quarta-feira, 15 de março de 2017

#95


Justin Vernon é um escritor de canções norte-americano que conquistou crítica e público sob a designação Bon Iver, publicando um primeiro álbum em 2008 – For Emma, Forever Ago -, ao qual se seguiu o homónimo Bon Iver, Bon Iver. Os adeptos da folk renderam-se-lhe rapidamente, pela aparência despojada das canções, pelos ambientes românticos de uma country adaptada aos tempos modernos, pela voz celestial e hipnotizante. 22, A Million (2016) desvia-se dos registos anteriores, não por abandonar os ambientes românticos e a voz celestial, mas por adoptar um universo hermético, tanto a nível visual, como no domínio dos arranjos, capaz de desconstruir uma imagem cristalizadora do autor sem rasurar definitivamente a raiz melódica que o define. Neste sentido, a manipulação da voz e dos instrumentos adquire uma enorme preponderância. Aos ritmos geralmente lentos e arrastados colam-se samplers de proveniência diversa, formando uma constelação de sons com forte significado simbólico. O segundo tema envia-nos para um espaço de estranha beleza que já não experimentávamos desde o álbum de estreia de Leila Arab, com paisagens sonoras distorcidas mas surpreendentemente atractivas tanto rítmica como melodicamente. Belo vídeo:


Sucede que Leila Arab era DJ, estava familiarizada com programações, samplers, manipulações sonoras através da tecnologia disponível. Sabíamos o que esperar dela. Bon Iver surge-nos de outras paragens, pelo que cabe interrogar: que caminhos para a folk nesta era revolucionária que atravessamos? Vale a pena “ouver” as canções deste álbum no Youtube, a partir dos suportes visuais que lhe foram dedicados. Também a nossa conceptualização visual do mundo está num processo de acelerada transformação, impulsionada pela disponibilização de aplicações que permitem observar um mesmo objecto sob prismas distintos de um modo instantâneo. A música de 22, A Million é caleidoscópica, na medida em que funde os espaços e tempos da tecnologia com uma espécie de desmaterialização dos sons provenientes dos instrumentos tradicionais. Talvez nada se anuncie numa canção como 00000 Million, a última canção do álbum, mas é impossível ficar-lhe indiferente como se nela não estivesse implícita uma profecia que nos instiga a decifrar o exacto momento histórico em que nos encontramos - tanto na relação que conservamos com a natureza, como na que mantemos com a criação artística:


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