De vez em quando surge uma reportagem sobre as condições
desumanas do trabalho escravo que ainda hoje alimenta muita da indústria
ocidental. Seja em África ou na Ásia, na América Latina ou noutro lugar
qualquer, lá estão as criancinhas enterradas em lama ou fechadas em fábricas,
prostituindo-se nas ruas ou atravessando caminhos de cabras com sacos de muitos
Kg às costas. Estas reportagens aparecem e as pessoas mostram-se chocadas. Que
asco! Não sabem que trazem estas crianças nos pés? Não sabem que as trazem no
bolso? Não sabem que indústria se alimenta do trabalho dessas crianças? Claro
que sabem, mas não querem saber. Preferem não querer saber porque custa agir em
conformidade com a consciência. É muito mais confortável fazer-se despercebido.
Repare-se como estas mesmas pessoas de bom coração são tão complacentes para
com uma rede que lhes bloqueia a página se exibirem um nu, nada sucedendo se na
mesma página exibirem execuções de um qualquer grupo terrorista. Este é o mundo
em que vivemos: aos desamparados já nem vale a boa consciência dos protegidos, pois
a consciência destes foi assaltada por uma hipocrisia consentida e propagada.
Uma hipocrisia que é lei neste mundo de sensacionalismos bacocos e
manifestações inconsequentes de indignação geral. Quem quer saber dos escravos no Congo quando tem um filho em casa a reclamar por smartphones?
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
UM POEMA DA LOUCURA: Alda
21
Ali, onde morriam os malditos
no inferno decadente e louco
no manicómio infinito,
onde os membros entorpecidos
se envolviam no linho
como num sudário semita,
ali onde as sombras do trespasse
te acariciavam os pés descalços
saídos de baixo dos lençóis,
e as ligaduras tórridas
te sulcavam os pulsos e também as mãos,
e cheiravas a fezes,
ali, no manicómio
era fácil trasladar
tocar o paraíso.
Era com a mente em chamas que o fazias,
com as mãos encharcadas de suor,
com o pénis erecto no ar
como uma obscenidade para Deus,
ali, no manicómio
onde os gritos eram abafados
por almofadas sanguinárias
ali tu vias Deus
não sei, entre as ideias translúcidas
da tua grande loucura.
Deus aparecia-te
e o teu corpo esboroava-se,
migalhas louras e cheirosas
que desciam para devastar
enxames de imprevistas andorinhas.
Alda Merini, in A Terra Santa, trad. Clara Rowland, Edições Cotovia, Fevereiro de 2004, pp. 65-67.
UM POEMA DA LOUCURA: Artaud
POST-SCRIPTUM
Quem sou?
De onde venho?
Eu sou o Antonin Artaud
e basta dizê-lo
como sei dizê-lo,
imediatamente
vereis o meu corpo actual
voar em estilhaços
e em dois mil aspectos notórios
refazer
um novo corpo
onde nunca mais
podereis
esquecer-me.
Antonin Artaud, in Eu, Antonin Artaud, trad. Aníbal Fernandes, Hiena Editora, Outubro de 1988, p. 111.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
UM POEMA DA LOUCURA: Nietzsche
SÓ LOUCO! SÓ POETA!
Em ar diáfano,
quando já o consolo do orvalho
ressuma sobre a terra,
invisível e também sem se ouvir
- pois o consolador orvalho traz,
como todos os suavizadores, calçado leve -
lembras-te então, lembras-te, ardente coração,
da tua sede de outrora,
sede de lágrimas celestes e de orvalhos,
tu crestado e cansado,
enquanto sobre atalhos de erva seca
maldosos olhares do sol da tarde
em torno de ti corriam por entre árvores negras,
olhares de sol em brasa, cegantes e cínicos.
«Pretendente da Verdade - tu?» assim eles te escarneciam -
«Não! só um Poeta!
um bicho, manhoso, de rapina, rastejante,
que tem de mentir,
que ciente e voluntariamente tem de mentir,
ávido de presa,
de disfarces multicores,
de si mesmo disfarce,
de si mesmo presa,
isso - Pretendente da Verdade?...
Só Louco! só Poeta!
Dizendo só coisas multicores,
falando multicor por máscaras de louco,
trepando sobre pontes mentirosas de palavras,
sobre arcos-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando, rastejando -
só Louco! só Poeta!...
Isso - Pretendente da Verdade?...
Não calmo, hirto, liso, frio,
feito imagem,
pilar de Deus,
não erguido em frente aos templos,
guarda-portão de um Deus:
não! hostil a tais estátuas da virtude,
em qualquer ermo mais em casa do que em templos,
cheio de maldade de felino
a saltar por qualquer janela
zás! pra qualquer acaso,
fariscando cada floresta virgem,
que tu em florestas virgens
entre feras de jubas variegadas
pecaminosamente são e belo e variegado corresses,
de beiçarra lúbrica,
feliz-escarninho, feliz-infernal, feliz-sanguinolento,
corresses rapinando, rastejando, mentindo...
Ou igual à águia que longa,
longamente olha hirta pra os abismos,
pra os seus abismos...
- Oh! como eles se encaracolam
lá pra baixo, pra dentro,
em profundas cada vez mais fundas! -
Então,
de repente,
em voo directo,
mergulho de um golpe,
cair a fundo sobre cordeiros
veloz, voraz,
ávida de cordeiros,
hostil a todas as almas de cordeiros,
com raiva feroz a tudo quanto olha
com olhos virtuosos, de carneiro, de lã crespa,
a toda a estupidez da benquerença-de-leite-de-cordeiro.
