quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

#88



Aproximamo-nos vertiginosamente da idade do luto. Tornou-se demasiado natural alguém nos morrer. Sentimos que estamos a envelhecer quando a morte encarna uma cadência repetitiva ao redor das coisas que amamos. 2016 é, definitivamente, um ano de luto, por razões várias e tão diversas quanto a merecida banda sonora que lhe foi oferecida. Logo a inaugurar o ano, David Bowie despediu-se com um perturbador Blackstar. Nick Cave expurgou a perda de um filho com Skeleton Tree. Um mais sentimental, outro mais catártico, são discos que ficarão para a história também pela dimensão redentora que inspiram. 
Transcendendo todas as trincheiras da mais vulgar das ânsias e do mais traumático dos medos, Leonard Cohen despede-se com a mais poética das cartas de despedida. You Want it Darker (2016) não é apenas um até sempre, é um dos melhores álbuns de Cohen e uma lição de elegância e de serenidade face ao rosto da morte. A produção de Adam Cohen, filho de Leonard, acrescenta ao registo uma extraordinária poética dos afectos, almejando para uma voz arrastada, envelhecida e saturada o suporte musical necessário e imprescindível. As palavras soam como orações, soam como lições, soam como devem soar as palavras de um sábio, são de uma entrega e de uma tranquilidade impressionantes. O timbre clássico das composições, divididas com Patrick Leonard e Sharon Robinson, conhecem o parceiro ideal em apontamentos de uma modernidade singela mas invejavelmente eficaz. 
Em Traveling Light, por exemplo, as cordas ao jeito judaico equilibram-se com programações e coros que nos transportam para uma espécie de dança celestial. Conduzidos pelo israelita Roï Azoulay, os coros são de uma beleza inexcedível e formam instantes de puro génio nos diálogos que estabelecem com a voz do monge no centro de um templo onde é ainda possível escutar discretos solos de guitarra, malhas de baixo, violinos, bandolins, sem que as partes se dispersem e perturbem o todo. O todo que é uma voz, uma voz que é sabedoria. «I’m ready, my Lord», canta Leonard Cohen logo na primeira canção. E a gente agradece por nos ter deixado em paz com mais uma mão cheia de canções inesquecíveis:


Sem comentários: