terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ESTÓRIAS AÇORIANAS


É na insularidade que melhor observamos como à beleza da paisagem serve de contraponto uma fauna humana demarcada pela exiguidade do espaço físico, o qual apela a uma conservação de tradições que oferece ao meio características algo picarescas. Nas Novas Estórias Açorianas (Companhia das Ilhas, Novembro de 2016), Carlos Alberto Machado (n. 1954) dá continuidade a uma recolha iniciada com as Estórias Açorianas (idem, Maio de 2012, 7 edições). 
O arquipélago serve de laboratório observacional, surgindo a tal fauna humana enquanto objecto de observação. Intervindo o menos possível, o narrador chega-se à janela para perscrutar a vizinhança, reproduzindo-lhes boatos e memórias, captando-lhes tiques, fintando os ditames da literatura para que o texto resulte o mais humano possível. Todo o método parte do olhar para se concentrar na pessoa humana, quase sempre no contexto da interacção comunitária, mais raramente singularizada.
Emigrantes regressados à terra natal, o grupo da sueca, o típico sábio do Café Central, veteranos reformados da Capitania, mulheres de má fama, gente honrada e outra caída em desonra, o velho e o novo misturando-se para resultarem em algo ainda incerto, anciãos que são projecções humanas de vilas, de freguesias, cuja história é sobretudo a de quem as habita, o professor forasteiro, o Director da Biblioteca, mestres de artes perdidas, abandonadas, gente mexeriqueira, padres, autarcas, jovens arquitectos, sôtôres e respectivos acólitos, «moças que atravessaram o Atlântico em busca de cama, mesa e roupa lavada», proporcionam e motivam relatos que são fruto de um olhar intencionalmente situado à margem dos acontecimentos. 
Mas o que importa a estas “estórias” é precisamente o acontecimento, não é o modelo. O que interessa ao narrador, mais do que julgar o lugar social das suas personagens, é oferecer-lhes um nome próprio. Mesmo quando parecem descambar para uma dimensão onírica, as situações narradas caem à terra através de um nome humano, uma figura tipo facilmente reconhecível e porventura identificável num território que, afinal, extravasa as fronteiras do arquipélago, aplicando-se com justeza a todos os lugares onde aquilo a que chamamos modernidade ainda não aniquilou por completo velhos vícios e vetustas virtudes da vida em comunidade:

OLHOS DE FAZER MUNDOS

   É com os olhos que primeiro cultiva a terra. Não é coisa de agora, era ele pequeno e já a mãe o adivinhava, dizia ela para o seu homem: «o nosso filhinho sonha com os olhos abertos». Neles, sem mãe nem pai saberem, desenhava o menino as suas primeiras brincadeiras, os seus primeiros sonhos. Mas António não sabia, nunca soube que era isto que a mãe via nos seus olhos. Talvez ela lho quisesse dizer um dia, mas partiu antes de chegar a decidir-se. Talvez tenha sido melhor assim.
   Olhamos os olhos de António e vemos regos de água, árvores e animais, uma casa a abraçar uma árvore forte e frondosa, um cão atento. Cores quentes e um homem de olhos verdes que é ele a caminhar a passos largos sobre a terra. O homem que é ele e que se sonha, trabalha a terra com as suas próprias mãos. Mas o que suja, alarga e fortalece as suas mãos é mais que coisa orgânica, é o próprio mundo que ele faz nascer.
   António e os seus olhos de fazer-mundos já desenharam mundos de outras maneiras. Em pedaços de papel sensível, entre claros e escuros, linhas e ângulos e coisas por desvelar, descobriu ele outro modo de ser e de se ir fazendo homem – cada vez mais longe da mãe. Ou talvez não.
   No tempo em que o ódio ainda lhe aflorou os olhos e as mãos, como a qualquer homem  que neste mundo é feito, lutou contra os burocratas da educação oficial, contra os moldadores de consciências. Tentou, como “ensinador”, mostrar aos rapazes e raparigas que a reciprocidade era o único princípio, e primeiro. Falhou. A ignorância e a mediocridade, em defesa do bom senso e dos bons valores, cresceram e falaram mais alto. Por uns tempos, os olhos d’água de António turvaram-se de cinzento.
   Agora, com os cabelos a aclararem e a alma ainda em fogo, António realiza na terra o que os seus olhos tanto sonharam. Tal e qual. Só, a apontar o céu. Firme. A única maneira de se ser homem em terra madrasta.
   Da sua terra amada vê o oceano a transformar-se, a abraçar a terra e a engoli-la. Os homens de olhos turvos não sabem para que serve o olhar.


Carlos Alberto Machado, in Novas Estórias Açorianas, Companhia das Ilhas, Novembro de 2016, pp. 77-78.

“PAPÁS AGASTADOS”

Presumo que Eduardo Pitta se refira aqui à polémica resumida por Ricardo António Alves nestes termos. Não fosse o post no Abencerragem, a polémica ter-me-ia escapado. Assim como me escaparia o conteúdo do livro aludido, pois não sou leitor do romancista em causa. Sucede que sou pai de duas filhas. E, se bem entendi, o que está em causa é a possibilidade de se discutirem em aulas de Língua Portuguesa (ou de Português, se preferirem) livros com cenas de sexo explícito. Na passagem transcrita pelo Ricardo temos uma tia que é puta, uma mulher que é porca porque fode com todos, uma mulher que deixa que lhe ponham a pila no cu. Eu jamais escreveria pila, sempre preferi o termo caralho, mas aceito que o autor visado tenho gostos mais apurados que o meu. Porque a questão não é essa, cabe-me perguntar às pessoas para quem pode ser normal discutirem-se textos com cenas de sexo explícito numa sala de aula, onde se encontram miúdos de diversas sensibilidades e proveniências distintas, com uma base cultural e contextos familiares diversos, se achariam aceitável um professor usar filmes com cenas de sexo explícito para ilustrar matérias programáticas? A questão colocou-se nos anos 90, se bem me lembro, por causa de Kids (1995), de Larry Clark. Que nem tinha cenas de sexo explícito, assim mesmo explícito, explícito como uma tia porca a levar no cu apesar de ter uma racha para foder. Independentemente da resposta, tenho igual curiosidade em perceber o que é que para certas pessoas pode ser hoje considerado desajustado a uma sala de aula. Ou será que nenhum conteúdo é desapropriado? São meras interrogações. Por mim, no limite, até podiam andar a interpretar o Cona d’aço. Só não vislumbro o interesse literário da coisa, mas posso estar equivocado.

EUTANÁSIA



Terei assistido a cinco minutos de debate. Depois desliguei a televisão. Mais do que qualquer questão filosófica, ética, deontológica, jurídica, não consigo entender o problema estético. É regra: os tipos que mais vivem obcecados com aquilo a que chamam direito à vida são todos feios. Gente tão feia, tão feia, tão feia, que me custa acreditar terem pela vida tamanha reverência. 

NÃO SEI O QUE SE PASSOU

Mas este post é muito bom. Excerto:

Conheço imensos reaças asneirentos, como progressistas de vocabulário ultrapuritano; ou gente como eu, que diz palavrões com gosto, mas não o faz diante dos filhos ou dos pais. "Hipocrisia", estou já a ouvir alguns. Não; decoro com os mais novos; respeito pelos mais velhos

[BATER A PEDRA, BATER]


BATER A PEDRA, BATER
o chão. Perpendicular

a perna do homem, fio-de-prumo,
constituindo medida e
sustento do gesto. O homem calça-terra

agora está de joelhos.
A gota do rosto
deslizando como
mínimo mar quase em queda.
Sua boca toca a lata precisa de cócacóla.

