quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

MOTIM



Nos nossos dias, a violência passou a ser um elemento na paisagem. Noutros tempos, um tipo podia passar o ano inteiro a cuidar das galinhas sem sequer se dar conta das guerras em curso no mundo. Não havia indiferença nem apatia, havia um desconhecimento que também não era saudável porque nos desprevenia. O que a banalização da violência gera é de outra ordem. Tal como sucede a qualquer elemento na paisagem, é elevado o risco de passar despercebido. De tão habituados à sua presença, damos por ele quando nos falta. Muitas vezes nem chegamos a dar por ele. Acontece hoje o mesmo com a violência. Tende a tornar-se indiferente por ser indiferenciável. Não há dia que escape a cenas violentas, quase sempre exibidas num terror envolto em cinematográfica mediatização. O facto de, por cá, ainda nos chegarem por meio de, ou seja, haver uma certa distância entre o espaço concreto das nossas vidas e o espaço concreto dos acontecimentos, protege-nos fisicamente de danos maiores. Olhamos para a violência como quem vai ao cinema, como quem abranda a marcha. Mas psicologicamente os danos são inevitáveis. E, como sabemos, entre psyche & physis as pontes são inúmeras e de facílimo acesso. Países relativamente pacíficos como o nosso tendem a lidar com a violência de um modo infantil. Ficamos incrédulos quando nos deparamos com uma cena violenta. Perguntamo-nos: como é possível? Ou, na versão mais patética: como foi possível? Varremos para debaixo do tapete, omitimos, escondemos. Aguardamos o levantamento da imunidade, ficamos atrás do pretexto legal à espera que o assunto prescreva. A violência doméstica é um cancro indiscutível, mas podíamos citar igualmente a violência nas estradas, no trabalho, nas escolas, nesse mundo tão inexplorado da noite portuguesa, violência entre hierarquias, etc. Alguém que seja agredido à nossa frente, seja lá por que razão for, se é que existem razões para agredir, merece-nos quase sempre uma de duas reacções: pena, compaixão. Mas tanto uma como outra podem ser de igual modo formas de agressão, nomeadamente quando não defendem a vítima da violência que a atinge. Só às crianças deveríamos tolerar a pena e a compaixão. Aos adultos exige-se algo mais. Exige-se o risco da acção, da intervenção, exige-se a coragem de colocar-se entre a vítima e o agressor e dizer basta. Só isso o inclinará para o lado da vítima. Caso contrário, manter-se-á à distância que beneficia o infractor. Para como uma criança, consumados os actos, poder manifestar a falsa bondade dos lamentos inúteis. De preferência numa rede social que o ensaboe com likes e emojis. 

5 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

E, no entanto, nunca antes fomos tão sensíveis...

hmbf disse...

Só se for às gripes.

Cuca, a Pirata disse...

A condenação moral da violência é incomparavelmente superior. Há 35 anos um professor podia bater numa criança de uma forma que hoje o próprio dono de um animal de companhia não o pode fazer. Interiorizou-se o conceito de violência psicológica, etc etc...
Não estou a dizer que está bem, apenas que há uma clara evolução positiva.

Marina Tadeu disse...

As pessoas batem por impotência. Talvez a violência mais extrema seja a nossa incapacidade de a matar.

hmbf disse...

Cuca, és uma optimista: http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2016-11-26-Aumento-dos-registos-criminais-nas-escolas-relacionado-com-violencia-no-namoro . Palmas ao Palito condenam moralmente violência policial sobre criminoso em fuga. ;-)