segunda-feira, 6 de março de 2017

SALVADOR

Há muito que não dedicava grama de entusiasmo ao Festival da Canção. Este ano, um novo modelo levou-me a ficar atento. Gosto de canções, gostei de algumas das que ouvi. Uma das que ficou para trás era das melhores, assinada por David Santos (Noiserv) e interpretada por uma tal de Inês Sousa. Maravilha. Remeteu-me para o universo da Hanne Hukkelberg. Mas só para conhecer o jovem Salvador Sobral já valeu a pena. Que cantor do caralho! A Luísa Sobral está de parabéns, porque escreveu uma grande canção. Podia ser cantada pela voz cavernosa do Tom Waits na fase Heartattack and Vine, mas a delicadeza do Salvador oferece-lhe um tom indescritível. Lembrei-me do João Gilberto e do Chet Baker e do Caetano enquanto o ouvia, arrepiado como uma galinha depenada e com as emoções a saírem-me dos olhos. É uma interpretação exemplar em qualquer parte do mundo:



P.S.: o aspecto desarranjado do intérprete fica mesmo bem a esta canção. Pode não ter sido de propósito, pode ser natural, mas é de uma felicidade incrível. É impor a simplicidade no circo espampanante das vaidades.  

24 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

A canção é linda. Gostava de a ouvir cantada pela mana.

hmbf disse...

Entretanto estive a ver vídeos no Youtube e fiquei ainda mais convencido. Tem um álbum do ano passado que me passou despercebido. Ouve esta: https://youtu.be/8Nglpp3QSiI . É genial.

MJLF disse...

Eu que não ligo patavina a estas coisas, gostei muito da canção, do poemas. E o rapaz canta muito bem :)

Cuca, a Pirata disse...

Olha que coisa tão linda...

Marina Tadeu disse...

Uma grande canção mesmo, Henrique. Deste lado a torrente ainda não se conteve. E sabes, não sei se é da velhice mas para mim é esse cada vez mais o critério que importa na recepção das coisas que se fazem. Se realmente toca, é bom, se precisa de um programa inteiro de críticas, entrevistas, justificações e enquadramentos, faz favor de rasgar tudo e voltar a tentar a mão.

Marina Tadeu disse...

Reparo agora que ele cantou isto sem som de retorno. Perfeito.
(Sniff)

hmbf disse...

Quando estava a ver e reparei nesse problema técnico, pensei: bem, isto ou descamba ou leva-nos a Marte. Acabou por me levar para lá do sistema solar :-)

Maria João, vai ao Youtube e procura cenas dele. É um cantor de jazz do caneco :-)

MJLF disse...

já andei a espreitar e gostei. A música do festival vi/ouvi por causa do nosso amigo Fernando Gomes. :)

hmbf disse...

ah, boa. o fernando também é dado às canções. abraço par ele.

Laura Ferreira disse...

há anos que não via o festival, mas este ano até consegui.
a canção é lindíssima e ficou belíssima cantada pelos dois manos :)

hmbf disse...

sim, em dueto também ficou bem :-)

Diogo C. disse...

O tipo esconde a debilidade vocal, que é óbvia, nos maneirismos aparvalhados do «ai, tanto sentimento que o que canto tem...»; em boa verdade, e só para falar da letra, é fraca. Tudo é fraco, no sentido de «mais do mesmo Portugal». Entre novo fado, poesia de lambreta, quotidiano. Nada novo, inovador, surpreendente, fora da caixa.

hmbf disse...

Quando o João Gilberto surgiu, houve uns tipos que tiveram exactamente o discurso do Diogo C. Ninguém sabe hoje quem eram, mas todos ouvem João Gilberto. É a vida.

Diogo C. disse...

Não sei se ouvem. Pouca diferença faz.

Esta poesia nhé nhé nhé que infecta a música pop não mainstream de Portugal, irrita-me profundamente. Nem paciência tenho, tão presumidos, tão discurso supostamente inteligente, e não passa de um trambolho emocional, mais trambolho do que catártico. João Gilberto idem.

Gostos, quanto a isso. Cada um com o seu. Eu prefiro música «fria»... deve ser isso.

Ora, dizer que tem grande voz é que não. Nunca. Tem maneirismos na entoação até ao enjoo. Tem sensualidade, pose, etc, por outro lado. Muito estilinho. Muita parra, pouca uva.

hmbf disse...

Discordo em absoluto. É um poema de amor lindíssimo. O João Gilberto foi um génio, basta ouvi-lo (não é preciso ler o Ruy Castro), nada há mais discutível do que os gostos, sempre que me dizem cada um com o seu penso logo em caralhos, não sei o que é música fria, desconheço as temperaturas da música, não tenho termómetros, não sei se disse que tinha grande voz, acho que não disse, mas nem isso me importa, o Dylan não tem uma grande voz e eu adoro-o, pelos maneirismos, gosto de cantores com tiques e trejeitos e modos de contornar deficiências naturais, acho que a arte é uma superação das limitações que a natureza nos impõe, não é inata, chamar a isto estilinho é enfim...

Diogo C. disse...

'É um poema de amor lindíssimo.' - Se todos gostassem de Al Berto, não sobraria ninguém para o Herberto.

Tudo é inato, na sua mais verdadeira natureza, tudo é inato. Se conseguimos dar a ilusão de que superamos? Sim, por breves momentos: cirurgia plástica para o corpo e, para a mente, arriscar. Por sorte, eu acho que o Salvador é mesmo assim, pelo menos no seu eu mais romantizado. O tipo passou pelo programa Ídolos, cantou umas charoladas; não era este, não era ele. Bem, pelo menos no seu «melhor» não era. Este Salvador-versão-Festival é um abuso.

hmbf disse...

Eu gosto do Al Berto e do Herberto, também gosto do Felisberto, mas esse não é para aqui chamado. Diogo, já nasceste a falar português? Eh pá, parabéns. Cantou umas charoladas no Ídolos. Atão o Stevie Wonder e o Ray Charles? Caneco, isso é mesmo má-vontade. Este Salvador é uma maravilha, e o CD, que desconhecia, também o é. Caramba, só a versão do Dorival Caymmi já merecia, vá lá, um benefício da dúvida.

Diogo C. disse...

Só hoje ao pesquisar sobre o Salvador (não vi o Festival) é que percebi que é irmão da Luísa Sobral, que conheço, desde o seu álbum de estreia (ouvi singles), promovido na Antena 3 ou assim. Outra que tal. Eu só acho abusivo os adjectivos. Maravilha, arrepiante, e que tais, quando para os meus sentidos isto não permanece, não acontece.

Ivo disse...

Diogo, o que é música fria?

hmbf disse...

Mas houve alguma canção concorrente ao Festival que para os teus sentidos tenha permanecido?

Diogo C. disse...

Nunca vi o festival. E não vai ser agora.

hmbf disse...

E o Sónar de Barcelona, marcha?

https://youtu.be/azYvgmJwJ64

hmbf disse...

Ou esta: https://youtu.be/k1T8HxgO7rw

Diogo C. disse...

Desconhecia esse autor. Não gostei.

Mentes indie novas, ouço os Wild Beasts, que sabem escrever poesia (agora, com o último trabalho, menos...), e muito pouco mais. Umas curiosidades.