Poderá um poeta escrever a partir de um não-lugar? Estará
ele a delimitar o palco das suas palavras declarando-lhes um lugar de origem?
Que tipos de relação poderemos vislumbrar entre as palavras de um poeta e os
lugares por ele evocados?
Há muito que na poesia de Amadeu Baptista (n. 1953)
estas questões se colocam. Percebemo-lo facilmente olhando apenas alguns dos
seus títulos: A Construção de Nínive (2001), Os Selos da Lituânia (2008), Fragmentos
Tunisinos (2014), Fragmentos de Veneza (Abril de 2016), O Arco Sírio (Novembro
de 2016). Desde sempre fascinado pelos temas bíblicos, nesta poesia os lugares
são também marcas culturais, sinais históricos, não apenas palco de
circunstâncias íntimas, pessoais. Nos dois últimos livros, por exemplo, surgem
contextualizados de modo diverso.
A Veneza de Amadeu Baptista é a de um turista
em estado de graça, lembrando os
pares que sobre ela escreveram ou nela actuaram. É um entre os seus. Os poemas têm um destinatário
amoroso, são fragmentários como aforismos, cedendo tanto ao romantismo
inevitável da paisagem, como fintando esse romantismo previamente idealizado
com o lirismo cativo de um olhar inevitavelmente melancólico:
Veneza é o lugar em que tudo pode acontecer, por
desabridos
que possamos ser
nesta viagem quase imaginária
em que procuramos a paz e só a desavença nos persegue.
A um poeta pouco cabe além de enaltecer a luz
para poder guardar-te em recônditos abismos, a bruma
que se estende pelos canais, os festões que enganalam as
janelas,
a memória da noite em que nos perdemos entre Torcello
e San Michele, a ilha dos ciprestes de onde Ezra Pound
nos acena
e Stravinsky compõe a última sagração da primavera, com
os ossos
para sempre abandonados ao infinito alvoroço da
eternidade.
Longe de casa, numa cidade corroída pela água,
o que fazemos, com as lágrimas nos olhos?
Amadeu Baptista, in Fragmentos de Veneza, Lua de Marfim, Abril
de 2016, p. 19.
Muito diferente, O Arco Sírio encena a desastrosa
realidade de um êxodo contemporâneo. O imaginário bíblico impõe-se em termos comparativos,
reduzindo a épica dos heróis a uma elegia dos exilados. A voz do poeta
intromete-se como se fosse um deles, poeta entre refugiados fugindo da
miséria a caminho da incerteza. Engendra-se assim um jogo paradoxal, pois o
realismo das imagens por demais conhecidas, o realismo bárbaro, deveras
presente, dos povos em fuga, acossados pela guerra, pela morte, pela fome,
contorna-se com a ficção de uma primeira pessoa, o eu do poeta, que deixa para
trás casas devastadas, cadáveres amontoados, assassinos sem rosto.
O arco de
Palmira, histórica cidade devastada, é agora sinónimo de ruínas sobre ruínas.
Deslocados da conservação das ruínas para os destroços consumados sem reparação possível, ficamos assim
colocados num ponto da História sem horizontes à vista. Este é o lugar dúbio onde o tempo toma conta do espaço, lançando sobre tudo uma nuvem de pó que atordoa pensamento e emoções. Lugar de naufrágios e deriva, mapa sem coordenadas, dedáleo "atlas de circunstâncias". Transformado em pó, o
passado deixa de ter futuro. Tem apenas angústia, “abrigo incerto, luto inevitável”:
33.
Diz o poeta que a guerra não é uma metáfora,
uma hipérbole, um caudal de relâmpagos.
Os que vão no caminho sabem bem
o que a guerra tem de terror e crueldade,
o que é coabitar com o sobressalto
na carne e no espírito, quando as deflagrações
matam gente desarmada, mulheres, velhos,
crianças. Os que buscam a fuga de Palmira
ou Bagdad, ou de onde a guerra
prolifera como um visco mortífero,
dos sonhos só conhecem o sarro iníquo.
Amadeu Baptista, in O Arco Sírio, Lua de Marfim, Novembro
de 2016, p. 37.

Sem comentários:
Enviar um comentário