Assim
aquilinas, de pantera,
são as nostalgias do poeta,
são as tuas nostalgias sob milhentas máscaras,
ó Louco! ó Poeta!
Tu, que olhaste o homem
tanto deus como carneiro -,
rasgar o deus no homem
como o carneiro no homem
e rir ao rasgar -
isso, isso é que é a tua ventura,
ventura de pantera e de águia,
ventura dum Poeta e dum Louco!»...
Em ar diáfano,
quando já a foice da lua
verde entre rubores purpúreos
e invejosa rasteja,
- hostil ao dia,
a cada passo secretamente
ceifando ao longo de leitos pendentes
de rosas, até elas caírem,
até caírem pálidas noite abaixo:
assim caí eu mesmo um dia
da minha Loucura-da-Verdade,
das minhas Nostalgias-do-Dia,
cansado do dia, doente da luz,
- caí, pra baixo, para a noite, para a sombra,
queimado e sedento
de Uma Verdade
- lembras-te ainda, lembras-te, ardente coração,
da sede que então tinhas? -
Oh! fosse eu banido
de toda a Verdade!
Só Louco! Só Poeta!...
Friedrich Nietzsche, in Poemas, trad. de Paulo
Quintela, Galaica, Porto, 1960, pp. 7-13.
UM POEMA DA LOUCURA: Hölderlin
Amizade, amor, igreja e santos, cruzes, imagens,
Altar e púlpito e música. Soa-lhe ao ouvido o sermão.
Depois de comer, o ensino dos filhos parece conversa
Ociosa e sonolenta pra homem, menino e raparigas, mulheres pias;
Depois vai ele, o senhor, o cidadão e artista,
Alegre campos fora e pelas veigas pátrias;
Os jovens seguem também, contemplativos.
Hölderlin, in Poemas, trad. de Paulo Quintela,
Relógio D'Água, 1991, p. 553.
domingo, 26 de fevereiro de 2017
DIA DA ASSUNÇÃO
Estou a alucinar, só posso estar a alucinar. Para quem
não acredita em milagres nem em virgens engravidadas por espíritos santos,
impõe-se uma explicação científica para o que julgo ter acabado de ouvir: o
país deve muito a Paulo Núncio. O dia de hoje passará a ser celebrado no meu
calendário litúrgico pessoal como o dia da assunção. Tive, sem dúvida, um êxtase
místico. Agradeço-o a Cristas. Ora então devemos muito a Paulo Núncio, o tal
que se escuda em erros informáticos quando os assuntos são listas VIP e transferências
para offshores. Dos erros de percepção mútua à grande elevação de carácter
desta gente, a única certeza que podemos ter é que o país nada deve aos
cérebros que por cá ficaram a governar-nos em tempos de debandada. Debandada de
cérebros e de fortunas. Quem precisa do Carnaval quando o quotidiano é esta
grotesca realidade?
sábado, 25 de fevereiro de 2017
EUROPA 39
Os textos de Bertolt Brecht recentemente recuperados pelo
encenador Luís Varela para o Teatro da Rainha foram escritos em cima dos
acontecimentos que procuram representar, tornando-se com o tempo exemplos
paradigmáticos da arte enquanto testemunho. Não são, porém, textos datados.
Tanto Dansen como Quanto Custa o Ferro?, parábolas engendradas por volta de
1939, as mais conhecidas dos textos acoplados em Europa 39, reflectem situações
concretas que facilmente identificamos com o clima político vivido às portas da
II Grande Guerra, mas transpõem as fronteiras da História ao exercerem sobre o
público a sua função primordial de despertar consciências.
Numa época avessa ao
espírito crítico, é especialmente gratificante constatar esta obstinada conduta
de quem procura conciliar, com inteligência, entretenimento e agitação do
pensamento. É óbvio que no teatro de Brecht havia tanto de preocupações
ideológicas como pedagógicas, ambas respeitadas no espectáculo agora em cena
desde logo na montagem dos textos, a qual logra estabelecer uma ligação de
coerência entre as diferentes circunstâncias narrativas, anulando desse modo eventuais
descontinuidades entre as peças encenadas. Mas a par de tais preocupações
vislumbramos também uma dimensão paródica que reforça o desejo de provocar emoções no
espectador.
Tomemos de exemplo Dansen, diálogo entre um vendedor de porcos e
uma estranha e sinistra personagem. Respeitam-se no cenário as fachadas das
casas, simbólicas representações de países prestes a serem assaltados pelo
estranho em palco. Com uma caracterização algures firmada entre os comics e o
Darth Vader de Star Wars, as personagens mantêm entre si o diálogo original. As
alusões às posições ambíguas de neutralidade assumidas por alguns dos vizinhos da
Alemanha no início da II Grande Guerra manifestam-se num Dansen com aspecto de
palhaço, vacilante, medroso, ingénuo. O estranho é uma figura intimidante e
ríspida, desdenha dos contratos estabelecidos entre o vendedor de porcos e os
seus vizinhos, mas coage-o a firmar consigo um pacto de amizade que não
hesitará em romper quando precisar de invadir o depósito de ferro de Svensson guardado
por Dansen. Seria desaconselhado julgarmos as decisões deste vendedor de
porcos, traído tanto pelo egoísmo como pela cobardia.