E os passantes desajeitados
acertam batentes tacões sobre o tosco fóssil desenhado.


Elisabete Marques (n. 1982), in Cisco (2014). «Não deverá ser indiferente para a compreensão das propostas de Elisabete Marques saber que a autora se doutorou com uma tese sobre Maurice Blanchot e Samuel Beckett. Nesse particular, seria especialmente proveitoso considerar a poesia do irlandês, no que esta tem de esfacelamento impiedoso da palavra, biselada até ao limite do concebível. (…) Esta poesia, entrecortada por uma utilização da pontuação adversa à norma, é percutida por ritmos de compasso apertado, e revolteada pelo sopro da ambiguidade. O rasto desse modo de dizer, pensadamente dúbio, pode advir da sobreposição de unidades frásicas, que conduzem a distintas possibilidades de significado; como é possível que resulte de opções lexicais menos vulgares, quando não abertamente disruptivas da estandardização verbal (…)» (Hugo Pinto Santos, Público, 27 de Março de 2015).

domingo, 29 de janeiro de 2017

NOTÍCIAS COM 100 ANOS


Eram outros os protagonistas, era outro o mundo, mas o ambiente parece reproduzir o que fomos lendo nos livros. Esperemos que a história não se repita. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

MATRIMÓNIO


Aquele momento em que lança os olhos pela paisagem, fundo de prédios em construção, e diz: 20 anos. Tudo se transforma, excepto um drama como o nosso. Sim, há sempre lugar no tempo para algo que não muda. Normalmente, dramas como o nosso. Repetem-se porque são humanos, porque neles fervilha a mais perene das condições. Enquanto houver quem se ame, enquanto houver paixão, dramas como o nosso serão o elemento inalterável de uma paisagem em constante transformação. Paradoxo dos paradoxos: ser o drama uma comédia!

JOHN HURT (1940-2017)


Nomeado para os "óscares" por ter dado corpo a John Merrick, O Homem Elefante (1980) de David Lynch, foi o rosto principal em 1984 (1984), de Michael Radford. Entrou num western de Walter Hill, ao lado de um Jeff Bridges no papel de Wild Bill [Hickok] (1995). E ofereceu a voz a Dogville (2003), de Lars von Trier. Se bem me recordo, a última vez que o vi foi no filme A Toupeira (belíssima adaptação, assinada por Tomas Alfredson, do célebre romance de John le Carré). Na minha memória, ficará para sempre como o rosto inquietante de 1984

UMA OBSERVAÇÃO DE T. S. ELIOT

RAPSÓDIA SOBRE UMA NOITE DE VENTANIA

Meia-noite.
Ao longo dos confins da rua
Captada em síntese da lua,
Encantamentos da lua murmurados
Dissolvem pavimentos da memória
E, nítidas, as relações dela
As divisões e precisões.
Passo na rua e cada candeeiro
Ressoa como qualquer fatídico tambor
E, através de espaços de negrume,
A meia-noite agita a memória
Como louco que agitasse um gerânio sem vida.

Uma e meia.
O candeeiro da rua gaguejou,
O candeeiro da rua murmurou,
O candeeiro da rua disse: «Repara nessa mulher
Que hesita em dirigir-se a ti, na luz da porta acesa
Que sobre ela abre como se fora esgar.
Vês-lhe rasgada a orla do vestido
E com manchas de areia,
E vês-lhe o canto dos olhos,
Revirado, qual gancho de alfinete.»

A memória vomita em abandono
Um ror de coisas retrocidas;
Na praia, um ramo retrocido
Liso, polido e desgastado
Como se o mundo divulgasse
O segredo do seu esqueleto,
Hirto e branco.
Mola partida num pátio de fábrica,
Ferrugem colada à forma que a força deixou
Enrolada e tensa e quase a rebentar.

Duas e meia,
O candeeiro da rua disse:
«Repara no gato que se espalma na goteira,
Estende a língua para fora
E devora um naco de manteiga e ranço.»
Automática, pois, a mão da criança
Lesta e furtiva, embolsou um brinquedo, a correr ao longo do cais,
Nada vi, atrás do olhar de tal criança.
Nas ruas já vi olhares
Que tentavam espreitar por persianas acesas;
E um caranguejo, num charco, certa tarde,
Com lapas na carapaça, um caranguejo velho
Prendia a ponta de um pau que lhe estendi.

Três e meia,
O candeeiro gaguejou,
O candeeiro murmurou no escuro,
O candeeiro sussurrou:
«Considera a lua,
La lune ne garde aucune rancune,
Ela pisca um olhar ténue,
Ela sorri pelas esquinas,
Ela alisa o penteado da relva:
A lua perdeu a memória.
As úlceras da varíola abriram fendas no seu rosto
Torce, na mão, uma rosa de papel
Que cheira a pó e a eau de Cologne,
Ela está sozinha
Com os odores antigos, nocturnos, todos
Que no cérebro se cruzam e entrecruzam.»
Volta a reminiscência
De gerânios sem sol nem vida
E de fissuras cheias de pó,
Nas ruas há o cheiro a castanhas
E os cheiros a fêmea em quartos de persianas,
E cigarros nos corredores
E cheiros de cocktail pelos bares.

O candeeiro disse
«Quatro horas,
Aqui está o número na porta.
Memória!
A chave és tu que tens,
O pequeno candeeiro espalha um círculo no degrau.
Monta.
A cama está aberta; pendurada na parede, a escova dos dentes,
Deixa os sapatos à porta, dorme, prepara-te para a vida.»

Último golpe da navalha.


T. S. Eliot (n. 26 de Setembro de 1888, St. Louis, Missouri, EUA - m. 4 de Janeiro de 1965, Kensington, Londres, Reino Unido), in Prufrock e Outras Observações, tradução de João Almeida Flor, Assírio & Alvim, Maio de 2005, pp. 39-45. Nota: porque não gosto desta tradução, sugiro que se confronte aqui com o original. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

FÁTIMA

Fátima não resulta de um milagre, mas de milhares de milagres confluindo para um só. Nada do que é verdadeiro importa a Fátima, nem do que relacionado com o fenómeno milagreiro nacional possa ser mais escabroso. Leia-se isto, a título de exemplo. O milagre dos milagres é em pleno séc. XXI, passados 100 anos sobre as putativas aparições, ainda haver tanta gente esclarecida complacente para com o embuste. Os peregrinos não me incomodam, tal como não me incomodam os néscios. O que me incomoda é a complacência dos religiosos e da padralhada toda que, podendo estudar, sabendo do que ali se passa, ainda vão ao beija-mão à sombra do altar. O simpático Francisco é outro que se apronta para manter e reforçar o culto da mentira, do ultraje, provando assim que para ser papa papista basta. É mais do mesmo, apesar da simpatia. Uma igreja erigida sobre mentiras, falsidades, logros e imposturas como o fenómeno de Fátima merece-me tanto respeito quanto a Igreja Maná (que não me merece respeito algum). 

