terça-feira, 28 de março de 2017

SONHO E UTOPIA



   Tento imaginar que resposta poderia mounir fatmi dar a um político declaradamente xenófobo na linha de Geert Wilders. Depois leio no Coma Manifesto uma declaração de princípio: J'ai fait un très grand effort pour cesser de rêver. Procuro conciliá-la com a mensagem de abertura no sítio oficial do artista: Those who can still dream do not sleep any more
   Uma arte desprovida de sonho é uma arte vigilante. A relação que mantém com a realidade pauta-se por uma leitura ainda alegórica, mas fortemente sugestiva no seu tacticismo político. Wilders sonha com uma Holanda expurgada de marroquinos, tem insónias a pensar como seria pura e bela a sua nação sem esses vírus vindos do Norte de África que a contaminam. Este artista natural de Marrocos interrompeu o sonho para se dedicar a representar o mundo em que Wilders actua. 



   É, sem dúvida, imperioso que o sonho seja interrompido para que sobre o mundo em que vivemos seja possível exercer alguma lógica. Para que seja possível vislumbrar sentidos, procurando compreender os mecanismos que numa caótica rede de interesses coloca em movimento nas rotas da (des)humanidade. 
   As mulheres bomba de fatmi estão armadilhadas com cintos de livros à volta da cintura, a sua letalidade é o conhecimento e a cultura, aqui sintetizado num objecto que associamos naturalmente à erudição, à ciência, ao saber. É especialmente significativo que sejam mulheres.



   No conjunto intitulado Save Manhattan transformou dois exemplares do Alcorão em representações das Torres Gémeas. Nova Iorque é reconstruída numa maqueta com cassetes VHS empilhadas e numa outra com aparelhos de som. Som e imagem, ruído, livros, reúnem-se de um modo singular. 
   A leitura elaborada por mounir fatmi é artística, mas não deixa de conter uma dimensão política que resvala para os terrenos de uma sátira intencionalmente subversiva. 



   Ainda que gere controvérsia e provoque surtos de indignação, jamais será tão nociva como qualquer leitura levada a cabo por um político no poder. A questão que se nos coloca é acerca da nocividade do sonho na política ou, mais uma vez, acerca da nocividade das utopias. Uma interpretação precipitada levar-nos-ia a concluir ligações directas entre o sonho e a utopia. Não creio que assim seja. À utopia nós associamos tanto o impossível como a perfeição, uma edificação insular do bem e do belo a servir de horizonte. No fundo, a suma utopia pode ser a arte. Jamais a política. Esta é do domínio do ideal, como queria Platão, um domínio do qual se expulsam poetas e no qual se admitem mentiras úteis. 
   O artista está condenado a representar o mundo no qual o político actua, intervém como um reflexo, não delineia territórios, antes provoca a sua ruptura mostrando quão exíguos e sufocantes estes territórios podem ser. É neste sentido que será sempre um exilado. Quando a política o acolhe, é para o assimilar e posteriormente evacuar como a um dejecto. 
   A atitude inicial deverá assim respeitar uma radical interrupção do sonho, ao contrário do que pretendiam os surrealistas. Termina aqui o fascínio exercido pela psicanálise no campo da criação artística. Como forma de resistência a uma soporífera condição, o sonho é interrompido para que a utopia se afirme com um sorriso no rosto.

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