quinta-feira, 16 de março de 2017

SONHO E UTOPIA



Tento imaginar que resposta poderia um artista como o marroquino mounir fatmi dar a um político declaradamente xenófobo na linha de Geert Wilders. Depois leio no Coma Manifesto uma declaração de princípio assaz expressiva: J'ai fait un très grand effort pour cesser de rêver. Procuro conciliá-la com a mensagem de abertura no sítio oficial do artista: Those who can still dream do not sleep any more. Uma arte desprovida de sonho é uma arte vigilante, a sua relação com a realidade pauta-se por uma leitura ainda alegórica, mas fortemente sugestiva no seu tacticismo político. Wilders sonha com uma Holanda expurgada de marroquinos, tem insónias a pensar como seria pura e bela a sua nação sem esses vírus vindos do Norte de África que a contaminam. Um artista marroquino interrompeu o sonho para se dedicar a representar o mundo em que Wilders actua. 



É, sem dúvida, imperioso que o sonho seja interrompido para que sobre o mundo em que vivemos seja possível exercer alguma lógica, encontrar algum sentido, vislumbrar os mecanismos que numa caótica rede de interesses mantêm a roda em movimento. As mulheres bomba de fatmi estão armadilhadas com cintos de livros à volta da cintura, a sua letalidade é o conhecimento e a cultura, aqui sintetizado num objecto que associamos naturalmente à erudição, à ciência, ao saber. É especialmente significativo que sejam mulheres.



No conjunto intitulado Save Manhattan transformou dois exemplares do Alcorão em representações das Torres Gémeas. Nova Iorque é reconstruída numa maquete com cassetes VHS empilhadas e numa outra com aparelhos de som. Som e imagem, ruído, livros, reúnem-se de um modo singular. A leitura elaborada por mounir fatmi é artística, mas não deixa de conter uma dimensão política intencionalmente subversiva. 



Ainda que gere controvérsia e provoque surtos de indignação, jamais será tão nociva como qualquer leitura levada a cabo por um político no poder. A questão que se nos coloca é, pois, acerca da nocividade do sonho na política ou, mais uma vez, acerca da nocividade das utopias. Uma interpretação precipitada levar-nos-ia a concluir ligações directas entre o sonho e a utopia. Não creio que assim seja. À utopia nós associamos tanto o impossível como a perfeição, uma edificação insular do bem e do belo a servir de horizonte. No fundo, a suma utopia pode ser a arte. Jamais a política. Esta é do domínio do ideal, como queria Platão, um domínio do qual se expulsam poetas e no qual se admitem mentiras úteis. O artista está pois condenado a representar o mundo no qual o político actua, intervém como um reflexo, não delineia territórios, antes provoca a sua ruptura mostrando quão exíguos e sufocantes estes podem ser. É neste sentido que será sempre um exilado. Quando a política o acolhe, é para o assimilar e posteriormente evacuar como a um dejecto. A primeira resposta terá pois de ser a interrupção do sonho, como forma de resistência a uma soporífera condição.

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