FORMALIDADES JURÍDICAS

Ouvimos isto frequentemente: o processo foi arquivado não porque o crime não tenha sido cometido, mas por formalidades jurídicas. A invocação das formalidades está para o apuramento da verdade como o segredo de justiça para a presunção de inocência, são ambos impedimentos a que realmente se faça justiça. Eis-nos perante um cancro que não só descredibiliza todo o sistema, como nos leva a acreditar ser o destrambelho o seu pilar fundamental. À conta de tantas formalidades, andamos todos num informal improviso a fingir que a coisa funciona, convencidos de que a coisa funciona, na esperança de que a coisa funcione, nem que passados muitos anos de formalidades sobre formalidades até ao arquivo final. O esquecimento, pois claro, a mais pesada das penas que a vítima sustém. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ACABAR O DIA

A ouvir Et de plomb et de plume. Não percam: aqui.

A GRANDE ESPERANÇA: DESOBEDIÊNCIA CIVIL

A figura de Abraham Lincoln é, para todos os efeitos, a mais representativa dos Estados Unidos da América tal como hoje os conhecemos. Para o representar, John Ford (1894-1973) concentrou-se no início de uma singular carreira de advogado. Autodidacta, Lincoln denotou desde muito cedo enorme paixão pelas leis. Há uma cena em Young Mr. Lincoln/A Grande Esperança (1939) que evidencia como nenhuma outra essa dimensão passional face à lei. Lincoln é o inexperiente advogado de defesa de dois jovens acusados de terem cometido um assassinato. Chamada a depor pela acusação, a mãe dos jovens, que havia testemunhado o suposto crime, é pressionada a revelar qual dos dois filhos teria cravado a faca no coração da vítima. Recusa fazê-lo. O advogado de acusação grita-lhe que tem ali uma oportunidade única de salvar um dos filhos da forca, bastando-lhe para tal revelar qual dos dois foi o criminoso. Esvaída em lágrimas, a mulher gagueja até que Lincoln interrompe abruptamente o depoimento. Voltado para o juiz, o advogado de acusação protesta alardeando a inexperiência de Lincoln: “Se o senhor advogado de defesa soubesse mais de leis…” Novamente interrompido, Lincoln afirma: “Posso não saber muito de leis, mas sei distinguir o certo do errado”. 
A afirmação do jovem Lincoln é fulcral para a compreensão do filme, nomeadamente por nela estar incutida a marca essencial de uma personalidade que acabou por se transformar na mais representativa dos Estados Unidos da América tal como hoje os conhecemos. E essa marca é a de uma concepção do Direito capaz de aceitar que as acções humanas não se encerram no que a lei sobre elas possa determinar, têm por detrás motivos e têm em vista intenções que as tornam particularmente discutíveis. Em suma, nem sempre a lei encerra a boa acção e nem sempre as boas acções são conforme a lei. 
Num ensaio assaz pertinente nos tempos que correm, Hannah Arendt (n. 1906 – m. 1975) problematiza esta relação da lei com as acções humanas procurando um lugar para a desobediência civil num sistema político democrático. Partindo dos exemplos outorgados por Sócrates e Henry David Thoreau, autor ele mesmo de um célebre texto justamente intitulado A Desobediência Civil, Arendt propõe uma leitura da desobediência civil que não se esgote na consciência isolada do indivíduo, ou seja, que não se confunda com objecção de consciência. Escrito numa época em que as manifestações pelos direitos cívicos estavam ao rubro, com lutas estudantis na Europa e a Guerra do Vietname a acicatarem ânimos e contestação, Desobediência Civil (Relógio D’Água, Janeiro de 2017) vem insistir numa distinção clara entre “homem bom” e “bom cidadão”. 
Para Arendt, a desobediência civil é inerente aos processos de transformação de uma sociedade, provocando a mudança na medida em que desafia as fragilidades da lei. Isto obriga a uma outra distinção, nomeadamente nos sistemas democráticos, entre desobediência civil e desobediência criminal. A primeira é exercida em público e tem em vista um bem comum, ao passo que a segunda se exerce na obscuridade social e procura favorecer meros interesses privados. Não deixa de ser curioso que a própria lei se revele tão incapaz de travar a desobediência criminal e seja tão proactiva na criminalização da desobediência civil. Assim sucede porque aquele que participa na desobediência civil, ao contrário do criminoso, expõe-se perante a lei, não lhe procura fugir, como alguns dos discípulos de Sócrates pretendiam que ele fizesse, assumindo um confronto que, em última análise, tem em vista um bem que a lei não contempla. 
O problema está em que nos regimes democráticos a lei surge de um consentimento do eleitor junto daqueles a que, por terem sido eleitos, cabe a formulação da lei. A conclusão de Hannah Arendt não podia ser mais acutilante: «Este consentimento, penso eu, é de facto inteiramente fictício; de qualquer modo, nas circunstâncias actuais, perdeu toda a plausibilidade. O próprio governo representativo está hoje numa crise, em parte porque perdeu, no decurso do tempo, todas as instituições que permitiam a efectiva participação dos cidadãos, e em parte porque está hoje gravemente afectado pela doença de que sofre o sistema dos partidos: burocratização e tendência dos dois partidos para não representar ninguém a não ser as máquinas partidárias» (pp. 47-48). A desobediência civil encontra, desta feita, mais que uma sustentação legal, um imperativo moral. Enquanto “associação voluntária” de cidadãos que se reúnem em grupo tendo em vista o protesto, a desobediência civil assume um ímpeto mobilizador que é factor de mudança no confronto com a lei. Já não se reduz à voz isolada de um indivíduo contra o mundo, nem à consciência da pessoa singular. É um factor de cidadania. E, enquanto tal, há que lhe reconhecer um lugar na linguagem política. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DA POESIA E DOS LUGARES


   Poderá um poeta escrever a partir de um não-lugar? Estará ele a delimitar o palco das suas palavras declarando-lhes um lugar de origem? Que tipos de relação poderemos vislumbrar entre as palavras de um poeta e os lugares por ele evocados? 
   Há muito que na poesia de Amadeu Baptista (n. 1953) estas questões se colocam. Percebemo-lo facilmente olhando apenas alguns dos seus títulos: A Construção de Nínive (2001), Os Selos da Lituânia (2008), Fragmentos Tunisinos (2014), Fragmentos de Veneza (Abril de 2016), O Arco Sírio (Novembro de 2016). Desde sempre fascinado pelos temas bíblicos, nesta poesia os lugares são também marcas culturais, sinais históricos, não apenas palco de circunstâncias íntimas, pessoais. Nos dois últimos livros, por exemplo, surgem contextualizados de modo diverso. 
   A Veneza de Amadeu Baptista é a de um turista em estado de graça, lembrando os pares que sobre ela escreveram ou nela actuaram. É um entre os seus. Os poemas têm um destinatário amoroso, são fragmentários como aforismos, cedendo tanto ao romantismo inevitável da paisagem, como fintando esse romantismo previamente idealizado com o lirismo cativo de um olhar inevitavelmente melancólico:

Veneza é o lugar em que tudo pode acontecer, por desabridos
que possamos  ser nesta viagem quase imaginária
em que procuramos a paz e só a desavença nos persegue.
A um poeta pouco cabe além de enaltecer a luz
para poder guardar-te em recônditos abismos, a bruma
que se estende pelos canais, os festões que enganalam as janelas,
a memória da noite em que nos perdemos entre Torcello
e San Michele, a ilha dos ciprestes de onde Ezra Pound nos acena
e Stravinsky compõe a última sagração da primavera, com os ossos
para sempre abandonados ao infinito alvoroço da eternidade.
Longe de casa, numa cidade corroída pela água,
o que fazemos, com as lágrimas nos olhos?


