terça-feira, 8 de novembro de 2016

LIVRE DE ESTILO

Detesto gente pudica e sonsa, lido mal com a autoridade, a burocracia destrói-me, abomino tudo o que seja racismo e homofobia, prefiro animais a pessoas, Bashô a Camões, se pudesse escolher uma profissão seria a de guarda-florestal ou a de pastor, não consigo perceber as necessidades do mundo moderno nem o fascínio cego das pessoas pelas novas tecnologias, não suporto formalidades, lido com gente assoberbada e arrogante fazendo uso da melhor das minhas poucas qualidades, um infatigável desprezo pelo inimigos e uma incomensurável capacidade para ignorar o que não me interessa, chocam-me as pessoas egocêntricas, incapazes de pensar no outro, de serem solidárias, mas desconfio sempre do outro até ele me provar que é de confiança, acho que falo mais do que devia, sobretudo quando bebo, mas como raramente estou na companhia de outros não vem mal ao mundo por isso, prezo a solidão e o silêncio como poucas coisas na vida, a Natureza é o meu Deus e o que mais me fascina é o acaso, o caos, a surpresa, o inusitado, a tempestade, não posso garantir que até à data tenha vivido com paixão, mas amei, e nunca agi com maldade, no sentido mais deliberado de pretender o mal de outrem, de resto, quem me conhece geralmente julga-me inofensivo como na realidade não sou ou problemático como jamais seria não me visse obrigado a sê-lo por um mundo incapaz de garantir a todos, em paz e harmonia, o pão, a casa, a educação, em suma, sou um banal ser humano, inútil como qualquer outro que tem por certa a morte e incerta a alegria de viver…

6 comentários:

Anónimo disse...

Já leste um livro intitulado Ismael, de um autor norte-americano chamado Daniel Quinn? Em Portugal recebeu o subtítulo "Como o Mundo Veio a Ser o Que É". Nesse link encontras algumas informações sobre o tal: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ismael_(livro)
Embora se trate de um romance filosófico (como diz o wikipédia), ou seja: ficção, penso eu que lhe agradaria lê-lo.

Anónimo disse...

Outro livro de Daniel Quinn, com o título "A História de B" (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_B), uma espécie de continuação do Ismael, mas com estória independente, debate com mais profundidade as questões propostas pelo primeiro livro, mas não encontrei informações sobre uma edição portuguesa. Também acredito que a leitura o agradaria bastante.

Um Jeito Manso disse...


Gosto muito deste seu texto.

Jorge Muchagato disse...

«O caos, a surpresa, o inusitado, a tempestade», e outras coisas mais a estas agregadas ou com elas relacionadas, correspondem hoje, para o mundo «websummitado», à loucura. Esse mundo triunfante da «washing machine summit», à semelhança de certas árvores de Natal que acendem e apagam, e consomem tanta energia eléctrica quanto dinheiro assim desperdiçados sem medida, tem uma escala anti-humana, à semelhança da arquitectura dos regimes fascistas. São representações de tiranias sub-reptícias que impregnam o quotidiano das pessoas comuns. E anda meio Mundo mais um terço a falar em «start-up». Ainda que uma pessoa não queira, o assunto começa a trabalhar na cabeça e eu fui procurar porque quem não sabe pergunta. As diversas definições que encontrei eram, na sua essência, iguais. «Start up», em termos conceptuais e práticos, é coisa tão velha como o haver dinheiro.

Marina Tadeu disse...

https://www.youtube.com/watch?v=W9FRqE7eMJQ

hmbf disse...

Anónimo, nunca li Daniel Quinn. Obrigado pela dica.

Um jeito manso, grato pelo comentário.

Jorge, eu acho que uma start up é um tipo acordar, olhar pela janela e concluir que está vivo. O mundo rola, eu sou memória e o resto é esquecimento. Saúde,

Marina, esse tipo é sempre inspirador.