quinta-feira, 2 de março de 2017

LINHAS TORTAS

Os loucos estão nos hospitais, em asilos, manicómios, sanatórios, hospícios. Há tantos nomes onde pôr um louco. Os loucos não andam por aí a escrever poemas e a publicar livros como se a loucura fosse uma dor no dedo mindinho. Os alcoólatras escrevem nos intervalos da bebedeira. No que lhes sobra dos dias, as mãos tremem. Não dá para escrever. Os suicidas matam-se, não passam a vida inteira a anunciar dores íntimas tremendas e irresolúveis. Os poetas podem fingir que são loucos, bêbados, podem fingir que se matam. Até prova em contrário, serão apenas fingidores. Fingidor é aquele que escreve aos pais a dizer que passa bem, mas tem saudades. Fingidor é aquele que bebe para esquecer, aquele que é pontualíssimo nas consultas de psicologia. O louco mastiga comprimidos. Em vez de tatuagens, corta os pulsos. Com sorte, exibirá cicatrizes. O suicida bebe até que o vómito o sufoque, tudo quanto escreve surge na pausa do desespero. O resto é fantochada, pirosice, estilo.

5 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

O resto é instinto de sobrevivência.

hmbf disse...

Isso é para todos.

Marina Tadeu disse...

Fascinam-me mais as grandes censuradas que são geralmente as vítimas desses comportamentos implacáveis. Têm muito mais a dizer mas como, se a exuberância e hipersensibilidade dos que escrevem umas coisas as amordaçam ao ponto de serem tomadas por profissionais de Saúde, ou pior, por cães de guarda?

Marina Tadeu disse...

Olha, reparo como é redundante o meu comentário anterior face ao poema do Hölderlin que publicaste há uns dias. A loucura como credencial indispensável ao peito de quem da palavra não desmama dá-me vontade de de de andar por aqui caladinha com um saco na tola a reciclar garrafas. Depois li outro texto teu, e lá me acalmei: “À loucura da normalidade, como queria Arno Gruen, talvez devêssemos contrapor uma normalização da loucura.” Que o loucurismo liberte as "mulheres pias" é por ora o meu voto. E acredita, se Vosso Senhor Bukowski ressuscitasse diante de mim, dava-lhe uma carga de porrada.

hmbf disse...

Era bem merecida.