Com os nomes ligeiramente
alterados para que seja mais fácil ao espectador actual identificar os países
em cena, o humilde negociante de ferro que aparecerá em Quanto custa o ferro? é
a personificação da Suécia que no decorrer das hostilidades nazis negociou com
a Alemanha grandes quantidades de minério de ferro. Ora, a guerra como
oportunidade de negócio não foi fenómeno exclusivo de uma só guerra. Note-se,
na actualidade, como a guerra há tempos engendrada contra o terror tem
fomentado as indústrias do armamento e da segurança, para não falarmos das obscuras
e promíscuas redes de financiamento do arqui-inimigo declarado.
No seu
todo, este Europa 39 desperta no espectador a consciência da actualidade a
partir de exemplos históricos. Nem a ingenuidade oportunista e cobarde de Dansen
ficou no passado, nem a neutralidade sueca foi um exemplo isolado que iliba de
responsabilidades todos quantos não souberam a seu tempo prevenirem-se e unirem-se
contra o mal à vista. Entretidas com discussões de café, celebrações
futebolísticas e selfies a rodos para partilha nas redes sociais, as massas
representadas no termo de Europa 39 levam-nos a concluir ser apenas simbólica a
data evocada no título.
Os quatro actores que em palco se desdobram em
múltiplas personagens são, deste modo, um exemplo de resistência. Reside neles um factor de estranheza
nestes tempos que correm, pois com o seu trabalho procuram levar a cabo a mais nobre das intenções dramáticas de Bertolt Brecht: despertar a consciência crítica dos
espectadores. Admirável é a obstinação com que o fazem, pois nada no nosso
tempo joga a favor deles, tudo parece estar muito mais a favor do ameaçador estranho
que desdenha dos contratos, chame-se ele Wilders, Le Pen, Orbán, Farage ou Trump.
Com o desinteresse e a neutralidade que, lá está, não isentará ninguém de
responsabilidades quando o mal lhes bater à porta. Citando o lavrador de uma
outra peça de Brecht: «Em sanguinárias guerras de odiosa memória / Aqui está o
melhor: uma planta que vive!» Fiquemos atentos.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
CHENAVARD
Um pormenor da tragédia divina, a morte de um deus.
Paul-Marc-Joseph Chenavard não inspira cuidados, foi confinado às curiosidades
do museu. Ninguém o cita, ninguém o refere, ninguém lhe dedica poemas, ninguém
se lembra sequer de o colocar entre os que previram o fim. As crianças desfilam
com seus trajes carinhosamente preparados. Lembro-me de quando era criança, da
dedicação investida por minha mãe num traje que nunca consegui exibir. Tive desde
muito cedo aversão a máscaras, não consigo ver o mundo senão por um olhar despido
de lentes. Também eu projecto fins, já num tempo antevisto por Chenavard.
Pequenos deuses desfilam agora seus trajes, seguem em fila pelas ruas da
cidade, aplaudidos, fotografados, motivando sorrisos, comentários com tanto de
ternura como de graça. Neles subsiste a força desmaiada das divindades, deuses
de palmo e meio a cortarem o trânsito, impedindo a passagem de quem como eu
carrega ainda o peso das coisas sagradas numa mente delirante. Deuses e foliões,
uma mesma raiz para distintos credos. Chenavard viveu no século XIX, nele ainda
pesaram os deuses. Assistiu ao assassínio do sagrado e registou-o, levando
Baudelaire a considerá-lo um digno representante da decadência. Largada a
auréola na lama, restava-nos então o homem. Este homem que hoje desfila disfarçado
de humano. No caudal absurdo da actualidade, tendo a prezar o Carnaval
como um momento raro de verdade. Parece um paradoxo, mas é mascaradas que as pessoas surgem mais autênticas. Eu, que sempre detestei mascarados e desprezo histriões.
UMA CANÇÃO DE IBSEN
A canção dos pássaros
op. 25, n.º 6
Delícia o dia primaveril lá e cá na alameda, a passear,
atraía-nos aquele lugar proibido tal um mistério a decifrar.
E sob o azul do céu tão azul a brisa de oeste soprava,
na tília para os seus pardalinhos uma mãe pardala cantava.
Em imagens de poeta e lendas coloridas tudo eu pintava;
dois olhos castanhos brilhavam, riam, e ela atenta escutava.
Lá em cima gorjeios e risos ouvíamos, alegres a chilrear;
mas nós demo-nos doce adeus para nunca mais nos encontrar.
E quando lá e cá na alameda passeio agora sozinho
não me dá paz nem repouso tão pequeno e penugento povinho.
Dona Pardala ouviu tudo ao partirmos, inocentes já separados,
e na canção que então fez ficámos nós bem musicados.
Escreveu-a na língua dos pássaros; e sob as frescas copas que havia
não há bico que não cante a história desse luminoso dia.
Henrik Ibsen (n. 20 de Março de 1828, Skien, Noruega - m. 23 de Maio de 1906, Oslo, Noruega), in DiVersos - Poesia e Tradução, n.º 25, Dezembro de 2016, trad. José Carlos Marques, Edições Sempre-em-Pé, p. 83.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
DIVERSOS #25
DiVersos - Poesia e Tradução
Edição e coordenação: José Carlos Marques
Edições Sempre-em-Pé
N.º 25, Dezembro de 2016
Versões para poemas de Alejandra Pizarnik: Poema para o pai, O despertar, A noite, pp. 9-17.
