segunda-feira, 13 de março de 2017

(fragmento)

Fui invadido por uma alegria que não compreendo. Pergunto-lhe: que fazes dentro de mim, estranha alegria? Não me responde. Ignora-me, despreza-me. Sinto-a dentro de mim como a um bolor que se vai espalhando pelas paredes, um fungo corroendo-me nervos, artérias, espalhando-se pelo corpo na direcção do pensamento. Tudo em mim converge para o pensamento. Há muito parado, o coração é um lugar vazio. Calculo o mundo com paciência, gota a gota, milímetro a milímetro. Mantenho-me de pé. Por vezes mastigo o enfado, disseco a saturação com tragos de beleza líquida. Sento-me no chão a observar nuvens, fecho os olhos enquanto o vento me banha, suspiro. Esta intimidade enoja-me. Impacientam-me os sorrisos que constrangem o rosto, que o violentam sem dó nem piedade formando rugas que descem até aos ossos.  Não me dou bem com esta alegria, procuro afastá-la sem sucesso, toco em mim mesmo para provar que estou vivo e não me sinto. Devo estar morto. Que estranha alegria esta num corpo morto. Nada disto tem qualquer interesse, só a raiva com que desabotoamos os dedos para a vida tem algum interesse. É com os dedos que esgaravatamos a terra em busca da sede, é com os dedos. O indicador tatuado no selo. Questiono-me se não seria melhor mandar a alegria à favas, fazer do riso desbragado método para alcançar as lágrimas, chorar a rir, rir a chorar sem ser sentimental. Tudo pensamento, tudo corpo. 

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