Amadeu Baptista, in Fragmentos de Veneza, Lua de Marfim, Abril de 2016, p. 19.


   Muito diferente, O Arco Sírio encena a desastrosa realidade de um êxodo contemporâneo. O imaginário bíblico impõe-se em termos comparativos, reduzindo a épica dos heróis a uma elegia dos exilados. A voz do poeta intromete-se como se fosse um deles, poeta entre refugiados fugindo da miséria a caminho da incerteza. Engendra-se assim um jogo paradoxal, pois o realismo das imagens por demais conhecidas, o realismo bárbaro, deveras presente, dos povos em fuga, acossados pela guerra, pela morte, pela fome, contorna-se com a ficção de uma primeira pessoa, o eu do poeta, que deixa para trás casas devastadas, cadáveres amontoados, assassinos sem rosto. 
   O arco de Palmira, histórica cidade devastada, é agora sinónimo de ruínas sobre ruínas. Deslocados da conservação das ruínas para os destroços consumados sem reparação possível, ficamos assim colocados num ponto da História sem horizontes à vista. Este é o lugar dúbio onde o tempo toma conta do espaço, lançando sobre tudo uma nuvem de pó que atordoa pensamento e emoções. Lugar de naufrágios e deriva, mapa sem coordenadas, dedáleo "atlas de circunstâncias". Transformado em pó, o passado deixa de ter futuro. Tem apenas angústia, “abrigo incerto, luto inevitável”:

33.

Diz o poeta que a guerra não é uma metáfora,
uma hipérbole, um caudal de relâmpagos.
Os que vão no caminho sabem bem
o que a guerra tem de terror e crueldade,
o que é coabitar com o sobressalto
na carne e no espírito, quando as deflagrações
matam gente desarmada, mulheres, velhos,
crianças. Os que buscam a fuga de Palmira
ou Bagdad, ou de onde a guerra
prolifera como um visco mortífero,
dos sonhos só conhecem o sarro iníquo.



Amadeu Baptista, in O Arco Sírio, Lua de Marfim, Novembro de 2016, p. 37.

À SOMBRA DA RUÍNA

Abramos portas à felicidade, de algum lado ela há-de chegar-nos. Ainda não pintámos todos os livros que havia para pintar, insistimos no estudo do Reiki, a biografia sobre Mindfulness não pára de crescer, os anjos estão connosco e nós com eles. Eis-nos no Norte da Europa, onde a felicidade medra como náufragos no mediterrâneo. A moda dos nórdicos chegou-nos pelos policiais, prossegue agora pelos bons conselhos para uma vida feliz. Entretanto, em conversa com amigo emigrado na Suíça, fico a saber do seu desespero. São todos uns fascistas, diz-me, até reuniões na escola fazem em separado para suíços e emigrantes, esta merda é um Apartheid em plena Europa e ninguém fala disto. Pronto, amigo, dou eu uma achega. Sugiro-te, para te acalmares, uma volta pela Dinamarca. É lá que a felicidade nos espera a todos. Com sorte, deixam-nos sozinhos e abandonados num cantinho do interior alentejano ou no vale do Douro. Se lá fomos felizes, fortes possibilidades se abrem para que no futuro voltemos a sê-lo. Felizes, alegres, ligeiros, nem que à sombra da ruína e no aconchego do abandono. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

UMA BIOGRAFIA SENTIMENTAL

O título da edição original é simplesmente Bowie, tendo a editora A Esfera dos Livros resolvido acrescentar à obra de Wendy Leigh o epíteto de “biografia sentimental”. Para um fã do homem que assinou Space Oddity, a leitura assemelha-se a uma digressão pelos expositores da imprensa sensacionalista. Em suma, sexo, sexo, sexo e ainda mais sexo. Muito mais do que drogas, apesar das doses industriais de cocaína, e do que rock’n’roll, apesar de Rebel Rebel. Ficamos com a ilusão de penetrar o núcleo privado da estrela. Apesar de tudo, a sessão não chega a ser hardcore. Estará mais ao nível de E. L. James do que de Henry Miller. A ter em conta: as mulheres mais importantes na vida de Bowie foram Iman, com quem casou em 1992, Corinne «Coco» Schwab, gestora em todas as áreas da vida pública e privada, e Angie, com quem esteve casado entre 1970 e 1980. O que sobra é uma amálgama de relações esporádicas e interesseiras que pode desde logo ser resumida a isto: «David aventurou-se de uma experiência sexual para outra, lançando-se em sexo gay, ménages à trois, sexo em grupo, sexo com mulheres e depois, e talvez na mais inesperada experiência de todas, no casamento monogâmico» (p. 19). A normalidade como a mais inesperada das experiências.
Para tal contribuíram uma libido insaciável e, passo a citar, «um impressionante e muito gabado membro sexual» (p. 20). Seria fastidioso elencar todos quantos provaram de tal membro, desde as mais variadas estrelas a agentes com quem o compositor e actor tinha interesses não exclusivamente sexuais, passando por groupies e até, em determinado momento, a possibilidade de um cadáver que Bowie terá rejeitado em estado de choque. Desde cedo com preferência por gente de pele escura, contrastando com a sua gabada transparência, percorreu todos os tons e mais alguns até encontrar a felicidade absoluta ao lado da modelo somali Iman Mohamed Abdulmajid. Logo na adolescência, foi por causa de uma miúda que ficou com um olho de cada cor, depois diz-se que dormiu com o manager Ralph Horton numa época em que a homossexualidade era ainda ofensa criminal. Servindo-se de um muito sublinhado “carisma sexual” (desconheço se a obra de José Sócrates abordará o tipo), caiu nos braços de outro manager: Simon Napier-Bell. Quem seria o depredador? Quem seria a presa? Parece que naqueles tempos o sexo era condição essencial para se ser agenciado. Naqueles tempos. 
A ideia é que David «tinha-se tornado um íman para os homossexuais e estava rodeado por um círculo de admiradores masculinos» dos quais retirava proveitos e aproveitava vantagens. Em suma, um oportunista agarrado ao membro, um manipulador da elite homossexual londrina, um tipo que «Longe de se mostrar tímido com os seus consideráveis dotes genéticos, […] alegremente exibia o seu membro o máximo de vezes que podia, e tanto em palco como fora dele usava as calças mais justas que conseguia encontrar, de forma a mostrá-lo» (p. 70). A quem estivesse interessado em vê-lo, poder-se-ia acrescentar. Mas Wendy Leigh não está interessada em acrescentos, preferindo citar Angela Bowie, que alcunhou o membro de David como «a lança do amor», para concluir que nada de amor havia no tesão incomensurável: «Nesses anos iniciais em que estava a tentar subir a escada para o sucesso, o seu impressionante membro provaria ser um dos seus trunfos mais valiosos quando se tratava de lidar com uma quantidade de homossexuais presentes no mundo da música, ficando todos fixados nele e naquela sua larga vantagem para a vida» (pp. 70-71). David flirtava como método, seguindo-se a cama como experiência, acabando tudo consumado no trabalho enquanto fim. 
Era um “malabarista sexual”, segundo Mary Finnigan, «muito bem dotado nos genitais» (p. 86). E continua: «Ele não era o tipo de homem que precisava de fazer amor todas as noites, mas quando acontecia durava horas e horas» (p. 86). Tal aritmética da sentimentalidade leva-nos a questionar como lhe sobraria tempo para o trabalho. Tantas foram as horas de cama, que chega a ser inacreditável como conseguiu o homem escrever canções, fazer filmes, representar em peças teatrais, dar concertos… «Dana Gillespie (…) [e Ava Cherry] era uma das raparigas que regularmente tinham ménages à trois com David e Angie» (p. 95). O casal criava “uma teia de aranha sexual”  que levou Angie a dizer numa entrevista: «Passei os melhores momentos e os momentos mais felizes com a minha equipa de rorting. Rorting significa comer miúdas. Estávamos quatro ou cinco tipos e eu, e tudo o que tínhamos de fazer era escolher as miúdas e ver quem era o primeiro a conseguir meter-se dentro delas» (105). Pelo meio, na companhia do marido, divertiam-se a conquistar o maior número possível de rapazes e de raparigas para brincadeiras sexuais. Mas não estamos apenas no domínio da brincadeira, o acto envolvia trabalho e espiritualidade, o sexo era uma constante que levava David, segundo Cherry Vanilla, a fazer amor com todas as pessoas que trabalhassem para ele. Imagine-se a trabalheira. 
Heliogábalo do seu tempo e no seu meio, «não fodia apenas, ele fazia amor» (conversa de groupie), um amor tão universal que chegava para todos os envolvidos numa orgia, mesmo para aqueles que David abandonava depois de já não precisar deles. Todos recompensados por poderem ter estado nas mãos do Deus maior. Chega a falar-se em magia branca, induzida pela cocaína, e sistema de crenças, numa lógica sexual. Até que um dia pareceu a mulher dos seus sonhos, com quem casou, teve uma filha e foram felizes para sempre. E assim ficamos a perceber o que é uma biografia sentimental. É isto, estas histórias, estes retratos caricaturais de uma vida que parece nunca ter saído de onde foi gerada: da genitália. 

