segunda-feira, 27 de março de 2017

NÃO ME DESCANSARÁ O CORAÇÃO

Para o Amadeu Baptista


Não me descansará o coração enquanto queira o corpo manter-se à tona dos naufrágios, vigiando bandos de gaivotas a sobrevoarem lixeiras humanas, recorrendo aos dedos para contar quantos de nós são dignos de um nome maior do que o sonho. Não me descansará por saber ser noite onde começam os dias e sob a luz artificial dos candeeiros públicos desenharem os mosquitos suas invioláveis certezas. Não me descansará o coração enquanto a aranha continuar a tecer sua teia no espelho retrovisor, enquanto as árvores tiverem ramos onde os náufragos possam fazer seus ninhos de morte, pendurados como traidores condenados pela consciência, ou por uma qualquer santa inquisição despertada do sono que nunca dormiu, fogueiras altíssimas de livros censurados e exumações massivas de protestos. Não me descansará o coração enquanto as ideias vogarem ao sabor dos ventos, percorrendo campos minados pela intriga, atravessando baldios sob fogo cruzado, tal o tronco de um santo atravessado por mil flechas de descaso, porque santos somos todos quantos sobrevivemos sem descanso, de pés feridos ao longo da caminhada íngreme, suturados por uma saturação atrofiadora do músculo e do nervo com que nos mantemos de pé, a pé, vigilantes como uma anáfora descontinuada pela fome. Sim, a fome, a fome de não descansar e ter pelo menos com que entreter o consolo e a paixão, fome de andar à toa como um fora da lei que faz do amor seu horizonte mais próximo, pois todos sabemos por onde ir conquanto tenhamos por onde não ir. Fome de vida, vida em riste como o punho do pugilista que não desiste de cansar o coração, bailando no meio do ringue ao som dos sinos que anunciam o verbo e o adjectivo e o substantivo e o advérbio de modo com que honramos a mulher amada, nesse palco onde todos tombarão um dia espancados pelo esquecimento, torturados pelo olvido e pelo desprezo disfarçado uma vez por ano, a 21 de Março, plantando em terreno cerrado as árvores cujos ramos possam um dia servir aos náufragos que buscam seus ninhos de morte. Não me descansará então o coração, insisto, nestes descampados que servem de pasto às utopias, alimentam parvos convencidos de que a vida é mais do que vivê-la, protegendo o corpo das intempéries, dando-lhe certo conforto indispensável à criação, caçando alcateias de bichos morrinhentos aos quais não cabe senão reproduzirem-se uns aos outros com rigorosa gestação. Nunca vi caírem estrelas do céu, assisti a uma aurora boreal sem perceber o que se passava. Um dia, disseram-me que os eclipses serviam para anexar papéis. Acreditei. E cumpri o meu papel anexando-me a quem comigo quis manter o coração activo, não lhe dando descanso até que das águas se ergam os mortos, até que o deserto possa ser mais do que o habitat preferido dos escorpiões, até que, enfim, faça sentido garantir que só me descansará o coração quando aos da Palestina for oferecido o luxo de poderem morrer de tédio. 

Sem comentários: