quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

APALACHES

Nunca estive nos Apalaches, onde me garantem ter Deus bebido chá na companhia de seus filhos. Entre eles, um de nome inventado que escrevia poemas. Sobrava-lhe uma mão, o bastante para desenhar o fim e o princípio de um mundo em contínua transformação. Afinal, o erro está na lógica com que delineamos mapas. À pergunta como começou deveríamos fazer prevalecer uma outra: terá havido começo? Para que querem os homens começos? Porque detestam fins. Há sempre a possibilidade de, como numa mesa de chá com pires redondos, bolos esféricos, tampos circulares, há sempre a possibilidade de tanto o espaço como o tempo não terem princípio nem fim, serem coisa sem princípio nem fim. Simplesmente coisa de si mesmo nascida em si mesma gerada. 
A grande parada das religiões, o grande cortejo, exibe aos ombros andores com respostas desnecessárias para perguntas inúteis. Logro, erro. Vejamos a morte, a alucinada morte num cálice de chá apalachiano. Deus recostado a contemplar o grande espectáculo humano das questões religiosas, dos métodos científicos, das promessas tecnológicas, o grande espectáculo humano das representações, da linguagem, da política, da história enquanto disciplina, das teorias e dos teoremas, dos escritos sagrados, das abluções, o magnífico espectáculo humano do desespero com mestres de ioga, xamãs, gurus, equilibrados na ponta das mitras, com bispos, cardeais e arcebispos segurando crucifixos produzidos com o mais fino material colhido das minas por índios famintos, eles próprios reverentes a suas divindades, tementes a seus altíssimos trovejantes, imãs, muezins, almocreves… Ele, o Senhor, entretido com todo este espectáculo humano no meio de dois mundos, o nosso e outro, distante o nosso, onde alguém coloca ao mesmo tempo que nós as mesmas perguntas que nós elaboramos acerca do princípio e do fim do universo. 
Desconheço se Blaise Cendrars, outrora invocado, andou pelos Apalaches. Mas era ele, garantem-me, que estava entre os filhos de Deus à hora do chá. E desse encontro terá escrito argumento para cinema jamais filmado, nunca exibido, reproduzindo fielmente o grandioso espectáculo humano da dúvida existencial. De onde vim? Quem sou? Para onde vou? A ordem das perguntas é aleatória. Pode ser filmada debaixo de água ou dentro de um cubo de gelo, onde melhor se conservaria o incrível espectáculo da dúvida. Metam coisas destas no Plano Nacional de Leitura, salvem as nossas crianças do erro. Não mais permitam que alguém lhes diga onde e como e quando tudo começou, pois nada começou em lugar algum, foi tudo sendo, vai tudo indo. A verdade está no gerúndio, o gerúndio é a verdade: que belo seria poder assistir ao fim, já que não foi possível estar no começo. E assim sucessivamente. 

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