segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MEMÓRIAS DA RÁDIO

As minhas memórias da rádio começam numa telefonia que ainda temos lá por casa, agora a servir de bibelot numa sala ao estilo Luís XIV. Embora de origens plebeias, cultivámos desde que nos foi possível o gosto por coisas aristocráticas. O rádio vermelho do meu avô Francisco não entra nesta história, é uma outra dimensão da realidade. Só muito esforçadamente consigo recordar o que ouvia, relatos, vozes, sons, nada definido que tenha ficado para a vida. Excepto a figura do rádio em cima de uma mesa tosca de madeira, a toalha com padrões que mais tarde associei a William Morris. O meu pai ouvia bola, as notícias, sempre as notícias, as últimas da volta a Portugal em bicicleta, essas coisas. Na loja, quando a SPA ainda não cobrava direitos de autor, a rádio soava livremente e era uma alegria. Todos ouviam rádio. Quando chegou a casa um rádio com leitor de cassetes eu nem queria acreditar no que aí vinha. Gravei quilómetros e mais quilómetros de fita magnética com o que então ouvia, as canções preferidas, programas inteiros, o Live Aid em 1985. Ainda hoje me arrepio só de imaginar a comoção que sentia a ouvir repetidamente a prestação dos Queen. Rewind & Forward eram pilares de uma existência que, de certa maneira, me permitia fazer os meus próprios momentos de rádio. E cheguei mesmo a ter essa oportunidade, sem jeito algum que o justificasse. Na Rádio Maior, ou na Rádio Cidade, colaborei em programas quando ainda passávamos vinil e assisti à chegada das playlists programadas num computador que olhava de esguelha. Sou um clássico, como certo dia aluno perdido no tempo e no espaço teve a inteligência de notar. Um clássico. Também aprecio a inovação, mas quando se mistura com o grão das velhas. Por exemplo, nos tempos de faculdade sintonizava estações específicas para ouvir programas concretos. Uns de conversa, outros de música, eram programas onde a gente sentia aprender. Passava-se o tempo assim, aprendendo a ouvir os outros, pacientemente. Sessenta minutos que faziam pensar, imaginar, sonhar, sentir. Porque se escutava. Escutava-se rádio, de facto. Não era som que adornasse a atmosfera como hoje a telefonia exposta na sala ao estilo Luís XIV. Ou será XV? Não sei, pouco entendo de artes decorativas, pouco entendo do que quer que seja. Nada sei de música ambiente. Sei que às vezes vou no carro, geralmente a ouvir a Antena 1, e imagino o estúdio daquele que me fala, nunca me ocorre idealizar o rosto do locutor, não quero dar rosto à voz, prefiro imaginar o estúdio. E é como se visse uma espécie de templo abandonado, o vermelho rádio a pilhas do meu avô Francisco verticalmente disposto na mesa. Imagino quatro paredes forradas por William Morris, no centro uma mesa com uma toalha de plástico, no centro da mesa o rádio a pilhas, vermelho, quente, a emitir com sonoridade roufenha a prestação dos Queen durante o Live Aid. De um salto para a realidade, constato a estranheza deste tempo vivido às apalpadelas. Tudo está em transformação com uma espécie de guilhotina invisível a ameaçar existências. O livro em vias de extinção, o jornalismo em vias de extinção, a rádio em vias de extinção, a própria televisão em vias de extinção. Nada disto acabará, tudo se transformará numa outra coisa. O que jamais será recuperável é a imagem de um avô a ouvir o seu rádio a pilhas enquanto o telefone toca. 

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