40 ANOS-LUZ
O post abaixo é deste mundo, procura entender a relação
entre 1,4 milhões de crianças subnutridas, à beira de morrerem com fome, e 1,4
milhões ou mais de páginas vindas a lume com todo o tipo de dietas, algumas
inimagináveis, praticadas num mundo que teimamos em dizer civilizado. Também me
fascinam as possibilidades de vida extraterrestre, comovo-me com a descoberta
de novos planetas, fico a sonhar com os sete novos irmãos a 40 anos-luz de
distância. Espero, porém, e muito honestamente, que em nenhum desses planetas
existam 1,4 milhões de crianças à beira de morrerem com fome. Espero que só
neste mundo, o meu, sejam possíveis tais contrastes e tamanha insensibilidade.
Não se trata de demagogia esperar que os homens olhem um pouco mais para o que
têm à frente do nariz, não pode ninguém ser acusado de demagogia por esperar
que com tantas práticas saudáveis ao nosso alcance, com tantas dietas para
todos os gostos, haja pelo menos uma que livre de morrerem com fome 1,4 milhões
de crianças neste planeta a que demos o nome de Terra. Às vezes acho que isto
não é bem a Terra, isto deve ser o fundo de qualquer coisa a que por engano, a
que por ilusão, demos o nome de Terra. 1,4 milhões de crianças a 40 anos-luz do
nosso interesse e das nossas preocupações. E nem um nutricionista capaz de descobrir
a dieta mágica para tanta fome, para tanta morte. Porquê?
1,4 MILHÕES
Yoga,
reiki, feng shui, mindfulness, coaching, parenting, ho’oponopono, Iémen, Sudão,
Nigéria, Somália.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
"RESPEITAR A VERDADE"
(...)
É bem possível que não valha hoje a pena discutir a
veracidade de Fátima, como não vale a pena discutir a existência de Jesus
enquanto figura histórica, pela falta de elementos, pela natureza do debate,
que será sempre inconclusivo, pois é muito difícil provar formalmente que algo
não existiu e há uma grande predisposição para acreditar em milagres, e ainda
pelas enormes construções - um culto e uma religião - que se ergueram a partir
de alegados factos. O cristianismo há muitos séculos e muito provavelmente
também já Fátima têm uma existência que não depende de provas materiais.
Nesse sentido, sim, vale a pena avançar para outros planos, mas sem que o
arquivamento do debate sobre a veracidade do milagre venha acompanhado por uma
série de argumentos ofuscadores e seja interpretado como uma desistência por
parte dos cépticos. Um ateu não praticante pode aceitar o arquivamento e
ser sensível à sofisticação teológica de Ratzinger e Bento Domingues, que
privilegiam a "perspectiva do vidente" e enquadram as visões como
estando sujeitas às “possibilidades e limitações do sujeito que as
apreende”, mas só por ingenuidade não veria tais interpretações como uma forma
de legitimar testemunhos.
(...)
Eremita, aqui.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
A VIDA EM TRÊS SONETOS
QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p'ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
Que triste que é, que vã, que asco, que, que...
***
FALEMOS POIS SOBRE ISSO TU E EU.
Que razões aduzir ao concluído?
E entendo, se me deste por vencido
Que mais há a perder p'ra quem perdeu?
Ninguém perdeu, concluis, ganhou-se a dor.
Arbitras e pelejas ao que vejo,
E neste pugilato diz-me o pejo
Que a desistência assiste ao vencedor.
De igual doença um dia enfermávamos
E igual com seu igual iguais curávamos
Até que em seu contrário se derroga
E agora seu contrário é sua droga.
Contrárias costas peitos gémeos curam
Até que os pleitos cessem p'lo que duram.
***
NÃO SEI, DE TANTO LADO VEM O APELO,
Esta urgência de estar em toda a parte
Vem das cidades, chama-me, ouço: Parte
E eu queria, mas não hei-de, não o anelo.
Sou lento, sou lentura, sou um gelo,
Dilato-me por mim, é tudo, arte
De Ártemis que não soube, quis, caçar-te
E em natureza morta pôs desvelo.
Fico-me aqui co'a minha própria pena.
É pena, tanta pena e não me voo,
É triste, tanta tinta e não me escrevo,
Fico-me escravo aqui do meu enjoo.
Mais tarde quando ouvires a cantilena
Destrói a carta que eu por mim não devo.
Daniel Jonas, in Sonótono, Edições Cotovia, Maio de 2007.
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Lidos em 2017,
Os mestres e as criaturas novas
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
STAGECOACH (1966)
Com uma vastíssima carreira em variadíssimas áreas
associadas ao cinema, Gordon Douglas (n. 1907 – m. 1993) assinou praticamente
uma centena de filmes em múltiplos géneros. O western não foi excepção. Jean
Tulard coloca-o mesmo entre os melhores neste domínio, considerando Rio Conchos
(1964) uma obra-prima e referindo-se de forma assaz entusiástica a filmes tais
como Fort Dobbs (1958), Yellowstone Kelly/O Gigante do Oeste (1959) e Gold of
the Seven Saints (1961), todos protagonizados pelo actor Clint Walker. A pedra
no sapato é Stagecoach/Cavalgada de Paixões (1966), remake de um dos mais
icónicos filmes de John Ford e, para muitos, o western dos westerns.
