sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

CONVERSA DE CAFÉ

O café está cheio de razão, a borra não engana, o café diz que isto vai de mal a pior e a gente acredita, somos absolutamente crentes na palavra do café, estamos até a indagar a possibilidade de uma igreja do café, ou de uma ceita, não somos ambiciosos, ouvimos o café quando nos chega cheio e declara mau tempo, tempo dele, escutamos o café quando o televisor sintonizado no canal de notícias leva o sacristão de balcão a asseverar que o crime compensa, a corrupção não mina o café, não o distrai, não engana, escaldado, pingado, curto, escorrido, descafeinado, o café é sempre café, sua voz ecoa com a gravidade de uma lei, entre paredes decoradas com bebidas para consumo da casa, em casas bebidas, o café é a medida certa da nossa filosofia diária, greves de sexta-feira não são greves, diz o café, os políticos são todos corruptos, diz o café, ninguém dá nada a ninguém, diz o café, eles não precisam de saber tudo o que a gente faz, diz o café, isto agora é uma vergonha, diz o café, se fossem mas é trabalhar, adianta o café, não querem fazer nenhum, sublinha o café, e dá-lhe com a eutanásia, com o Trump e aguentem-no, enquanto ao largo alguém acrescenta linhas numa distopia em voga e socorre-se de um dicionário ambulante para consultar o significado etimológico de café, ca fé, que fé, fé neste bom deus de grão torrado e nas pitonisas que o adoçam, fé nos mandamentos do café: nada dirás que não possa ser proferido diante de todos, farás para ti sentença de tudo quanto seja consensual, não te encurvarás à crítica, ama o lugar-comum, o preconceito, o estereótipo, generaliza, não tomarás em vão o teu próprio café, lembra-te do dia de folga para santificares teu senhor, trabalharás tanto quanto de obrigarem dívidas fixas, mas o sétimo dia pode ser qualquer um da semana tendo em conta os horários rotativos a que estás obrigado, porque o café se colhe e trata quando a natureza o manda, honra-o, bebe-o e saboreia-o vagarosamente, enquanto escutas as opiniões dos outros e dás as tuas próprias, que devem ser iguais às dos outros como as dos outros iguais às tuas, não adulteres uma opinião, sublinha-a, vai de táxi na opinião e jamais furtes um pensamento, uma dúvida, as dúvidas são para os ímpios, não critiques, ecoa, pelo que não profiras falso testemunho contra o teu próximo, dá-lhe razão, pois, acena positivamente, pois, ou negativamente, pois, conforme te falem positivamente ou negativamente, não cobiçarás a opinião do próximo, que será igualmente a tua, uniformiza, pensa pela cabeça dos outros tanto quanto os outros pensem pela tua e se alguém disser que estás a ter uma conversa de café, paga a conta e vai à vida. Cafés há muitos.

2 comentários:

Anónimo disse...

E descafeinados também!

maria disse...

a vida é dura, com ou sem (ca)fé. :)