Atravesso a cidade cambaleando entre a metade adormecida
do mundo e uma outra metade, metida entre quatro paredes a entreter horas das
quais não restará memória. Não fosse a minha caminhada trôpega, o silêncio
seria sepulcral. Ninguém por perto para observar, nem as putas, nem os bêbados,
nem os vigaristas, nem os arruaceiros com quem gente de alta estirpe disse
apreciar conviver. Pode ser que nas suas deambulações Caravaggio venha a
encontrar Goethe, Cristo Nosso Senhor ou Bukowski e lhes sugira um retrato a
espreitar a ferida das ruas desertas às três da manhã. Eu também queria viver
na companhia de tais pecadores, mas as ruas estão desertas, o mundo foi esterilizado
e o ar asséptico da madrugada deprime-me. Esta higiene há-de matar-me.
Debruço-me no viaduto a observar as carruagens paradas numa estação morta, nem
um comboio atravessa a noite escura. A lua está tão alta, inacessível. Um silêncio
insultuoso obsidia as ruas e muito raramente se avistam os faróis de um carro
à procura de estacionamento. Nem putas, nem clientes. Como chamar vida a isto?
Fosses vivo, Michelangelo, morrerias de tédio. A irascibilidade voltar-se-ia
contra os desinfectantes que rasuraram o humano das ruas, não deixando nem uma
pessoa a quem perguntar horas ou sugerir um crime. Apenas um nome cravado numa placa de mármore. Tal como nos cemitérios. Não me sinto só neste
mediterrânico afogamento, sinto-me apenas inapelável. Limito-me a esperar pela
morte ao som de pássaros adormecidos. Se uma gaivota corta o silêncio é como se
um trovão. Digamos que morreste há mais de quatrocentos anos e são quatrocentos
os anos que pesam sobre este fastio de cafés encerrados, ruas desertas, noites
dormentes, espaços vazios ao abandono, gente ausente, tão ausente do mundo como
de si mesma, por certo entretida com oceanos sem tempestades. Enche-se-me o coração de pensar em ti. Depois expiro e fico desterrado. Ando assim
desprotegido enquanto cambaleio a solidão e digo a mim mesmo que é quase um
dever gritar, partir qualquer coisa que nos regale com a música de um
estilhaço, estrondosas desistências, um conflito que anima a discussão inútil
ginasticando pensamento, verve, reflexão. Tu entre as pessoas mais comuns,
hoje, estarias por certo no conforto de um lar assistindo a um qualquer
episódio de uma qualquer série. Representarias os olhos da mãe espreitando a
ferida no telemóvel inteligente, os filhos estupidificando à luz de tamanha
inteligência. Entre gente comum, encontrar-me-ias talvez cambaleando na rua
deserta, debruçado no viaduto a sonhar com carruagens em andamento. E os teus
modelos seriam a classe média desinteressada dos centros comerciais, fazendo
fila por um frango da guia, cedo deitada, cedo erguida, trocando a vida inteira
pela segurança de um trabalho com salário à medida das mais básicas, tão básicas,
necessidades. Que raio de vida a nossa, Caravaggio, a pensar como seria tão
improvável o teu talento neste meu tempo. A pensar que já nem pensamento nos sobra.

3 comentários:
Muito bom dia, Henrique
Eu vou lendo os teus textos. E relendo. Questionando, pensando, sentindo-me "dentro" deles.
E pego neles, publicando-os na minha página da tal rede social chamada Facebook, que detestas, na esperança de que mais alguém (que aqui não venha) os leia e reflicta, também.
Um muito obrigada!
Saúde e um abraço.
Lia
Caravaggio, entre nós, daria em heroinómano ao terceiro dia.
Não duvido.
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