão Leonardo ou a uma toponímia deveras familiar: «rua França Borges, rua / da Saudade, rua das Flores» (p. 10). Estas referências, que em livros anteriores poderiam surgir mais veladas, assumem num livro com as características de Ferido um papel determinante. São o espaço de ocorrências que os versos recuperam e percorrem como quem narra uma história. Ainda que a dimensão metafórica não tenha sido de todo abandonada, ela encontra-se aqui em equilíbrio com a dimensão narrativa.
Não é por acaso que o livro começa com a conjugação do verbo haver na primeira pessoa do singular do pretérito imperfeito do indicativo, anunciando a existência de algo ao mesmo tempo que nos envia para um tempo passado. Onde se lê havia podíamos ler era uma vez, como tradicionalmente sucede na maioria das histórias. E é a partir de aqui, e desta forma, que somos introduzidos num universo íntimo onde a memória ocupa uma função primordial. De estrofe em estrofe, como quem salta de capítulo em capítulo numa sequência cujos versos se interligam naturalmente, ficaremos a saber que esse tempo é o da infância, clara e objectivamente declarado numa das estâncias finais do poema. É a memória dos sete anos, idade de uma etapa escolar iniciática, que aqui vem à superfície, não por dela se conservar a banal imagem do paraíso perdido ou o tão vulgarizado sentimento de uma nostalgia romântica, mas por nela se entreverem fracturas que o poema procura resolver num gesto que é em si mesmo catártico e, por isso, rejuvenescedor: «Foi preciso / inscrever o passado, para que dali / voltasse a nascer» (p. 30).
A par desta dimensão narrativa do poema, m. parissy insiste numa das suas características discursivas mais reconhecíveis, isto é, o uso sem peias de uma linguagem metafórica como reforço imagético de sensações e de percepções dos momentos em que o sujeito poético se coloca: «Um nevoeiro cobria o / peito» (p. 10), «Um sol / por baixo da língua» (p. 11), «Acordava com o silêncio que doía» (p. 22)… Agradável se torna quando associamos estas leituras da realidade à criança de sete anos aludida no poema, por fazerem ainda mais sentido no contexto específico em que a criança se encontra: fechada num quarto, isolada do exterior, adivinhamos que por doença, ligada ao mundo apenas através de uma janela de madeira velha que nunca se abre. Seis meses de reclusão aos sete anos de idade são, pois, a ferida que o poema procura sarar. Dessa experiência de reclusão, surge «O medo que a liberdade / não existisse» (p. 37). Ora, que medo maior pode um poeta sentir?

Tudo era esterilizado: pratos,
toalhas, roupa. Nada podia conter
sinais do exterior. Nem sequer as
revistas Natura pousadas na mesa-
de-cabeceira. Nem a comida, nem
as duas mãos que a transportava.


A esterilização do espaço interior para o qual vamos sendo deslocados ao longo do livro contrasta com a liberdade do espaço exterior, onde para lá da sombra se vêem rapazes a brincar, a jogar a bola, e o mundo decorre com uma normalidade insultuosa para quem se encontra na anormal circunstância de não poder sequer ser tocado pelas mãos impuras que lhe trazem comida. Entre os planos da doença e da saúde estabelecem-se elos de inúmeras leituras possíveis, acerca dos quais poderíamos formular as mais variadas conjecturas. A verdade é que não nos parece legítimo enveredar por tais caminhos quando a reminiscência transfigurada num livro como Ferido é já de si tão forte e intensa: uma criança de sete anos, isolada do mundo durante seis meses, fechada num quarto, limitada a observar o mundo exterior por uma janela fechada como se fosse um criminoso sem consciência do crime que cometeu. Transportar a intensidade de uma experiência destas para o poema, sem a tornar despudoradamente emocional e sentimental, é revelador de um engenho sem o qual nenhuma boa poesia subsiste. 

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