O original
Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) chegou a arrecadar dois Oscars, colocando-se
numa posição que dificilmente livraria da heresia qualquer
tentativa de reprodução. Douglas empenhou-se em desconstruir a intensidade dramática do
filme de Ford, oferecendo à sua versão uma faceta cómica que tem na interpretação
de Bing Crosby um dos pontos de interesse. A paisagem é desinteressante, as
cenas de perseguição e conflito perdem fulgor, mas o filme acaba por não
ser tão mau quanto o pintam graças a esse elemento redentor do riso que
humaniza personagens deveras teatrais num ambiente hostil e desconfortável.
A comandar a diligência encontramos um
Van Heflin mais velho e pesado do que aquele que tanto havíamos apreciado em
Wings of the Hawk/As Asas do Gavião (1953), mas no interior da carruagem mantém-se
uma vivacidade social capaz de condensar num pequeno espaço as divergências de
uma comunidade. Ann-Margret é a prostituta excomungada, Red Buttons o ingénuo
vendedor ambulante, Mike Connors o descaminhado filho de boas famílias, Alex
Cord o fora-da-lei de bom coração, Bing Crosby o médico alcoólico de uma
sociedade falida, Robert Cummings o banqueiro vigarista e Stefanie Powers a
dedicada mulher de um militar. A cada uma destas personagens podíamos fazer
corresponder cada um dos sete pecados mortais, não se desse o caso de ser muito
mais interessante olhar para elas enquanto partes integrantes de uma comunidade
a desintegrar-se.
O foco não é, deste modo, colocado nas personalidades individuais, mas sim
nas formas de interacção que aproximam e afastam cada um dos elementos desta diligência
à beira do abismo. A caminho de Cheyenne, os segredos que cada um carrega
tornam-se irrelevantes face à necessidade de conjugar esforços perante o fogo
cruzado do inimigo.
Já na década de 1980, Ted Post, o de Hang ‘Em High (1968),
também se aventurou sem sucesso numa reconstrução do clássico de Ford. O
problema é nada ser possível melhorar numa obra já de si perfeita. Ainda assim,
o filme de Doulgas tem o mérito da heresia. Muito dado a remakes, o western é
um género onde quase sempre uma excessiva reverência ao original atraiçoa as
expectativas. Artifícios tecnológicos novos não são quanto basta para a
reinvenção de um clássico. Gordon Douglas não só foi parcimonioso no uso de tais
artifícios como parece desinteressado de copiar a aura trágica do original,
recolorindo com tons de comédia cenas que roubam tensão ao todo mas
descomprimem cada uma das personagens em acção. O resultado é claramente popular,
numa tentativa de reaproximar das massas um género que havia perdido fôlego nos
últimos anos e quase parecia estar morto na década de 1960.
Compreende-se,
pois, que tenha havido quem considerasse desastrosos tais esforços, mas
passados cinquenta anos a cavalgada de paixões guiada por Van Heflin tem um
outro impacto. Tornou-se um objecto de colecção que nos permite pensar como é
que ao longo de 100 anos foi possível ir realizando “filmes de cowboys” sem que
o género se esgotasse nos seus inevitáveis clichés.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
sábado, 18 de fevereiro de 2017
CÃO CELESTE #10
Cão Celeste #10
Direcção de Inês Dias e Manuel de Freitas
Coordenação gráfica de Luís Henriques
Desenho da capa: Daniela Gomes
Lançamento, pp. 125-127.
UMA FOTOGRAFIA
Em tempos não tão extintos como tenderíamos a julgar, Hans
Holbein foi criticado por ter oferecido a Cristo o realismo de um cadáver, a Veronese
censuraram a satisfação patenteada numa recriação da Última Ceia e Doménikos
Theotokópoulos viu-se excomungado por pintar santos pelos quais não apetecia
rezar. Ao autor da fotografia recentemente premiada pelo World Press Photo
caberá uma outra forma de excomunhão, entre pares e massas indignadas pela
suposta premiação de um momento de celebração terrorista. Remete-me esta imagem
para uma outra, igualmente representativa do terrorismo tal como
hoje o vivenciamos. Refiro-me à célebre fotografia que ficou conhecida
como The Falling Man, captada aquando dos ataques ao World Trade Center em
2001. Há, no entanto, uma diferença substancial entre essa imagem e a
fotografia recentemente premiada: a identidade da vítima. Na fotografia de
Burhan Ozbilici sabemos quem é a vítima em concreto, sabemos que se trata de
Andrey Karlov, embaixador russo na Turquia assassinado numa galaria de arte durante
a inauguração de uma exposição. Conhecemos também a identidade do assassino, ao
passo que na imagem de Richard Drew a identidade dos intervenientes é
desconhecida, o momento guarda um grau de abstracção que nos distancia da
realidade. A fotografia de Ozbilici produz um efeito perverso, aproxima-nos da
realidade demonstrando-nos o imponderável. Assassination in Turkey parece
uma encenação, mas não é. As figuras podiam ser bonecos de cera, mas não são. O
enquadramento da galeria oferece à cena central um ambiente dúbio, inquietante,
desafiador. Mas é tudo claro, objectivo, patente. Em era de pós-verdade, esta fotografia questiona-nos sobre o
autêntico, mostra-nos quão absurda é a realidade. Nada há no aspecto do homem
armado que nos faça desconfiar dele, nada há que nos leve a supor tratar-se de
um terrorista. O que há de comum entre todas as obras aqui aludidas é a
capacidade de nos interpelarem acerca dos modos de representação da realidade,
da relação que estabelecemos entre o olhar e o objecto de observação. Cristo
não estava à frente de Holbein quando ele o pintou. Mas como pintá-lo senão
representando um cadáver? Seria possível uma Última Ceia sem o contentamento
que Veronese lhe associou? Não terá El Greco sido o mais realista possível ao
oferecer à santidade uma dimensão feérica? Tanto The Falling Man como Assassination
in Turkey representam o terrorismo de formas diversas, mas em ambos os casos
conseguimos entender a congruência dos modos de representação. A primeira
fotografia é uma imagem de espanto, a segunda surge já num tempo em que ao
espanto foi usurpado todo o potencial exegético. É a fotografia certa num tempo
em que entre a verdade e a mentira se esbateram os filtros. Acusá-la de celebrar
o terrorismo equivale a nada. Melhor, vale tanto quanto acusar Doménikos Theotokópoulos
de ter pintado santos que não estimulam a oração.
