domingo, 12 de fevereiro de 2017

EFEITO BRUCE LEE

Chego a casa após um extenuante dia de trabalho. Trago em mente minutos de paz, sentado no sofá a beber um copo de vinho e a ver a Baby TV. Desfaz-se a paz assim que liberto o cão, bicho cuja capacidade para me transformar numa noz cheia de nada é cada vez maior. Vou ter de beber muito vinho. Tento abrir uma garrafa. Ou o saca-rolhas ou a rolha estão contra mim. Ela desfaz-se, ele não responde. Há tempos, li imensa literatura acerca dos graus de eficiência de um saca-rolhas. No sítio da Deco ainda se encontra um artigo que explora o assunto propondo uma digressão por dezoito modelos diferentes de saca-rolhas. 18. De nada me valeu o estudo. Quando o material está contra ti, bem podes reduzir-te a uma noz cheia de nada. Instala-se então o desespero na sala. Não encontro os comandos. Reviro tudo em busca dos comandos. Nisto, o cão faz-me o favor de tombar um copo de vinho que tinha deixado a respirar. Respiro fundo. O nariz entupido não ajuda. Passada uma hora de buscas em vão, telefono às filhas a indagar sobre a localização dos comandos. Sou informado de que poderei encontrá-los num móvel na cozinha por baixo do microondas, sítio ideal para arrumar comandos. Ligo a televisão, sento-me, bebo um pouco de vinho. Entretanto limpei o que havia a limpar, mas o cão anda para cá e para lá interminavelmente. É provável que vá fazer das suas. Não quero saber, sou uma noz cheia de nada. Concentro-me numa telenovela portuguesa, tento perceber o sentido daquilo tudo, cenários esterilizados com actores assépticos a proferirem frases que algum argumentista deve ter julgado serem as da vida comum. Um desastre. Não aguento um quarto de hora seguido de telenovela portuguesa. Mudo de canal quando uma rapariguinha que supostamente estaria a ter um surto psicótico parecia estar a fazer uma simulação nas formações da empresa. Sinto-me mal, prestes a claudicar. O zapping descontrai-me, não paro mais de cinco segundos em cada canal, dou a volta ao mundo das televisões enquanto encho de vinho a minha cabeça de noz cheia de nada. Por fim, desisto de viajar no começo de um filme do Bruce Lee. Uma escola de chineses segregados contra uma escola de japoneses no poder. Estou pelos chineses, estou sempre pelas vítimas de exclusão. Infelizmente, adormeço durante uma interminável luta com golpes que parecem chicotadas. Os sons produzidos por Bruce Lee enquanto disfere mais um golpe fatal são a minha Baby TV para o dia de hoje. A noz abre-se, o nada derrama-se. Deixei de sentir corpo ou mente, não há desejo em mim, apenas casca de noz aberta, vazia, sono, muito sono, uma necessidade imensa, absoluta, de silêncio e de solidão.

4 comentários:

maria disse...

Que bem que descreves a minha semana. Gracias

Rogério Soares disse...

Deve ser bom encontrar o sossego depois de tantos percalços. Pena é que amanhã terás que viver tudo isso até voltar a encontrar o nada.

Rogério Soares disse...

Deve ser bom encontrar o sossego depois de tantos percalços. Pena é que amanhã terás que viver tudo isso até voltar a encontrar o nada.

hmbf disse...

Maria, que a próxima seja melhor.

Rogério, grato pela perspectiva encorajadora. :-)