terça-feira, 17 de janeiro de 2017

NOVIDADE

Não se fala de outra coisa. Auscultam-se especialistas, fazem-se reportagens, tudo em nome de uma extraordinária novidade: faz frio em Janeiro. Nunca me tinha ocorrido. Supunha que o frio era de outros meses, de outras épocas, e jamais português. Mas descobrimos o frio. Vêem-se pessoas agasalhadas na rua como se estivessem na Sibéria. Ora, juro eu por tudo quanto haja de sagrado que vi hoje com estes que a terra há-de comer uma rapariga a caminhar descalça no Parque. Vestia um casacão velho, tinha o rosto borrado de um modo estranho e uns fios espalhados pelo cabelo que não consegui entender. Concentrei-me nos seus pés descalços, nem umas meias, caminhando firmes sobre a terra húmida do Parque. Admirei-os e invejei-os, ainda que os tenha estranhado com discrição. Evitei a todo o custo mostrar-me inconveniente, pois deve ter sido óbvio por instantes o meu absoluto enamoramento. Não me ocorreu sequer que pudessem sofrer com a exposição ao frio e às contingências do terreno, não me ocorreu que poderiam cortar-se, gretar-se, ferir-se. Eram dois pés descalços invejáveis, impecáveis, espantosos, sobre os quais nenhum especialista foi auscultado nem alguma reportagem se produziu. 

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