quinta-feira, 3 de novembro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #10

Devo ter uns quinze ou dezasseis anos, estou sentado numa das torres do castelo a desenhar a Praça de Dom Pedro V. A Igreja de Santa Maria da Devesa tem linhas simples, não me é difícil desenhá-la. Um casal de turistas estrangeiros aproxima-se e espreita. Pareceu-me escutar-lhes um qualquer comentário elogioso a que respondi fechando o caderno. Sou um adolescente tímido, marcado por traições que me tornarão inseguro e nada confiante. 
Vim a Castelo de Vide para tratamentos termais num edifício entretanto desactivado. Nenhum benefício retirei daquelas águas, ao contrário do que anos mais tarde pude experimentar no Vimeiro ou em São Pedro do Sul. Nem todas as fontes secas me inspiram lamentos. 
Da casa onde me encontro instalado avista-se a Serra de São Mamede. Sento-me na cozinha a olhar para uma cruz de pedra no alto de um monte, a imaginação ocupa-se-me com uivos de lobo e aves de rapina. Contam-me de montarias saldadas em dezenas de cabeças de javali. Iniciei há pouco a leitura de um livro de poemas de Jorge de Sena, não me sinto especialmente inclinado para histórias de caçadores e feitos heróicos no interior de uma natureza inócua e amena. 
É provável que daqui a uns anos ninguém esteja interessado nesses feitos para os quais olhamos como quem contempla o arcaísmo das ruínas, já tão habituados e educados que estamos a ver no prato o que não imaginamos à solta. Aviários e matadouros serão a arqueologia do futuro. 
À distância, não sinto nenhuma espécie de privilégio por ter assistido à matança de um porco, por ter visto caçadores com cintos de aves e de coelhos pendurados como troféus, por ter acompanhado o percurso de um animal criado entre tapumes até à sua transformação final em enchidos de vários sabores e feitios. As pessoas que julgam ser fácil e bucólica a vida no campo deviam cavar a terra com as próprias mãos. Invadidas as serras pelo fragor da modernidade, privilégio foi assistir ao declínio de famílias inteiras apanhadas nas malhas de uma outra teia: a das negociatas, dos subsídios, dos valores patrimoniais, dos fundos europeus, do turismo rural… Privilégio tem sido assistir ao esmorecer de um sonho que tinha em vista o que sempre têm em vista homens de ambições desprevenidas, enriquecimento fácil e rápido, ainda que inconsistente e, por isso mesmo, insustentável. 
Nunca mais regressei a Castelo de Vide nem a Portalegre, onde fui para sempre abandonado pelos primeiros beijos numa boca a que perdi o hálito. (Onde andarás? O que farás? Quem serás tu, ó rapariga dos meus desejos pueris a quem devo em parte este mergulho patético mas duradouro nas águas da poesia? Serás, provavelmente, como os demais, terás filhos que levas à escola, um homem que te procura de quando em vez, trabalho para sustento de contas fixas. Ofereci-te um frasco de Poison e jamais olvidei o aroma amargo que foi ver-te debaixo de uma árvore centenária a dizer-me quão antiquado eu parecia.) Régio de versos medíocres com moinhos de vento na cabeça e no coração, prefiro recordar passagens por Elvas a caminho de Espanha, o sabor a frango frito que a mãe preparava para o alforge das visitas de estudo. 
Que íamos nós fazer a Elvas naquele tempo? Ver muralhas? Comprar jogos de lençóis na fronteira com Badajoz? Elvas, anagrama de selva, a maior cidade do distrito de Portalegre, fortaleza de meio país emigrado e de outro meio retido entre paredões. A gente cresce a pensar que foi o amor à terra que nos impeliu a guerrear, que foi um qualquer sentimento pátrio místico, disseminado pelas tribos como uma fragrância embriagante, aquilo que nos uniu contra invasores, mas esquece que na raiz de todos esses mistérios está a mais capital das vontades experimentada por qualquer homem em qualquer parte do mundo: ser livre. Não para isto de andar curvado entre vedações a pastar cansaços, não para esta saturação de servilismos sem fim. Livres. Excepto talvez dessa ideia de liberdade pela qual ansiamos saudosamente, por ser ela que dá sentido messiânico a uma existência sem sentido nenhum. 
Subitamente cola-se aos olhos uma fotografia da Matilde exposta numa das paredes da sala de estar. 04 de Setembro de 2004. Fica tudo mais fácil quando num canto dos retratos descobrimos uma data. Registo de uma visita às Festas do Povo. As ruas engalanadas com flores de papel são como a maquilhagem no rosto de uma mulher. 
A criança que ainda não tinha duas primaveras contadas pisava terras em outras eras pisadas por romanos, mouros, cristãos, judeus, gente que fugia dos tribunais da Inquisição… Combates ali travados, guerras sanguinárias, pestes dizimadoras, deram azo a freguesias com nomes denunciadores de uma história singular: Nossa Senhora da Expectação, Nossa Senhora da Graça dos Degolados, São João Baptista. 
Mais recentemente, a influência da família Nabeiro com o seu império do café terá ajudado Campo Maior a sobreviver e a crescer. Nota-se por todo o lado a relação de interdependência. Talvez a liberdade seja isto e disto devamos retirar proveitoso exemplo: onde hoje nos encontramos, outros antes de nós estiveram e outros depois de nós estarão. A cada qual caberá viver a sua vida prestando contas em seu tempo. Que vindouros encontrem caminhos calcetados com maior rigor do que aqueles que nós encontrámos quando chegámos não pode ser apenas mero desejo, terá de ser missão. 
Pergunto-me apenas se daqui a 17 anos, quando tiveres a idade que eu tinha no ano em que visitámos Campo Maior, ainda existirão as Festas do Povo? E se por elas sentirás algum tipo de interesse semelhante ao que nos empurrou nesse ano de 2004?

4 comentários:

panaceia disse...

Boa tarde, Henrique

Gosto sempre muito destas tuas "viagens"
Esta, em particular, diz-me muito. Ou revejo-me nela por situações passadas nos mesmos lugares, também com a adolescência cravada na memória e os amores passageiros (onde andará, que fará?).
Forte abraço
Lia

hmbf disse...

Abraço. E obrigado pelo comentário.

Saúde,

MJLF disse...

Também estou a gostar muito destas viagens :) saúde

hmbf disse...

Obrigado.