TELEFONES DA PAZ

Há dias, dando continuidade a uma massacrante discussão sobre o estado do mundo, ouvia pacientemente alguém comparar os utilizadores de smartphones com os viciados em heroína, por causa da postura corporal curvada. Veio a conversa a propósito da impressão que terá feito ao sujeito a dedicação da minha filha Beatriz ao gadget. Como não sou utilizador, nem tenho inclinação para as tecnologias, escuto com muita paciência os fundamentalistas do mundo a preto e branco. Compreendo-os e aceito-lhes as amarguras como se fossem minhas. Não são, ainda que por vezes possa parecer que sim. Também eu tive de ouvir em tempos lamentos por andar constantemente com os olhos enfiados nos livros, como se isso fosse vício e se castigasse este a si próprio. Desconfio que a relação dos miúdos com a imagem possa vir a formar “godards” no futuro, assim saibam pais e educadores contextualizar vantagens e desvantagens, virtudes e vícios, deste novo mundo que é o nosso. De resto, também nunca me impressionou especialmente a postura dos drogados. Indigna-me mais o beija mão dos bem instalados. Agora leio este post, de amigo com quem gostaria de poder confraternizar mais. Estou sempre a aprender com ele, ao contrário do que me acontece com tantos outros:

Sou do papel. Velho ou novo, poeirento ou manchado. Mas reconheço a utilidade da tecnologia. Dos smartphones. Em muitos casos são pacificadores. Potencialmente integradores. Há tempos contava-me um amigo que no tempo da caça aos Pokemons via da sua janela em Tonsenhagen que até os odiados muçulmanos, as mulheres de burka e os filhos conviviam com os dolicocéfalos nórdicos perseguindo a caça virtual.
Muitas vezes, por economia de tempo, para me poupar à chatice de cozinhar subo ao restaurante costumeiro. O telefone, num restaurante com wi-fi tem ajudado na pacificação social.

"Buy American and hire American"


Ontem o mundo acordou em pânico com a declaração de guerra comercial à China, levada a cabo pela nova administração Trump. Portanto, uma das primeiras medidas de Trump foi romper a parceria com os países da Ásia e do Pacífico. Sabendo nós que o novo presidente dos EUA não gosta muito de pagar impostos, é muito provável que também não seja daqueles que aprecia pagar a conta. Ora vejam só onde foram fabricados os inúmeros artefactos de campanha que Trump exibiu durante as eleições. Made in China, pois claro. Há muito mais aqui

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

BOWIE BOWIE

   Voando de Los Angeles para Nova Iorque em Março, David soube que os Velvet Underground iam dar um concerto no Electric Circus, em Manhattan. Decidiu ir e, como apenas tinha sido vendida uma centena de bilhetes, conseguiu sentar-se na primeira fila, onde cantou todas as canções, esperando impressionar Lou Reed com o seu conhecimento das letras. Após o espectáculo, e dado que os Velvet Underground não eram ainda suficientemente famosos para necessitarem de seguranças, David conseguiu facilmente esgueirar-se até aos bastidores e bater à porta do camarim deles, pedindo para falar com Lou.
   Pouco depois, Lou saiu e sentou-se a conversar com David num banco do clube. Fascinado, David informou Lou de que era o seu único fã em Londres e de que tinha conseguido um exemplar do álbum de estreia dos Velvet Underground ainda antes de ter sido editado nos Estados Unidos. Depois interrogou Lou acerca das suas letras e das razões por trás das suas escolhas musicais. Conversaram por mais de um quarto de hora e depois, como disse David anos mais tarde, «flutuei pela noite fora, um fã cujo sonho se concretizara».
   Mas na manhã seguinte um amigo do mundo musical informou David de que Lou já saíra da banda há algum tempo e que o seu substituto, Doug Yule, se parecia imenso com Reed. Nas palavras do próprio Bowie, ficou «desfeito».

Wendy Leigh, in Bowie - Uma Biografia Sentimental, trad. Eurico Monchique, A Esfera dos Livros, Novembro de 2016, p. 111.

   A 1 de Abril de 1998, David e Iman deram uma festa no estúdio do artista Jeff Koons no SoHo, em Nova Iorque, para o lançamento do livro Nat Tate: An American Artist: 1928-1960, uma biografia escrita por William Boyd. A obra fora publicada pela nova editora de David - a 21, dedicada a livros de arte - e nela Boyd contava a trágica história de Tate que, após destruir 99 por cento da sua produção artística, se lançou do ferry de Staten Island e se afogou.
   Os convidados na festa elogiaram o autor William Boyde brindaram à memória de Nat Tate - Charlie Rose, Jay McInerney e variados nomes do mundo literário escutaram respeitosamente enquanto David lia um excerto da biografia. Mas uma semana depois, David Lister, crítico de arte do jornal The Independent, revelou que Nat Tate era apenas um produto da imaginação de Boyd, e que o livro fora uma partida em que Bowie concordara em participar.

Idem, pp. 247-248.

OBAMA


1. Há pessoas que acham que OBAMA é diferente.

Eu acho que ele vai tentar provar que é igual.

