quarta-feira, 9 de novembro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #11

Terá sido em Salgueiro do Campo, na casa de família de um escritor cá do burgo, que um dia fui acordado como tantas vezes somos acordados neste país: ao som do sino de uma igreja. Muezim de bronze anunciando o nascer do dia, a fazer estalar a cabeça do desfortunado poeta com badaladas flagelantes. Estou triste, dormi pessimamente e pesa-me a consciência por uma noite passada entre copos numa praça de Castelo Branco. Recordo pouca coisa, apenas um encontro inesperado e indesejado a desviar-me para a adolescência que me ia esforçando por abandonar definitivamente.
Tive nos tempos de faculdade um amigo oriundo de Castelo Branco, também ele poeta, filho de poeta, porventura neto de poeta, quem sabe pai de poeta. Normalmente é assim que as coisas sucedem por cá. Herdam-se talentos como doenças hereditárias, pelo que não raramente encontramos numa mesma família diferentes gerações com as mesmíssimas actividades. Andem no toureio, no fado ou na poesia, sejam comerciantes, industriais ou políticos, os portugueses mantêm pelas castas um respeito hindu que é trabalhoso vislumbrar noutras repúblicas.
Como se diz, somos um povo de tradições. Somos. E conservadorzinho até à medula. Somos. E por mais que tentemos disfarçá-lo, cultivamos despudoradamente essa coisa do amiguismo, vulgo cunha, com talento inquestionável nos corredores municipais. Por todo o lado falamos com conterrâneos que têm uma ideia oligárquica da política no seu país. Menos frequente é darmos com quem, pela prática das suas próprias acções, se desvie do carreirismo e assuma o papel de ovelha ronhosa. Difícil, difícil, difícil, então, é encontrar agulhas de recusa no palheiro dos favores.
Repare-se como entre as massas não tem sido grande escândalo, apesar do alarde, a amizade de José Sócrates com Santos Silva, curiosamente iniciada algures por estas bandas. Sócrates estudou na Covilhã, aí veio a subscrever, já na qualidade de engenheiro, vários projectos habitacionais que são o rosto da nossa emigração disseminado pelo interior do país, foi eleito deputado, ainda na década de 1980, pelo distrito de Castelo Branco… A ligação deste ícone lusitano do amiguismo ao distrito albicastrense é matéria difícil de descurar, até pelo que tem de representação nacional a par da produção de cereja e do queijo produzido com leite de ovelha.
Amigos de seus amigos, os portugueses mantêm-se fiéis a velhos hábitos com um aguçado instinto de sobrevivência. Bajulam, incensam, achegam-se, penetram, tentam desde tenra idade estabelecer elos que os protejam de eventuais inimigos, jogam a vida, a história, a existência, em acordos triunfais com apertos de mão ensebados pelo oportunismo e palmadinhas nas costas de espadanar a caspa da consciência. Depois entretêm-se com feiras e romarias onde há sempre lugar reservado para quem faz favor senhor doutor. Que me lembre de todas estas coisas ao passar por Castelo Branco não será por acaso, talvez tenha que ver com o incompreensível ecumenismo da estatuária do Jardim do Paço Episcopal.
Há não muito, de passagem pelo Fundão vindo da Covilhã, lembrei-me da ironia que é ter ali sido fundado o &etc… O Fundão é uma terra que só deixa de ser feia quando as cerejeiras ficam em flor ou se sobe à Gardunha, pausando as vistas numa aldeia de xisto que nos permita sonhar com uma vida simples. Mas mesmo quando parece simples, a vida revela-se uma intrincada complicação. Não estando sós no mundo, os homens governam-se com pactos e convenções por serem incapazes de caminhar isoladamente o percurso das suas vidas. Caminhar nem no meio, nem à margem, mas paralelamente como reivindicava o saudoso Tavares do &etc... Não é medo nem comodismo, é assim mesmo, é não estar para mais do que aquilo a que se é obrigado pretendendo escalar os penedos das curtas glórias.
Facilmente chegamos a tais conclusões olhando para uma cidade como a Covilhã de um qualquer miradouro que nos ofereça uma panorâmica do aglomerado caótico de edifícios que se espalha pelo pórtico da Serra. A gente sente um arrepio na espinha só de imaginar o contraste entre a vida isolada de um homem na montanha, entregue ao seu destino com a vida nas próprias mãos, e a azáfama dos aglomerados que tiranizam o quotidiano das populações a troco de vãs promessas. Mas mais se arrepia ao constatar que a opção geral foi pela tirania dos aglomerados, onde desde tenra idade os meninos e as meninas são educados a respeitar convenções sociais sem qualquer espírito crítico e assim se transformam, paulatinamente, em amigos dos seus amigos como já foram seus pais e avós e, para mal dos nossos pecados, serão seus filhos e netos. A opção não foi pela liberdade, nem será enquanto esta se reduzir a conceito para discussão nas enfadonhas salas da Academia. 

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