quinta-feira, 2 de março de 2017

#93


São díspares as aproximações dos escritores de canções a uma obra literária. Assim de repente, podemos recordar alguns exemplos em que a mesma se processou a partir de um esforço de interpretação capaz de transcender a mera tradução musical. The Ghost of Tom Joad (1995), de Bruce Springsteen, estabeleceu um diálogo inteligente com As Vinhas da Ira, romance de John Steinbeck sobre os tempos da Grande Depressão. The Raven (2003), último álbum de estúdio assinado por Lou Reed, resultou de um encontro com a obra de Edgar Allan Poe. A confluência de temas e de ambientes assim o impunham. Mais recentemente, Suzanne Vega assumiu influências literárias com um álbum singular intitulado Lover, Beloved: Songs from an Evening with Carson McCullers (2016). São dez canções que homenageiam a autora de O Coração é um Caçador Solitário, revisitando-a de um ponto de vista biográfico menos preocupado com os conteúdos da obra escrita. Ainda assim, num tema como The Ballad of Miss Amelia são as personagens de A Balada do Café Triste que ressoam e revivem na voz inconfundível de Vega. Penetrando timidamente os territórios do blues e do bluegrass, Suzanne Vega parece afastar-se daquilo a que podemos chamar a sua área de conforto. Mas a veemência discursiva dos blues acaba pervertida, optando-se pela delicadeza de um tom pop mais respeitador do universo da autora de Luka:


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