Entrei em 2016 a ouvir Ben Harper. Mal tinha
acabado Welcome to the Cruel World, fui apanhado pela torrente de comoção em
torno do desaparecimento de David Bowie. Blackstar é o testamento paradoxal do
ano. Não o desejaríamos pelas razões óbvias, mas iremos voltar a ouvi-lo muitas
vezes por outras não tão óbvias razões. As imagens oferecidas a Lazarus são de
uma clarividência aterradora.
Ressuscitado para o futuro com rock português — 10,000
Russos, Ratere, Moloch —, desloquei-me à mais conservadora das localidades para os
mais improváveis concertos. Ali para os lados de Rio Maior, um grupo de rapazes
que dão pelo nome de Maiorais insistem em organizar concertos como quem martela
em pedra dura. Agradecido.
Ainda nos corredores da produção nacional, um sublinhado
para Rock Extravaganza, de Kubik. Não é o melhor que já editou, mas continua a
fintar o óbvio com inteligência e extremo bom gosto na arte da colagem.
Noutra vertente, The Epic (2015), de Kamasi Washington,
foi uma das aquisições do ano. Jazz para uma mega-orquestra com tanta alma
quanto swing. Foi o álbum duplo que mais vezes ouvi durante este ano, e ainda
não me cansei.
Sempre vários degraus acima da mediocridade, os Radiohead
não só não desiludiram com A Moon Shaped Pool como nos oferecerem, em parceria
com Paul Thomas Anderson, alguns dos melhores videoclips. Uma das vantagens de se
“ouver” esta música é perceber como é tão fácil desmontar a aparente
complexidade de uma canção.
Mais socialmente empenhada, P.J. Harvey assinou um estimulante
The Hope Six Demolition Project. Se o rock serve para alguma coisa, que sirva
para agitar consciências. Duvido que o consiga, mas não podemos ficar
indiferentes quando tenta.
"Retrorevisionista", por assim dizer, sem deixar de ser
inovador, Jack White reuniu as incursões acústicas numa luxuosa caixa. Mesmo
não trazendo nada de especialmente desconhecido, Acoustic Recordings consegue
ser um dos álbuns do ano pela afirmação de um genial talento para a escrita de
canções. Simples, como se querem as coisas eficazes, o vídeo oficial para City
Lights é outro momento inspirado de conjugação da imagem com o som.
De luto pela perda de um filho, Nick Cave exorcizou
fantasmas com Skeleton Tree. Registo porventura demasiado sentimental, mas com
a força habitual de um grande escritor de baladas melancólicas.
Devedores desta e de outras heranças como esta, os belgas
Warhaus mostraram-se promissores com um título provocador: We Fucked a Flame
Into Being. São uma das boas descobertas do ano.
Last but
not least, Leonard Cohen. Tal como Bowie, quis deixar um testamento. You
Want it Darker é um belíssimo disco, uma viagem equilibrada pelo essencial de
um legado imprescindível. Cohen, ao contrário de outros, tinha tudo a seu favor:
beleza, elegância, emoção, inteligência, uma voz divinal. Um poeta que nos
acompanhará na vida como na morte. Há muito que demos o nó, não será a morte a
separar-nos.
Para a despedida, uma senhora de quem tenho saudades:
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