segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA #13

Dois clássicos das visitas de estudo: Conímbriga e Portugal dos Pequenitos. Resquícios da ocupação romana ao lado da mais genuína metáfora que alguma vez um país construiu sobre si próprio, uma espécie de Disneyland à portuguesa com a fantasia a que temos direito: miniaturas. Que efeitos poderão produzir na imaginação de uma criança estes dois lugares? A ideia de que fomos grandes, a ideia daquilo em que nos tornámos. Mas teremos mesmo sido grandes? Mas seremos mesmo pequenos? O Portugal dos Pequenitos não poderia ter saído senão do Estado Novo, o mesmo que, por "serem as colónias parte integrante do território nacional", nos queria de Melgaço a Goa. Ficámos com as miniaturas, a lembrarem-nos de quão iludidos sempre estivemos acerca de nós próprios. 
Na realidade, nem pequenos nem grandes. Uns ingovernáveis, como diziam os de Conímbriga. Mas, sem dúvida, incrivelmente superviventes. Podem não existir grandes mistérios sobre como nos fomos mantendo independentes ao longo de tantos séculos, mas não deixa o facto de manifestar um extraordinário jogo de cintura. Tome-se de exemplo Viriato, essa figura quase mitológica acerca da qual tão poucas certezas nos restam. Enfim, somos o que fomos e fomos o que somos também à custa de outros. Mas sobre isso o Portugal dos Pequenitos nada tem para oferecer. Quando há tempos encontraram ossadas de escravos em Lagos, ocorreu-me a ideia de trasladá-los para uma gigantesca Capela dos Ossos, homenagem ao empreendedorismo lusitano, que à escala da realidade histórica seria sempre miniatura. Seria pedagógico, como o são as ruínas romanas.
Em tempos de férias, o extenso areal da Figueira da Foz substitui ocasionalmente as visitas de estudo. Muito ocasionalmente, dada a temperatura gélida das águas. Foi muito depois de Sinais de Fogo, mas ainda antes do munícipe que ouvia violinos de Chopin. De vez em quando ouço dizer que a ele se deve ter sido a Figueira colocada no mapa. Não tenho memória de a não ter visto alguma vez num qualquer mapa, por mais reduzida que fosse a escala. Mesmo à escala dos pequenitos. Mas entendo os desabafos. O espectáculo mete tudo no mapa. A Figueira não foi excepção, Rans também não. Os mapas populares obedecem a coordenadas que escapam à geografia, são desenhados em função das aparições. 
No mundo em que vivemos, uma coisa existe desde que apareça ou desde que consigamos convencer muitas pessoas à nossa volta de que apareceu (mesmo sendo pouco provável que tenha aparecido). Aparecer num jornal já não tem o mesmo valor que aparecer nas redes sociais, tornar-se viral é existir, mesmo que enquanto resultado de um trambolhão de skate, aparecer na televisão é ainda garantia para alargar a mancha do ponto no mapa, tudo quanto existe deve a sua existência ao aparecer. Assim se explica que algumas terras se sintam mais existentes e menos fantasmagóricas sempre que aparecem. Quando aparecem muitas vezes, chegam a tornar-se uma realidade. Pouco importa que deplorável, desde que apareça. Arrisco uma metáfora, porventura infeliz: pendurem a foz pelo pescoço num ramo da figueira e que vos restará? A Torre do Relógio a contar o tempo parado da nossa passagem.
O tempo parou em Coimbra. É essa a imagem que guardo sempre que regresso da cidade. Parou no pior lugar do tempo, o das tradições supérfluas e de um conservadorismo bacoco que nenhuma infra-estrutura moderna disfarça. A palavra ritual podia ser sinónima de Coimbra, mesmo quando pensamos no que mais contrário a isto de lá nos chegou. Até o rock de Coimbra é o mais conservador possível, é rockabilly, é rock and roll à anos 50 com voltagem punk. Impossível dissociar a cidade e, por extensão, o distrito das premissas estabelecidas por aquilo a que chamam espírito universitário. Nunca entendi o espírito universitário, não entendo as capas negras nem o ritual da Queima das Fitas para onde excursei diversas vezes, pernoitando em pensões de má fama, com os olhos postos numa tradição capaz de colocar no mesmo palco dEUS e o Quim Barreiros. Tudo pela alegria do espectáculo, tudo pela diversão, pelo entretenimento ruidoso que levou um dia Al Berto a insurgir-se corajosamente contra um grupo de energúmenos mais respeitadores de capas negras esvoaçantes do que de versos. O registo áudio do momento circula por aí, nas redes de uma nova tradição. Escutem-no.
Coimbra tem mais encanto / Na hora da despedida assim diz a canção, sem que nós nos atrevamos a desmenti-la. A questão é, despedirmo-nos em que direcção? Subindo a Penacova através do Mondego, libertando os sentidos da toxicidade, assentando arraiais em Piódão, na Serra do Açor, onde a tradição é já outra, mais profunda, sem capas negras, sem nada de superficial? A Coimbra interior fascina-me, a da Lousã, de Góis, de Arganil. A outra entristece-me, não me provoca melancolia nem nostalgia, sinto-a parada numa época abstrusa, a que chamaram nova quando tudo nela cheirava a mofo. Não sei exactamente por que assim é. Mas é assim.
Lembro-me de num passeio pela Serra da Lousã ter um dia pensado que havia mais história naqueles trilhos do que nas ruínas romanas, e que mais e maiores ensinamentos poderíamos ali colher do que na estrunfolândia portuguesa. Porquê? Porque a gente aprende a amar um país metendo-se por ele dentro, descobrindo onde podem ter ido buscar força e inspiração aqueles que, antes de nós, resolveram ser autónomos, independentes, livres. 
Não creio que os portugueses tenham começado a unir-se pelos símbolos a que se submetiam, esses terão surgido já de um encontro proporcionado por aquilo que os aproximou: a vontade de serem independentes, de não viverem subordinados a um senhor que lhes impunha cultos que não eram os seus. Ora, essa independência eu redescubro-a a caminhar pela serra. O resto é necessidade e servidão, subserviência e espartilhos morais, intelectuais, políticos, sociológicos. O resto é a Igreja a entrar pela vida das pessoas usurpando-lhes o sentido do sagrado, obrigando-as a curvarem-se e a ajoelharem-se perante seus próprios e naturais medos, o resto é o sinal da cruz a desafiar-nos uma resposta. Quando, quando teremos nós perdido a vontade?

