quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"talvez se souberes o que dizem as árvores"

A partir de um poema de Jorge Muchagato (aqui).


Se souberes o que dizem as árvores, talvez aprendas a dar sombra para que encostado ao teu corpo adormeça o animal cansado, e nos teus braços pousem aves cujo canto replicarás com frutos, tu já metamorfoseado no vital conhecimento da resina, da cortiça, das folhas caídas como células onde poderemos encontrar, assim tenhamos ciência para tal, a raiz que nos expulsou do paraíso.
Talvez, se souberes o que dizem, possas connosco partilhar o desespero de Judas, a cruz que seu mais belo amante carregou apaixonadamente, enfim a mentira que ressume teorias novas sobre comunicação vegetal e sociedades secretas subterrâneas, as árvores congeminando entre raízes uma revolução sobre a terra, os homens quem sabe por alvo, o pior inimigo a quem se reserva por misericórdia a hipótese do enforcamento.
As árvores, animais de sangue viscoso, pele densa a tumescer abismos entre machado e homem.
Nelas o felino busca couto para perscrutar a presa, o roedor abriga-se do insidioso inimigo rastejante, nós penduramos a roupa e a criança imagina casas de madeira onde arrumar o gozo de uma aventura, nas árvores os olhos repousam das tragédias quotidianas e a respiração alenta-se como um deus em hora de parto.
Talvez se souberes o que dizem as árvores saibas também dizer vento, afagando a brisa com o pólen da flor que surde majestosa na ponta de cada um dos dedos inúmeros que uma árvore oculta. Tronco onde um dia cinzelámos o verso da única medalha que alguma vez nos foi atribuída, não por mérito nem por singela participação, mas por esforço em nos mantermos de pé e verticais como a árvore ensina.


5 comentários:

Jorge Muchagato disse...

Ah... Vejo agora. Henrique, muito obrigado pela comoção das duas razões: pela referência, naturalmente, mas sobretudo pelo que suponho ser um dos mais belos destinos de um poema, talvez até um dos mais conformes à natureza da poesia: ter suscitado um novo poema. Muito obrigado! Um abraço!

hmbf disse...

Olá Jorge. Eu é que te agradeço por partilhares as tuas palavras.

maria disse...

não sei nada sobre poemas e muito pouco de árvores, mas aqui vai uma provocação. sabes porque se erguem verticais (por vezes muito tortas) as árvores? (claro que sabes)vão em busca da luz. :)

Marina Tadeu disse...

A Sharon Olds (espero que esteja por aí traduzida, desconheço), escreveu isto:

''... to a poet, the human community is like the community of birds to a bird, singing to each other. Love is one of the reasons we are singing to one another, love of language itself, love of sound, love of singing itself, and love of the other birds.’'

hmbf disse...

Sim, há um livro dela no catálogo da Antígona. Deixei em em tempos um poema aqui: http://antologiadoesquecimento.blogspot.pt/2005/07/primitivos.html .