quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DA POESIA E DOS LUGARES


   Poderá um poeta escrever a partir de um não-lugar? Estará ele a delimitar o palco das suas palavras declarando-lhes um lugar de origem? Que tipos de relação poderemos vislumbrar entre as palavras de um poeta e os lugares por ele evocados? 
   Há muito que na poesia de Amadeu Baptista (n. 1953) estas questões se colocam. Percebemo-lo facilmente olhando apenas alguns dos seus títulos: A Construção de Nínive (2001), Os Selos da Lituânia (2008), Fragmentos Tunisinos (2014), Fragmentos de Veneza (Abril de 2016), O Arco Sírio (Novembro de 2016). Desde sempre fascinado pelos temas bíblicos, nesta poesia os lugares são também marcas culturais, sinais históricos, não apenas palco de circunstâncias íntimas, pessoais. Nos dois últimos livros, por exemplo, surgem contextualizados de modo diverso. 
   A Veneza de Amadeu Baptista é a de um turista em estado de graça, lembrando os pares que sobre ela escreveram ou nela actuaram. É um entre os seus. Os poemas têm um destinatário amoroso, são fragmentários como aforismos, cedendo tanto ao romantismo inevitável da paisagem, como fintando esse romantismo previamente idealizado com o lirismo cativo de um olhar inevitavelmente melancólico:

Veneza é o lugar em que tudo pode acontecer, por desabridos
que possamos  ser nesta viagem quase imaginária
em que procuramos a paz e só a desavença nos persegue.
A um poeta pouco cabe além de enaltecer a luz
para poder guardar-te em recônditos abismos, a bruma
que se estende pelos canais, os festões que enganalam as janelas,
a memória da noite em que nos perdemos entre Torcello
e San Michele, a ilha dos ciprestes de onde Ezra Pound nos acena
e Stravinsky compõe a última sagração da primavera, com os ossos
para sempre abandonados ao infinito alvoroço da eternidade.
Longe de casa, numa cidade corroída pela água,
o que fazemos, com as lágrimas nos olhos?


Amadeu Baptista, in Fragmentos de Veneza, Lua de Marfim, Abril de 2016, p. 19.


   Muito diferente, O Arco Sírio encena a desastrosa realidade de um êxodo contemporâneo. O imaginário bíblico impõe-se em termos comparativos, reduzindo a épica dos heróis a uma elegia dos exilados. A voz do poeta intromete-se como se fosse um deles, poeta entre refugiados fugindo da miséria a caminho da incerteza. Engendra-se assim um jogo paradoxal, pois o realismo das imagens por demais conhecidas, o realismo bárbaro, deveras presente, dos povos em fuga, acossados pela guerra, pela morte, pela fome, contorna-se com a ficção de uma primeira pessoa, o eu do poeta, que deixa para trás casas devastadas, cadáveres amontoados, assassinos sem rosto. 
   O arco de Palmira, histórica cidade devastada, é agora sinónimo de ruínas sobre ruínas. Deslocados da conservação das ruínas para os destroços consumados sem reparação possível, ficamos assim colocados num ponto da História sem horizontes à vista. Este é o lugar dúbio onde o tempo toma conta do espaço, lançando sobre tudo uma nuvem de pó que atordoa pensamento e emoções. Lugar de naufrágios e deriva, mapa sem coordenadas, dedáleo "atlas de circunstâncias". Transformado em pó, o passado deixa de ter futuro. Tem apenas angústia, “abrigo incerto, luto inevitável”:

33.

Diz o poeta que a guerra não é uma metáfora,
uma hipérbole, um caudal de relâmpagos.
Os que vão no caminho sabem bem
o que a guerra tem de terror e crueldade,
o que é coabitar com o sobressalto
na carne e no espírito, quando as deflagrações
matam gente desarmada, mulheres, velhos,
crianças. Os que buscam a fuga de Palmira
ou Bagdad, ou de onde a guerra
prolifera como um visco mortífero,
dos sonhos só conhecem o sarro iníquo.



Amadeu Baptista, in O Arco Sírio, Lua de Marfim, Novembro de 2016, p. 37.

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