2. OBAMA não é branco nem preto nem sequer bronzeado; é um bocado disto tudo, em doses convenientes e perfeitamente assimiláveis pelo discurso dominante, produzido pela vontade de acumulação. Esta “vontade” é uma vontade natural e também fabricada. A natureza favorece em larga escala situações de acumulação de energia. O pavão mais forte tem energia suficiente para manter o seu metabolismo a funcionar; e dispõe também de um excesso de energia que utiliza para fabricar penas mais capazes (mais coloridas, mais reveladoras da conta energética) de impressionar as fêmeas e também os outros machos. O domínio é possível graças à acumulação de energia. A acumulação é um fenómeno natural e também uma construção social. O comunismo falhou historicamente porque não conseguiu a harmonia entre a natureza e a construção social: quis subordinar a natureza à construção social, esquecendo-se de, ou não conseguindo, averiguar as formas de concretizar uma combinação. O fascismo falhou por ser “demasiado natural” – o pessoal sempre gostou de demonstrações de força; até o pau (quem segura o pau defende a sua “naturalidade”) lhe desabar no costado.

3. A eficácia do texto dominante está na capacidade de assimilar “contra”-textos: homens de pigmentação excepcional, contexto histórico-cultural, traumatismos, pequenas maravilhas televisionáveis. OBAMA é fofinho.

4. Mais que a minoria, ou várias minorias, ou mesmo a imensa minoria, OBAMA representa a incapacidade de prescindirmos da vontade de agradar a quem nos fabrica o sonho que continuamos a consumir, e que em raros momentos vislumbramos como não sendo exactamente o nosso.


Rui Costa (12/11/2008, aqui)

CONTA PESSOAS

Grande parte das lojas de grandes empresas têm instalado à entrada um contador de pessoas. A intenção é contar as pessoas que entram numa loja, cruzar o número de entradas com os talões de venda emitidos, tentar perceber qual a percentagem de clientes que de facto compram. Depois há as segundas intenções, que não me cabe discutir aqui. Mas sempre achei alguma piada à subjectividade dos números. Repare-se que pode entrar uma família de 5 pessoas para comprar apenas um artigo, pode entrar uma pessoa que não compra porque o artigo não estava disponível, mas até encomenda, podem entrar e sair várias pessoas diversas vezes enquanto falam ao telemóvel e andam a passear o tédio sem qualquer intenção de comprar. Lembrei-me destes conta pessoas a propósito das imagens sobejamente divulgadas sobre «as multidões que acompanharam as tomadas de posse de Barack Obama (2009) e Donald Trump (2017)». Estas comparações nada dizem, apenas insistem em desviar-se do fundamental: perceber as razões que fundamentam a eleição de um escroque.  Tal como não foi correcto comparar as multidões que acompanharam os funerais de Cunhal e Soares, também não é correcto fazer este tipo de comparação. Menos demagógico seria comparar as multidões que acompanharam as tomadas de posse de Bush e Trump. Enfim, sempre se reduzia a margem de erro do disparate. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A POESIA COMO ARTE INSURGENTE

À pergunta sobre a possibilidade da poesia depois do holocausto, um grupo de jovens norte-americanos saturados da cultura ocidental respondeu com o mais instigador dos uivos. Ficaram conhecidos como Geração Beat, o que pode querer dizer muita coisa não nos cabendo aqui especular sobre o tema. Surgiram na década de 1950 com uma atitude verdadeiramente vanguardista, empenhados numa afronta aos valores tradicionais adoptando atitudes éticas e estéticas que foram assimiladas, por vezes muito mal, pelos mais diversos movimentos de contracultura que o Ocidente conheceu nas décadas seguintes. Interessados nas tradições não ocidentais, mormente nos costumes e hábitos indígenas e nas filosofias orientais, professaram eles próprios sistemas de vida exóticos, advogando a sexualidade livre, concepções políticas o mais próximas que consigamos imaginar dos antigos filósofos cínicos e dos hedonistas, sintonizados numa frequência multicultural que não reconhecia barreiras entre artes.
Nunca se reconhecendo como parte integrante do “grupo”, Lawrence Ferlinghetti (n. 1919) acabou por assumir um papel fulcral na sua afirmação. Depois de ter servido na marinha durante a Segunda Grande Guerra, transformou-se num pacifista militante. Formou-se em Literatura pela Columbia University e mudou-se para Paris, onde viveu entre 1947 e 1951, com a intenção de aprofundar estudos literários. Já casado, fixou-se em São Francisco no ano de 1953. Deu aulas de francês, pintou, foi crítico de arte, traduziu e fundou com Peter D. Martin a City Lights Bookstore. Foi precisamente neste contexto que desempenhou um papel determinante no percurso de muitos autores associados à Geração Beat, nomeadamente enquanto editor. Publicou, entrou muitos outros, livros de Ginsberg, Gregory Corso, Charles Bukowski, William Carlos Williams. Foi com o selo da City Lights que em 1956 o mais emblemático dos livros de poesia da Geração Beat viu a luz do dia. Por causa da publicação de Howl and Other Poems (1956), de Allen Ginsberg (n. 1926 – m. 1997), Ferlinghetti acabou por ser detido e acusado de propagandear obscenidades.
Estávamos em 1956 e tudo isto é hoje parte integrante da historiografia oficial. No entanto, Lawrence Ferlinghetti não foi apenas editor. Excelente poeta, publicou dezenas de livros. A Coney Island of the Mind (1958) é um dos mais populares. Infelizmente, apesar das ligações familiares a Portugal, a sua obra nunca mereceu grande atenção por cá. A Poesia como Arte Insurgente (Relógio D’Água, Dezembro de 2016) surge, deste modo, rodeado de expectativas. Originalmente publicado em 2007, coube a tradução portuguesa à também poeta e editora Inês Dias. A edição bilingue facilita o confronto, escusado dada a qualidade da tradução. Reúnem-se neste volume quatro textos que formam, no seu conjunto, uma ars poetica ferlinghettiana, escrita e acrescentada ao longo de diversas décadas. A Poesia como Arte Insurgente é um work-in-progress com várias décadas, a primeira versão de O Que é a Poesia? remonta à década de 1950, os dois manifestos populistas e o micro-ensaio A Poesia Moderna é Prosa surgiram na segunda metade da década de 1970.
Não é tão comum quanto seria de esperar que um poeta se dê ao trabalho de pensar a sua arte, manifestando publicamente o que julga poder servir de resposta às mais intrincadas questões que em todos os tempos se colocaram à poesia ou que no nosso tempo devem ser colocadas: «Consegues imaginar Shelley a participar numa oficina de poesia?» (p. 29). Ferlinghetti executa o exercício com um desassombro e uma clareza admiráveis, ora inventariando num furioso conjunto de aforismos reflexões sobre a utilidade e a natureza da poesia, assim como o papel do poeta na sua relação com o mundo, ora expondo num tom abertamente crítico uma leitura do seu tempo e dos obstáculos que este coloca à prática de uma forma de expressão que se quer absolutamente livre e insurgente. Inevitavelmente poético na concretização das suas reflexões, não deixa de ser igualmente objectivo: «Procura a Baleia Branca, mas não a arpões. Em vez disso, apanha-lhe o canto» (p. 31) ou «Escreve poemas breves com a voz dos pássaros» (p. 35). O acento não destoa quando o assunto é uma possível definição de poesia: «O que é a poesia? O vento agita as ervas, uiva nos desfiladeiros» (p. 49).
O que será então a poesia para Lawrence Ferlinghetti? A questão assim colocada delimita-nos o campo especulativo, obrigando a uma interpretação já mais concentrada na perspectiva do autor. Antes de mais, parece-me evidente em todos os textos coligidos neste volume uma forte convicção na poesia enquanto catarse, associada às emoções quer por via da libertação, quer enquanto ancoradouro de uma intimidade inalienável. Assim é porque «A poesia é o supremo refúgio íntimo» (p. 51) e «É o consolo dos solitários» (p. 57). Da mesma forma, vislumbramos nestes fragmentos uma crença no poder da poesia como motor da transformação do mundo, através da transformação das consciências, aliada à consciência de uma inutilidade que é assumida como a sua maior virtude. Não recusando a dimensão paradoxal de tais conjecturas, podemos compreendê-las na coerência de um discurso que tem sempre por fim uma ideia de poder e de vontade indestrinçáveis do conceito de liberdade, sendo, por isso mesmo, a resistência o lugar mais conveniente à poesia: «É a suprema Resistência». Numa leitura comparada com os fragmentos de Novalis tenderíamos a concluir, com assumida ironia, que de autêntico real absoluto a poesia evoluiu ao longo dos tempos para suprema resistência ao absolutismo do real.
Tanto os manifestos populistas como o ensaio que encerra o volume parecem aceitar tal evolução: «Escutem e estudem os mapas do tempo / Leiam o sânscrito das formigas sobre a areia» (p. 103). E isto traz-nos à curiosa tese desenvolvida por Ferlinghetti no texto A Poesia Moderna é Prosa. Datado de 1978, o texto conserva uma actualidade que não pode passar despercebida. A crítica aí exercida tem em vista uma prosa praticada sob a mancha gráfica de poesia, ou seja, uma poesia em que «o intelecto poético e o prosaico confundem-se, disfarçados com as roupas um do outro» (p. 109). Em linha com inúmeras discussões levadas a cabo ao longo das últimas décadas, a verdade aqui indisfarçável é a de uma aproximação de estilos que resulta no esgotamento das formas e na depauperização do poético. Subsumido no prosaico, o poético tende a perder a riqueza imagética e a força especulativa que outrora exibia. Podemos, quem sabe, concluir que face a um afastamento do filosófico, onde incluímos a intervenção cívica, a poesia tendeu a aproximar-se do prosaico, desembocando num niilismo estético esvaziado do poder transformador que indivíduos como os da Geração Beat julgavam ser o da poesia. Menos que resistência, ela será hoje o espelho de uma desistência. Daí a desolação que a matiza e martiriza. 