8 comentários:

Ivo disse...

Diria que mais do que parar no tempo, Coimbra volta sempre ao mesmo tempo. Coimbra dos doutores... Tradições? Sim, basta olhar para o nojo da presidência da Câmara Municipal. Como é que um tipo daqueles é reeleito? A perpetuação da mesquinhez e tacanhez mental da cidade. Impressionante num lugar que todos os anos recebe milhares de mentes novas, novas no sítio e (supõe -se) novas por libertas de espartilhos. Mas enfim, as tradições são mais fortes e acabm por absorvê-los. Não por acaso era eu conhecido por "anti-social". Quem não encarneira assim fica conhecido... Temos pena.

MJLF disse...

Góis tem uma bela praia fluvial e é ponto de encontro de Motares no mês de Agosto. Coimbra é o reino da construção civil dos anos 70-90, aquilo está tudo fodido. A única coisa de bom que lá existe é a Livraria do Miguel e alguns amigos ;) saúde e bjs para toda a tribo

lebredoarrozal disse...

Henrique, já não ouves música feita em Coimbra desde quando? Não acho minimamente que o rock de Coimbra seja o mais conservador possível e muito menos só rockabilly e "rock and roll à anos 50 com voltagem punk".
Dou-te o exemplo, entre outros, dos a-jigsaw, dos wipeout beats,dos ghost hunt, dos birds are indie, dos twist connection. e são estas as bandas actuais de coimbra.:)
Quanto a Coimbra ser uma cidade parada no tempo, também não é tanto assim. Morar em Coimbra, para mim, é ter qualidade de vida. E a praga dos estudantes passa-me ao lado.

maria disse...

"O resto é a Igreja a entrar pela vida das pessoas usurpando-lhes o sentido do sagrado" pois é.

hmbf disse...

Maria João, já frequentei essa praia fluvial.

Lebre, fizeste-me lembrar o Damien Jurado. Quando a cena de Seattle rebentou, também havia mais por lá do que grunge. Em Manchester, nem tudo era madchester na década de 1990. No intanto, o que se impôs foi o que nós sabemos. Por isso ainda hoje falamos de som de Seattle como referência ao grunge, e som de Manchester como referência ao dance rock. O som de Coimbra, para o bem e par ao mal, é o que os Tédio Boys fizeram e teve repercussão em bandas como os D3O, Bunnyranch, Wraygunn, Parkinsons, Legendary..... Há um documentário sobre isso. De resto, folgo em saber que Coimbra não parou no tempo. Não é o que sinto quando me meto pela EN1 e olho para as bermas da estrada.

Maria, assim tem sido, assim vai sendo.

hmbf disse...

Olha, e nisto reparo: esta é a caixa de comentários das 3 Marias. :-)

maria disse...


:) beijinho para ti.

maria disse...

... e para as outras 2 Marias. :)