sexta-feira, 18 de novembro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #12

Quando, a meio da década de 1990, as gravuras rupestres do Côa venceram a guerra que as opunha à construção de uma barragem, estávamos longe de perceber o impacto que tamanha vitória teria na consciência nacional por uma defesa e preservação do património. Impacto zero, para sermos honestos. Simplesmente levados pela moda do protesto, os portugueses fizeram-se ouvir por entre ideias abstrusas que incluíam, bem me lembro, a possibilidade de visitas subaquáticas às gravuras. Nesses tempos o ridículo não venceu, mas no essencial pouco ou nada mudou. As gravuras lá estão, para nos lembrarem de como o homem paleolítico tinha um bom gosto que o homem vulgar destes tempos tecnológicos jamais terá. 
O Vale do Côa é um dos lugares bonitos deste país, felizmente para nós caído no esquecimento dos empreendedores turísticos. Há não muito, numa visita de boa memória, a inexistência de um Turismo activo impeliu-me a arriscar. Andei com o meu Seat por caminhos desaconselháveis, estacionei-o onde julguei não estorvar e ser seguro. Fui guiado por um pastor, a única alma perdida que por ali se via. Falou-me de algumas quintas ao alcance do olhar, de como continuavam a laborar como há décadas, impedindo trabalhadores de entrar nas casas dos senhores por mais que frio e chuva apertassem. Ofereceu-me preciosas dicas sobre carreiros imperdíveis, de onde se avistavam belezas a nem todos penetráveis. 
Ainda antes de ter descido ao vale, aproveitei para comprar amêndoas, um licor e um queijo numa loja de produtos regionais. Em conversa com o simpático empreendedor, foi-me dito que o turismo tinha adormecido na região. Literalmente. A única pessoa supostamente disponível para guiar visitantes estava, de facto, a dormir, cá em baixo, num casebre, pelo qual passei sem ser visto nem achado. Tanto melhor, caminhei solitário, isto é, rodeado de seres naturais e dos resquícios de uma inteligência remota que ficou gravada no xisto. A melhor das companhias num dia de alegria pura. 
Rapidamente se foram as calorias do naco na pedra almoçado na Taverna da Matilde, em Figueira de Castelo Rodrigo. O regresso a Castelo Rodrigo deu-se uns trinta anos depois de ali ter estado pela primeira vez. E tive a estranha sensação de nada ter mudado. Sensações não são expressões da verdade, alguma coisa há-de ter mudado por ali. Mas a mim, que sou de fora, pareceu-me estar tudo na mesma. Recuso juízos de valor nestas matérias, quando o tempo parece parar sobre um lugar nada de mau vejo nisso. São raras as ocasiões em que a mudança beneficia a paisagem. Trata-se de uma leitura mais pessimista do que conservadora. Na realidade, desconfio sempre das boas intenções humanas. O comunismo que perfilho não dá para mais. Reconheço nos homens coisas incríveis, como, a título de exemplo, a capacidade para erigirem com parcos recursos algo de tão extraordinário como as Muralhas da Praça de Almeida. Mas ao mesmo tempo pergunto-me: quantos portugueses conhecerão Almeida e se interessarão pela sua história? É este desconhecer, preterido em favor de valores maiores - como o número de campeonatos de futebol conquistados pelo Benfica - que fundamenta o meu pessimismo.
A leitura que faço é simples: o desinteresse dos portugueses pelo seu património histórico equivale ao desinteresse que têm sobre si próprios, por isso aguentaram, recentemente, 50 anos de imbecil ditadura e 20 anos de cavaquismo. Por isso deixam tudo ao abandono e olham para muralhas, fortificações, ruínas, como coisas de um passado que nada lhes diz. Se nada lhes diz é porque não sabem lê-lo, nem sequer se dedicam a aprender, não fazem o mínimo esforço, preferindo ocupar-se do presente como se não houvesse passado e o futuro ficasse a um palmo do nariz. As duas realidades estão tragicamente ligadas, o desinteresse pelo passado tem como efeito mais imediato a ausência de uma perspectiva acerca do futuro. O português vai-se realizando no presente, é um gerúndio sem planeamento, desenrascado, de trancas na porta depois de ter sido roubado. 
Uma vez, em trabalho na Guarda, fique alojado no Hotel Vanguarda. Achei piada ao nome, um trocadilho tipicamente beirão sem significado de maior. Mal saberá quem pôs o nome ao Hotel que a vanguarda era a parte frontal de um exército, ou seja, os primeiros a tombar em tempo de guerra. Há uma pertinência neste trocadilho fortuito. Em certo sentido, ele define-nos num local dado a definições. Não gosto especialmente da Guarda, gosto do que fica à volta dela. Gosto de parar em Seia, vindo da Serra da Estrela, e de comer joelhinhos de porco com arroz de feijão no Borges, gosto das muralhas de Almeida e do Vale do Côa. Mas da Guarda não gosto, é mais uma daquelas localidades que me faz sentir o pior de se ser português. Passo os olhos pela degradação do antigo Cine-Teatro e fico sem vontade de visitar o Teatro Municipal. Felizmente, as gravuras rupestres são insubstituíveis. Que as preservemos deixando-as onde estão, tanto quanto possível longe de vistas e de mãos humanas hodiernas.

2 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Há que pensar em publicar estas narrativas de viagens, Henrique. Eu vou querer um exemplar.

hmbf disse...

Grato pelo incentivo. Em breve chegaremos a Coimbra.