EMPÉDOCLES POR BRECHT
A SANDÁLIA DE EMPÉDOCLES
1
Quando Empédocles de Agrigento
Ganhara a veneração dos seus concidadãos juntamente
Com os achaques da velhice,
Resolveu morrer. Mas, como ele
Amava alguns, de quem por sua vez era amado,
Não desejava definhar em frente deles, mas antes
Desfazer-se em nada.
Convidou-os para uma excursão, não a todos,
Omitiu um ou outro, para assim na escolha
E na empresa comum
Misturar o acaso.
Escalaram o Etna.
A canseira da subida
Trouxe consigo o silêncio. Ninguém deu pela falta
De palavras sábias. No cimo
Tomaram fôlego, pra recuperar o pulso costumado,
Ocupados com as vistas, contentes de chegarem à meta.
Sem que o notassem, o Mestre abandonou-os.
Quando de novo começaram a falar, ainda não
Notaram nada, apenas mais tarde
Deram por falta aqui e além duma palavra, e olharam em volta em busca dele.
Mas ele ultrapassara há muito já o cume do monte,
Sem grandes pressas. Uma vez
Parou, e ouviu
Como ao longe, lá para trás do cume,
A conversa recomeçava. As palavras isoladas
Já se não compreendiam: o morrer começara.
Em pé junto à cratera,
De face voltada, sem querer saber mais daquilo
Que já lhe não dizia respeito, o velho inclinou-se devagar,
Desatou com cuidado a sandália dum dos pés e atirou-a sorrindo
Pra o lado a uns passos de distância, de forma a não ser achada
Depressa de mais, mas ainda a tempo, isto é:
Antes de apodrecer. Só então
Foi para a cratera. Quando os seus amigos
Sem ele e buscando-o ainda, tinham voltado,
Começou gradualmente, através das semanas próximas e dos meses,
A sua morte, como ele tinha desejado. Havia ainda alguns
Que esperavam por ele, enquanto outros já
O davam por morto. Inda alguns retinham
As suas perguntas até ao seu regresso, enquanto outros
Buscavam eles mesmos a solução. Devagar, como as nuvens
Se afastam no céu, imutáveis, apenas mais pequenas
E mais recuadas, quando se não olha para elas, mais
Longínquas quando de novo se procuram, talvez já confundidas
Com outras, assim ele se afastava dos costumes deles, costumadamente.
Então levantou-se um boato:
Ele não morreu, porque não era mortal — dizia-se.
O mistério envolvia-o. Considerava-se possível
Que além do terreno houvesse outra coisa, que o curso do humano
Se modificasse para o indivíduo: tal o falatório que correu.
Mas nesta altura achou-se a sandália, de couro,
Tangível, usada, terrena! Deixada para aqueles
Que, quando não vêem, começam logo a acreditar.
O fim dos seus dias
Foi de novo natural. Morrera como qualquer outro.
2
Outros porém descrevem o caso
De outra maneira: Este Empédocles
Tinha realmente tentado assegurar-se honras divinas
E por uma evasão misteriosa, por uma astuta
Queda no Etna sem testemunhas, quisera dar fundamento
À lenda de que não era de condição humana, nem sujeito
Às leis da dissolução. E nisto,
Eis que a sandália lhe pregara a partida de vir cair em mãos humanas.
(Alguns dizem até que a própria cratera, irritada
Por tal procedimento, tinha simplesmente cuspido
A sandália do degenerado.) Mas nós antes julgamos:
Se ele na verdade não descalçou a sandália, então antes se esquecera
Da nossa estupidez e não pensara quão depressa
Queremos fazer ainda mais escuro o que já é escuro e preferimos
Crer no absurdo a buscar uma razão suficiente. E então o monte —
Aliás não irritado por tal descuido ou por crer
Que ele nos quisesse enganar para embolsar honras divinas
(Pois o monte não crê nada e não se ocupa de nós)
Mas muito simplesmente a cuspir fogo como sempre — ter-nos-ia atirado
A sandália, e assim os discípulos —
Ocupados já a farejar um grande mistério,
A desenvolver profunda metafísica, ocupadíssimos! — de repente
Inquietos, tomaram a sandália do Mestre nas mãos, a sandália tangível,
Usada, de couro, terrena.