MARGARIDA VALE DE GATO


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

TILÁPIA


Não fosse o comboio amarelo, ler-se-ia como parte de um diário. Indiferente à quebra dos versos, a prosa nada tem que nos demova ou desiluda. É um retrato fiel dos dias, do coração atingido por inesperado ataque, dúvidas que trazem de novo a infância pelos carris da memória, aqueles que se perderam pelo caminho, os ausentes, mas também os tratamentos exigidos para que envelhecer seja possível. Doença e prescrição. Só não há remédio para a morte, sabemo-lo desde que tomámos consciência da brevidade de uma vida. Contudo, em sessenta anos de biografia cabem poemas de uma ruína pessoal anotada aos fogachos, declarados refúgios para um Lázaro à moda contemporânea, o das certidões, das filas nos hospitais, rodeado de lamentos, só, entubado até que o coração desespere de espera e diga não estar mais para isto. Só nesta vida nos é possível pensar outras:

As particularidades ortográficas, diacríticas, lexicais
e sintácticas dos meus poemas valerão o que valerem
as minhas obsessões. O mais são as emergências
do costume, por não ter tempo para fazer
o que me dispus a fazer ou gostava de ter feito,
comer tilápia com arroz de jasmim e sultanas gregas,
estacionar um Karmann Ghia em Back Bay, como fez
John Updike num dos últimos poemas, ou visitar
a catedral da Transfiguração, em Preobrazhensky,
nas margens do lago Onega, na República da Carélia,
com as suas vinte e duas cúpulas de madeira.
A haver outra vida, é isso que farei proximamente,
ficando-me por agora a obstar ao medo de voltar
ao hospital para que me reanime a máquina.


Amadeu Baptista, in Vida Breve, Editora Labirinto, Dezembro de 2014, p. 16. 

A CRISE DO JORNALISMO

Foi felizmente breve a minha incursão pelo jornalismo remunerado. Todavia, não foi por ignorância minha que (re)conheci pouquíssimos jornalistas – foi porque eram e continuam a ser poucos os que merecem esse título profissional. Lisboa era um nojo: campeavam os génios esquecidos, as luminárias do croquete, os amásios da fonte-inventada; grassava a cáfila dos romancistas embrionários tipo Nobel-para-a-semana, dos poetas desiquilibristas, dos guionistas de têvênovela. Coimbra? Jesus Senhor, Coimbra! Mais doutores por metro (como eles) quadrado do que honestas pulgas em cão solto. O Porto? Não sei, passei por lá a caminho de Braga mas retornei de barco até à Figueira da Foz. Aveiro & Viseu? Mas isso existe? Leiria? Não queirais que Vos fale de Leiria. Invoco razões higiénicas. Onde o jornalismo sério for embondeiro, Leiria é logradouro de erva rala. Daninha, naturalmente.
Não, não reconheço nem crise nem jornalismo. O que por aí se faz – é lama da digestão. Restos-zero à esquerda & à direita. Sabujices de obra-nada. Coisas de meter em saco plástico a caminho do contentor mais perto de si. Rácio de dez opinadores bêbedos por cada jornalista sóbrio. Terraplenadores da democracia, papagaios da cotação-em-bolsa que estão para os mercados como os freudianos para as mamas da própria mãe.


Daniel Abrunheiro, aqui.

SERGEANT RUTLEDGE (1960)


