segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ELOGIO DE CARAVAGGIO

Atravesso a cidade cambaleando entre a metade adormecida do mundo e uma outra metade, metida entre quatro paredes a entreter horas das quais não restará memória. Não fosse a minha caminhada trôpega, o silêncio seria sepulcral. Ninguém por perto para observar, nem as putas, nem os bêbados, nem os vigaristas, nem os arruaceiros com quem gente de alta estirpe disse apreciar conviver. Pode ser que nas suas deambulações Caravaggio venha a encontrar Goethe, Cristo Nosso Senhor ou Bukowski e lhes sugira um retrato a espreitar a ferida das ruas desertas às três da manhã. Eu também queria viver na companhia de tais pecadores, mas as ruas estão desertas, o mundo foi esterilizado e o ar asséptico da madrugada deprime-me. Esta higiene há-de matar-me. Debruço-me no viaduto a observar as carruagens paradas numa estação morta, nem um comboio atravessa a noite escura. A lua está tão alta, inacessível. Um silêncio insultuoso obsidia as ruas e muito raramente se avistam os faróis de um carro à procura de estacionamento. Nem putas, nem clientes. Como chamar vida a isto? Fosses vivo, Michelangelo, morrerias de tédio. A irascibilidade voltar-se-ia contra os desinfectantes que rasuraram o humano das ruas, não deixando nem uma pessoa a quem perguntar horas ou sugerir um crime. Apenas um nome cravado numa placa de mármore. Tal como nos cemitérios. Não me sinto só neste mediterrânico afogamento, sinto-me apenas inapelável. Limito-me a esperar pela morte ao som de pássaros adormecidos. Se uma gaivota corta o silêncio é como se um trovão. Digamos que morreste há mais de quatrocentos anos e são quatrocentos os anos que pesam sobre este fastio de cafés encerrados, ruas desertas, noites dormentes, espaços vazios ao abandono, gente ausente, tão ausente do mundo como de si mesma, por certo entretida com oceanos sem tempestades. Enche-se-me o coração de pensar em ti. Depois expiro e fico desterrado. Ando assim desprotegido enquanto cambaleio a solidão e digo a mim mesmo que é quase um dever gritar, partir qualquer coisa que nos regale com a música de um estilhaço, estrondosas desistências, um conflito que anima a discussão inútil ginasticando pensamento, verve, reflexão. Tu entre as pessoas mais comuns, hoje, estarias por certo no conforto de um lar assistindo a um qualquer episódio de uma qualquer série. Representarias os olhos da mãe espreitando a ferida no telemóvel inteligente, os filhos estupidificando à luz de tamanha inteligência. Entre gente comum, encontrar-me-ias talvez cambaleando na rua deserta, debruçado no viaduto a sonhar com carruagens em andamento. E os teus modelos seriam a classe média desinteressada dos centros comerciais, fazendo fila por um frango da guia, cedo deitada, cedo erguida, trocando a vida inteira pela segurança de um trabalho com salário à medida das mais básicas, tão básicas, necessidades. Que raio de vida a nossa, Caravaggio, a pensar como seria tão improvável o teu talento neste meu tempo. A pensar que já nem pensamento nos sobra. 

3 comentários:

panaceia disse...

Muito bom dia, Henrique

Eu vou lendo os teus textos. E relendo. Questionando, pensando, sentindo-me "dentro" deles.
E pego neles, publicando-os na minha página da tal rede social chamada Facebook, que detestas, na esperança de que mais alguém (que aqui não venha) os leia e reflicta, também.
Um muito obrigada!
Saúde e um abraço.
Lia

Cuca, a Pirata disse...

Caravaggio, entre nós, daria em heroinómano ao terceiro dia.

hmbf disse...

Não duvido.