Bertolt Brecht (n. 10 de Fevereiro de 1898, Augsburgo, Alemanha - 14 de Agosto de 1956, Berlim Leste) in Poemas e Canções, trad. Paulo Quintela, Livraria Almedina, Outubro de 1975, pp. 212-214.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
POLITICAMENTE COISO
Enquanto em Portugal as hordas se inquietam com o caso
Centeno, último reduto de uma oposição ao Governo sem ponta por onde pegar (teriam
várias, interessados estivessem em política a sério), o mundo não pára para
folclores inconsequentes. Prova disso é a catrefada de discursos políticos
vindos a lume em tudo o que é entrega de prémios. Não há galardoado que não
aproveite o tempo de antena concedido para fazer gosto à língua, proferindo meia
dúzia de banalidades contra Trump & C.ª Lda. Um dia far-se-á história
desses momentos em que a intervenção política se veste de gala e sobe ao palco
de Grammys, Baftas, etc.. Reconheçamos que nos tempos que correm um fenómeno
como os Homens da Luta dariam em caricatura bafienta, com penteado
desactualizado e indumentária claramente ultrapassada. A luta, agora, aproveita
para exibir a mais alta-costura, os penteados saem das mãos dos mais refinados
cabeleireiros, a luta anda de salto alto. O meu sexto-sentido vaticina que a
breve trecho a própria futura miss mundo venha a substituir a tradicional
mensagem de paz e amor universais por uma qualquer charada política anti-Trump,
soletrada directamente da cábula com pernil ao léu e peitoril saliente. Os
tempos são de universalismo e de multiculturalismo obrigatórios, tudo contra a segregação racial... desde que estejamos todos limpinhos, lavados e perfumados ao preço de diamantes de sangue
e outras minudências afins.
UM POEMA DE AMOR POR JACQUES ROUBAUD
Diálogo
Nunca pensei num poema como sendo um monólogo saído algures da parte de trás da minha boca ou da minha mão
Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual
A hipótese de um encontro a hipótese de uma resposta, a hipótese de alguém
Mesmo na página: a resposta sugerida pela linha, os deslocamentos, os formatos
Alguma coisa vai sair do silêncio, da pontuação, do branco subir até mim
Alguém vivo, nomeado: um poema de amor
Mesmo quando a omissão, a indirecção, a colocação pronominal tornam possível esta translação: que um leitor esteja diante da página, diante da voz do poema, como no momento em que ele nasce
Ou da sua recepção: leitor leitor ou leitor autor
Este poema dirige-se a ti e não encontrará ninguém
Jacques Roubaud (n. 5 de Dezembro de 1932, Caluire-et-Cuire, França), in Alguma Coisa Negro, trad. José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017, p. 207.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
CITAÇÕES
Aqui.
Aqui.
Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu;
Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de
Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade,
vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de
Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta
e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu
o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em
assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada
por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido
do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira
chamada Helena.
Aqui.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
[sic]
O meu namorado é obsessivo-compulsivo, está sempre a lavar
as mãos e tem nojo de tudo. Quero oferecer-lhe um livro que o ajude a fazer
limpezas.
30 DIAS
Visitou-nos durante 30 exactos dias, dirigindo-se
invariavelmente para a área dos dicionários onde repetia, sem excepções, o
mesmo gesto de agarrar num livro amarelo e permanecer por cerca de uma hora a
estudá-lo compenetradamente. Sempre lhe oferecemos ajuda, sempre a recusou. Era
ele e o seu livro amarelo, durante 30 exactos dias. Até hoje. Aproximou-se do
balcão e pediu o livro de reclamações. Há 30 dias que ando a estudar aquele
livro com o título Aprenda Alemão em 30 dias, e nada, não percebo nada, não
entendo nada, o livro é um logro, quero reclamar. Disse.
DIA DOS NAMORADOS
Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito
interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e
divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no
entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só
permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a
desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou
com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas
de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também
perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da
Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias,
passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu.
Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes,
salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o
Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres
de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido
com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto
tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para
exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do
que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que
hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado
tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais
adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a
próxima.
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Clique na imagem para ver melhor:
Hans Holbein o Novo (1497-1543)
Holbein opted to represent Christ in all his humanity here: Christ's dead body is so realistic that it is said to have been painted from de corpse of a drowned merchant. It is hard to believe that Holbein could have inventend that cadaverous stiffness, that gaping mouth baring its teeth, that greenish hue, or even that half-closed eye.
SINUSITE
Para uns, Putin pretende destruir a União Europeia. Outros
temem pela desintegração da Rússia. Há ainda aqueles para quem Trump é uma
séria ameaça ao mundo, não por ser Trump, mas por estar nas mãos de Putin.
Diz-se também que a Rússia anda a manipular as eleições em França. O próprio
Assange estará ao serviço dos interesses russos. Deus meu, tanta gente tão
informada. Eu só queria encontrar uma solução para a sinusite.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
ALGUMA COISA NEGRO
Jacques Roubaud (n. 1932) não é totalmente desconhecido
dos leitores de poesia portugueses. Em 1993, alguns poemas do mais celebrado
dos seus livros foram incluídos na antologia Sud-Express – Poesia Francesa de
Hoje (Relógio D’Água) com tradução de Urbano Tavares Rodrigues. Quelque chose noir, originalmente publicado em 1986, aparece agora integralmente traduzido
por José Mário Silva, e com prefácio de Gonçalo M. Tavares, na colecção de poesia
da Tinta-da-China. Talvez não seja descabido recordarmos algumas palavras que
lhe foram dedicadas na Introdução de Etienne Rabaté a Sud-Express: «Quelque
chose noir, de que propomos aqui um excerto, representa o êxito de um raro equilíbrio
entre a composição sábia e a perfeita lisibilidade, entre a discrição e a
violência da emoção, entre o trabalho formal da página, ritmo e disposição
gráfica, e a continuidade do livro onde cada pormenor tem o seu lugar».
A síntese de Rabaté é perfeita, desanuvia-nos a
interpretação e permite-nos fruir o que há nesta poesia de mais intenso. A
estrutura rígida não deve iludir-nos, sobretudo quando sabemos ter o autor estudado
matemática. O aspecto geral da distribuição dos textos, em nove secções
compostas por nove poemas, é devedor das premissas fundadoras de OuLiPo, a
corrente literária a que Roubaud pertenceu ao lado de escritores como Georges
Perec e Raymond Queneau. Defendia-se então a vantagem dos constrangimentos
técnicos enquanto accionadores de uma libertação literária. Mas em boa verdade,
os poemas deste livro encontram-se atravessados por uma fortíssima tensão
existencial que pouco tem que ver com forma. Está antes na origem de toda a
literatura, senão de toda a arte, e de algum modo pode representar-se colocando
lado a lado as figuras do amor e da morte.
Alix Cleo Roubaud, nome próprio transformado em verso, é já
uma substância indefinida que se mistura com toda a obra como a neblina a tomar
conta do espaço. Faleceu aos 31 anos, deixando nas mãos do seu amante um
conjunto vasto de fotografias a partir das quais muitos destes poemas foram
escritos. O sentimento de perda redunda aqui numa experiência afásica de índole
depressiva, estando latente - na forma como as palavras se articulam entre si
no corredor dos versos - o esforço da lógica face ao desespero. O grande
combate travado neste livro é, pois, entre a razão que subjaz à linguagem e a
emoção que de algum modo sustenta a poesia. As imagens convocadas surgem
afectadas pelo negrume, embora invoquem elas mesmas momentos de luz. Assim
sendo, a mais paradoxal das relações aqui estabelecidas exerce-se entre o olhar
da fotógrafa falecida e o que nesse olhar pode ser observado pelo olhar turvo
do amante que a recorda, alucina, nega, desespera.
É também este um percurso catártico, no decurso do qual o
autor tenta compreender-se a si próprio organizando a sua arte: «Insisto em
circunscrever o nada-tu com exactidão, esses dois pólos impossíveis, a andar à
volta disso com estas frases novas a que chamo poemas» (137). Estamos num limbo
interior desafiador da sintaxe e do sentido, provocador de paradoxos e de
absurdos, num limbo onde o princípio da não-contradição perde validade por já
não ser suficiente para delimitar os graus de manifestação de um conceito. A
amada é e não é ao mesmo tempo, vive e não vive, a morte ainda não foi porque
ele ainda é, ainda a sente dentro dele, a morte dela começou no corpo dela, mas
ainda não acabou no corpo dele, portanto é ainda uma não-morte, uma morte inacabada.
Parece um jogo, talvez seja um jogo.
Tendendo tudo para um nada precedido de dúvida, a poesia
surge neste livro como a voz escutada a partir do gravador, o rosto contemplado
a partir da fotografia. Não é o verdadeiro, não é o falso, é qualquer coisa de
intermédio, crepuscular, cinzento, uma sombria luminosidade, a luz de uma
sombra. Não por acaso, alguns dos mais belos poemas deste livro são altamente elípticos.
O silêncio que se intromete entre as palavras captura o leitor para um
labirinto de sentidos não referenciados, justamente sugeridos pela ausência,
pela aproximação a um não-ser vivo, tão vivo quanto as coisas materiais. Uma
aproximação pela meditação:
Meditação da indistinção, da heresia
a Jean Claude Milner
Há três suposições. a primeira, não é demais dar-lhes uma
ordem, é que já não existe. não a nomearei.
Uma segunda suposição é a de que nada poderia ser dito.
Uma outra suposição, por fim, é que nada a partir de
agora lhe é semelhante. esta suposição destitui tudo o que estabelecia uma
ligação.
De algumas destas suposições deduzem-se, sem pertinência,
proposições em cadeia.
De que nada a partir de agora lhe é semelhante
concluiremos que só há dissemelhança e dessa conclusão deduziremos que não há
qualquer relação, que nenhuma relação é definível.
Concluiremos pela improcedência.
Tudo se suspende no ponto em que surge uma dissemelhança.
e a partir daí alguma coisa, mas alguma coisa negro.
Pela simples reiteração, já não existe, os todos
desfazem-se no seu tecido abominável: a realidade.
Alguma coisa negro que se fecha. e se tranca. uma deposição
pura, inacabada.
Jacques Roubaud, in Alguma Coisa Negro, tradução de José
Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017.
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