domingo, 16 de abril de 2017

#96




Talvez desde Dead Inside (1996), dos The Golden Palominos, que não ouvia um álbum de spoken word tão perturbador. Let Them Eat Chaos (2016) surge marcado pela urgência, como também em 1996 Pre-Millennium Tension, assinado por Tricky, testemunhava o ambiente e as circunstâncias de um determinado tempo histórico. Kate Tempest recupera para a spoken word, apoiando-se no hip hop, e na sua variante downtempo, a ponta afiada de uma lança que acusa, denuncia, atinge os cenários domesticados de um mundo em colapso. Empenhada socialmente, retrata a sociedade em que vivemos sem contemporizações. Os podres, a hipocrisia, as contradições, os vícios vão sendo diagnosticados ao mesmo tempo que se autopsiam os valores de uma humanidade em vias de extinção. Perfect Coffee bem que podia ser a banda sonora ideal para estes tempos. À semelhança do que Ursula Rucker produziu em Supa Sista (2001), o discurso é poético sem enjeitar o groove das estruturas musicais minimalistas que apoiam as palavras. Em alguns temas chegamos a pressentir uma vontade de dançar sobre destroços, numa encenação do caos aludido em título que acaba por se revelar mais catártica do que panfletária. E essa é, precisamente, a sua força principal, uma força accionadora de raivas e de paixões, nevrótica, furiosa, mas sem que exerça qualquer tipo de violência sobre o outro. Neste caso, neste caos, a revelação do mal é em si mesma uma forma de redenção. O ideal seria escutar todo o álbum, cuja narrativa não deixa de sofrer danos ao ser fragmentada. Ainda assim, 




1 comentário:

BloggerBala disse...

...há muito que o caso esta perdido...e portugal como país de vanguarda já deveria estar a fazer a autópsia!

abraço.


xico