sábado, 18 de fevereiro de 2017

#91


Quando Will Toledo (n. 1992) nasceu, estava eu a caminho da universidade. Entusiasta do rock, levava na mochila boas razões para ser feliz. A corrente grunge, surgida lá nas bandas de Seattle, onde outrora Jimi Hendrix havia visto a luz do dia, garantia a sobrevivência das guitarras numa era dominada por sintetizadores. Bandas como os Nirvana ou os Pearl Jam dominavam o panorama, desbravando caminho para um recrudescimento do rock que em breve teria no álbum de estreia dos Radiohead fortes motivos para acreditar ser possível não esvaziar de conteúdo emocional a música de massas. Foi precisamente em 1992 que os Sonic Youth afirmaram a sua vertente de resistência com Dirty. Vinham dos anos 80. Will Toledo há-de ter nascido ao som de 100%. Já na segunda metade da década de 1990, fomos apanhados de surpresa com o potencial criativo de um Stephen Jones. A notícia era a concepção de inúmeras canções num período reduzidíssimo, fazendo uso de recursos escassos tais como um gravador de quatro pistas no conforto do lar. Toledo assimilou a lição. Conta-se que concebeu 11 álbuns caseiros em apenas dois anos, utilizando um computador e as suas virtudes, gravando todos os instrumentos, escrevendo, cantando. A atitude do it yourself, que tanto tem contribuído para a sobrevivência das bandas de guitarras, é a que mais se destaca na carreira deste jovem oriundo de Leesburg, Virginia. Teens of Denial (2016) pode ser um segundo álbum para a famigerada Matador, porém marca um ponto de viragem na forma de conceber o todo. Percebemos haver ao longo dos 12 temas uma história para contar: um pós-adolescente problemático no centro de uma narrativa pautada por depressões, bebedeiras, solipsismo, referências a Van Gogh, Beach Boys, William Onyeabor, com uma linguagem desbragada onde o consumo de drogas se alia a pensamentos autodestrutivos que transformam uma guitarra catártica no melhor dos medicamentos. Teens of Denial smells like teen spirit na era da pós-verdade, da pós-pós-modernidade, do pós-humano, de um mundo graduado pela psicose do sucesso e delimitado por tecnocratas falidos na sua humanidade. É a entrada à bruta na vida adulta. Escutem esta:



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