terça-feira, 21 de março de 2017

OS EDITORES





Falidos a priori, sabem que em muitos postos de venda pouco mais poderão almejar do que uma prateleira escondida. Devemos-lhes a obstinação, uma vontade que virá porventura da mesma fonte que impele aquele que escreve a escrever. Uma vontade de fazer. De certa forma, editar é escrever. Não me refiro aos charlatães que de cidade em cidade apregoam o elixir da eternidade. Banha da cobra compra quem quer, mas compra, isto é, assume o custo material, a despesa, paga. Depois bate à porta a perguntar por si mesmo e não se encontra, dá com as fuças no descaso, cai em si, sente-se traído. A vaidade tem seus traumas. O editor não se faz pagar senão pelos livros que vai vendendo, assumindo riscos e investindo na esperança de um retorno. Sonha com lançamentos onde pelo menos a produção do objecto fique saldada. O mais será lucro. O autor sonha com simplesmente escrever, não ter que fazer o frete promocional da obra. Quando é frete. Excluirei os burlões, os tais que se fazem pagar publicando tudo quanto lhes seja proposto desde que a preço de tabela. Penso nos integrados, com colecções de tiragem reduzida percorrendo a via-sacra dos mercados. Três meses de validade numa livraria, com sorte em zona visível, para logo encontrarem o caos de um backoffice onde adquirirão a mesmíssima função reservada a qualquer um desses objectos que dão pelo nome de livro: ora créditos, ora débitos. O autor não pensa no assunto, o poeta não sabe, mas no final tudo acaba reduzido a isto, um tango de créditos e de débitos. A sustentabilidade é garantida pela quantidade, pelo acaso, por um prémio que abone publicidade e promoção, pelas redes de simpatia, pela recensão, por um título que ofereça fôlego financeiro, pelas parcerias com instituições dispostas a suportar, custear, patrocinar. Raramente a sustentabilidade se sustenta a si mesma, pelo que acabaram os exclusivos. Penso nos desalinhados, carregando às costas gozo e fome. Encontram em escassas livrarias uma hipótese de escoamento, investem nos sítios, nas redes sociais, em feiras, festas, encontros, soirées. Falidos a priori, optam por custos mínimos na produção e na distribuição. Com sorte, poderão fazer algumas reimpressões que irão dando para suportar a despesa e manter o gosto. Cada novo livro há-de ser uma nova aventura. Os desalinhados cultivam seus territórios. É tanto o papel que se imprime, são tantos os títulos, as palavras, as ideias, que seria absurdo tentar acompanhar o andamento da carruagem. Velocidade de cruzeiro que mantenha aberta a janela do fazer. Há nisto gente que são verdadeiros heróis, tudo no nosso tempo se lhes opõe. É verdade que nunca como hoje foi tão fácil e barato produzir um objecto, mas também nunca como hoje foi tão difícil respeitar um critério, manter os níveis de exigência, resistir à tentação meramente lucrativa, sustentar um projecto de saber. Isso. Um projecto de saber, um projecto que se distinga dos inúmeros elixires que ocupam o espaço e nos sufocam com promessas vãs. Raramente falamos dos editores porque eles executam o menos idílico dos papéis, obrigam-nos a pensar a realidade sem filtros, desligam-nos a antena do sonho sempre que neles pensamos. Paradoxalmente, parecem muitos deles saídos de um universo paralelo, de uma dimensão onírica onde as palavras do poeta tomam um sentido diferente: o editor quer, o homem sonha, a obra nasce. Semideuses, então, de uma estranha vontade, movidos a paixão e teimosia, os editores merecem ser falados neste dia. Todos os que realmente assim devem ser invocados, independentemente de seus feitios, têm uma missão que transcende as peias do negócio, a nobilíssima missão de insistir num lugar de sobrevivência para o saber. Não desistiram da cultura. Deus lhes pague.

4 comentários:

Marina Tadeu disse...

Carta de Vitor Silva Tavares a um então sequioso:

“Apetecia pedir ao poeta que se despisse de literatura. Porque das duas, uma: ou se usa fato próprio (que leva muito tempo a fazer ao feitio) ou é preferível a nudez - aquela condição one o silêncio e porventura o nada ganham sentido.”

hmbf disse...

Esse era editor.

Marina Tadeu disse...

Vi-o pela primeira vez aqui na Antologia. Um vídeo dele a falar com malta nova. Apaixonei-me e quis logo contratá-lo para mordomo.

hmbf disse...

Rico mordomo. Um luxo.