John Ford (n. 1894 – m. 1973) inaugurou a última década da sua longa carreira com Sergeant Rutledge/O Sargento Negro (1960), uma década onde caberão ainda um dos seus melhores filmes de sempre, The Man Who ShotLiberty Valance/O Homem Que Matou Liberty Valance (1962), o imprescindível Cheyenne Autumn/O Grande Combate (1964), e a participação no épico How the West Was Won/A Conquista do Oeste (n. 1962). Geralmente exibido como western anti-racista, Sergeant Rutledge conta com um elenco onde o protagonismo se divide entre o malogrado Jeffrey Hunter (faleceu com apenas 42 anos) e o mítico Woody Strode.
Hunter já tinha trabalhado com Ford em The Searchers/A Desaparecida (1956), embora ficasse conhecido do grande público pelos papéis oferecidos por Nicholas Ray (n. 1911 – m. 1979) em The True Story of Jesse James/A Justiça de Jesse James (1957) e, sobretudo, em King of Kings/Rei dos Reis (1961) na personagem de Jesus Cristo. Já Woody Strode havia feito carreira como atleta de futebol americano, impressionando pelo físico imponente e robusto. Ford não foi indiferente a tais atributos, desnudando-o da cintura para cima numa cena em que o vigor atlético cede aos efeitos de uma ferida.
Strode é o Sergeant Rutledge que oferece título ao filme, o qual começa e decorre, com recurso a várias analepses, a partir do julgamento desta controversa figura. Acusado de ter violado e matado uma rapariga branca, assim como de ter assassinado o pai da rapariga, um oficial superior, o sargento negro deserta, acabando por ser capturado depois de salvar uma outra mulher branca das investidas de um grupo de índios rebelados. Com uma folha de serviços impecável, os seus camaradas da nona cavalaria, caracterizada por incluir nos seus quadros soldados afro-americanos, recusam a hipótese de que Rutledge possa de facto ter cometido os crimes de que é acusado.
Jeffrey Hunter interpreta o papel do Lt. Tom Cantrell, chefe de regimento fidelíssimo à lei e ao livro que acabará por assumir a defesa de Rutledge durante o julgamento perante a corte marcial.
Estamos no Arizona, uma das paisagens predilectas de Ford, com Monument Valley a servir de cenário às digressões do exército. Por ali resistiram várias tribos indígenas às investidas de diversas forças invasoras, sendo os guerreiros Apache, liderados por Geronimo, um dos grupos mais temidos e respeitados por todos quantos se aventuravam no território.
Depois de ter filmado inúmeros westerns, muitos deles focados no papel da cavalaria enquanto força motora de uma ordem em território selvagem, Ford persegue agora uma espécie de condecoração dos marginalizados. Sempre movido por bons sentimentos, em Sergeant Rutledge o olhar volta-se para os afro-americanos a partir de um ideal de congregação representado pela cavalaria. Foi esta que libertou Rutledge ao fazer dele um homem como todos os outros à luz de uma sociedade segregacionista. Já em Cheyenne Autumn será o heroísmo dos índios a merecer a perspectiva piedosa do cineasta norte-americano.
Apesar da desconfiança que nos merecem tais encenações, importa não perder de vista a relevância da mensagem no seio de uma sociedade dividida desde a origem pelo choque entre etnias e culturas. Fossem os índios a parte fraca do conflito, ou os americanos nascidos em campos de escravos entretanto libertados, o que aqui está em causa é o contributo da arte cinematográfica para a cicatrização da História a par da fundação de uma mitologia nacional.

Ford foi, por assim dizer, um bom professor das massas, servindo-se de um género deveras popular para passar uma mensagem que é antes de mais uma possível leitura da história do seu país. Ao assistirmos aos seus filmes percebemos quão poderosas podem ser as emoções representadas na tela, na medida em que extravasam as fronteiras do entretenimento e não se detêm numa introspecção de índole exclusivamente intelectual. São filmes críticos no mais kantiano dos sentidos, oferecendo ao público uma síntese que inclui no seu paroxismo a gravidade historiográfica e a possibilidade de um futuro. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

ELEVADOR

Tenho prestado alguma atenção às pessoas que fazem exercício físico em espaços públicos. Aparentam uma felicidade que me parece autêntica. Há dias, diverti-me a mirar um avô que se balançava num dos aparelhos espalhados ao longo da marginal, em São Martinho do Porto, enquanto a neta sorria ao vê-lo todo divertido. Temi pelo senhor, tal foi a velocidade que imprimiu ao exercício. Parecia querer impressionar a neta, ao mesmo tempo que impunha a si próprio um saudável desafio físico. De frente para o espaço infantil no Parque, foi criada uma área a que deram o nome de Ilha Fitness. Gosto de observar as mães a exercitarem os glúteos enquanto a criançada se diverte nos escorregas, nos balancés, a trepar casinhas de madeira, praticando slide. Quem repare no meu espanto julgará que sou uma espécie de mirone pervertido, mas posso jurar que a única perversão que me move é admirar a dedicação das pessoas ao exercício físico. Nunca me deu para tal. Em tempos, a minha mulher adquiriu uma passadeira cá para casa depois de uma discussão completamente escusada. Eu não queria a passadeira, ela fazia questão que eu a apoiasse na decisão que já tinha tomado acerca desse importante investimento. Foi colocada no sótão e por lá ficou até acabar por ser vendida a uns amigos. Raramente lhe demos uso. Compra-se muita coisa cá para casa que acaba por não ser utilizada, ou nos entusiasma pelo período médio de um brinquedo oferecido a uma criança no Natal. Presumo que os aparelhos de exercício físico espalhados pela cidade tenham outro interesse, espero que tenham outra durabilidade. Aparelhos urbanos de fitness podem salvar o dia a muitos homens de fato e gravata e a muitas mulheres de tailleur e salto agulha. A mim, pelo menos, salvam alguns instantes do dia enquanto observo outros a lhes darem um uso que eu jamais darei. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

DEMO XXI

Mais coisa, menos coisa, isto vai indo mais ou menos assim: o povo elege os políticos, os políticos servem a finança, a finança combina-se com os empresários, estes investem no jornalismo que, por sua vez, garante boa ou má imprensa aos políticos. Todos trabalham e todos são pagos pelas suas funções, as quais merecem mais estima, respeito e consideração em conformidade com o grau de influência de cada um na preservação desta dinâmica. Como eleger é o menos importante, o que se compreende até pelos níveis de abstenção generalizados, aquele que elege é o mais mal pago.  

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CLONAZEPAM BLUES


Se fôssemos buscar todos os restos de tecido
De todos os índios que viveram nos Apalaches
Depois de toda a neve
Se da agonia das carroças dos arcanjos
Ou seja
Se da expiação da cidade santa resultar só
Uma boca do metro
Sabes, um sem abrigo no metro
Um cessar das luzes
Ou rebentos de flores nas mãos
Do homem cego a pedir esmola
Na escadaria
Se exigíssemos ao valete de espadas
Ou às donas de casa
Largar o diazepam e comutar
Como se alguém tivesse prometido
Que nunca passaríamos fome
E teríamos livrarias fartas
Com Mark Twain e John Steinbeck
E mesmo Jim Morrison
E teríamos sacas gordas de leguminosas secas
Onde enfiar as nossas mãos
E absorver suavemente
Os cheiros da rua do mercado

Sabes que
Se os cães não ladrarem no amanhecer gelado
Sentir-me-ei aflito
Febril se os cães não ladrarem aos primeiros
Raios rubros da aurora
Sentir-me-ei aflito
Lastimoso entre as árvores
Febril
Sentir-me-ei aflito
Se não houver galos e forem carros
Potenciais camiões do lixo
Se forem só semáforos e gritos
E leituras de poesia sob as luzes
Da cidade
Febril
Sentir-me-ei aflito

Enquanto a serenidade dos índios que viveram nos Apalaches
Não chegue
Enquanto a neve não ouse derreter
E reste só o murmúrio do riacho
Por entre o verde
A correr
O murmúrio do riacho
A correr
Sentir-me-ei aflito


Mariano Alejandro Ribeiro (n. 1993), in Antes da Iluminação. Nascido em Buenos Aires, reside em Portugal desde os dez anos de idade. O livro de estreia permite-nos constatar que assimilou com desembaraço a herança Beatnik, não descurando o que nela havia de desprendimento lírico e abnegação orientalista. Típica do seu tempo, a poesia de Mariano Alejandro Ribeiro integra no corpo do texto um caleidoscópio de referências várias, com especial predilecção pelos ícones de uma cultura erigida nas margens do cânone. A ironia oferece-lhe ao ritmo desenfreado um tom ligeiro que aproxima amiúde o discurso daquilo a que se convencionou chamar de poesia pop, conquanto entendamos por pop uma inclinação para seduzir o leitor com uma linguagem onde o humor e a emoção não foram esvaziados de conteúdo. Ora em verso, ora em prosa, os poemas de Antes da Iluminação indicam um caminho a que valerá a pena estar atento.