domingo, 12 de março de 2017

VIAGENS NA MINHA TERRA #15


Percorro os arquivos da RTP como quem viaja no tempo, apercebendo-me que a viagem não me desloca nem do tempo nem do lugar onde me encontro. A paisagem de há 30, 40, 50 anos foi largamente transformada, mas o país mantém-se inalterado. Se um país são as pessoas que nele habitam, então conservámos a raiz de exílio que espalha pela atmosfera uma fragrância ao mofo dos que ficam. Uns forçados a partir, outros partindo porque não suportariam ficar, outros simplesmente atraídos pela alternativa da emigração, outros exilando-se dentro de si próprios, os que ficam só ficando por nada neles haver que reclame salvação. Caminham lentamente, cumpridores como um rebanho açoitado, de olhos cabisbaixos ou exibindo alegrias inconvenientes. Tudo parece em desacordo com tudo, Jorge de Sena aponta para o país do alto da sua exclusão, os mirones galanteiam as raparigas que embelezam as ruas com piropos de parco efeito. Mesmo que tenham mudado de indumentária, as pessoas insistem na pobreza de espírito. Viriato pousou a espada numa rocha e foi comprar gomas ao Centro Comercial. Será mesmo assim? Estarei a exagerar?
Cai uma chuva miudinha, caminho em solidão pelas ruas de Viseu. Estou alojado no Hotel Avenida, bem no centro da cidade, dizem-me que no quarto onde há anos terá pernoitado Humberto Delgado quando de uma varanda saudou a multidão que o aclamava em esperanças a breve trecho abortadas. Há placas comemorativas, fotografias que registam o facto histórico. Espanto-me sempre com a profusão de placas comemorativas disseminadas pelo país. Tendo passado por Nelas em busca do rastro do poeta António de Navarro, esquecido como convém aos melhores, verifico mais uma vez que a toponímia é a forma ideal de arrumar aquilo para que não queremos memória alguma. Noutras circunstâncias daríamos números às ruas e celebraríamos a memória dos que vale a pena recordar revisitando suas obras e feitos, mas quer o mínimo esforço que tonifica a nação placas de mármore como as que se oferecem aos mortos. As ruas cheiram mal, cheiram a placas toponímicas, é o cheiro dos cemitérios. Dar o nome de alguém a uma rua é oferecer-lhe o pior dos túmulos.
Acabo por encontrar Aquilino Ribeiro de costas voltadas para o mercado, numa escultura do cubano Yuraldi Rodríguez Puentes, sentado à secretária de trabalho observando os tais do mofo que, seis dias depois de ali ter sido inaugurado, banharam com ácido o bronze do autor de Terras do Demo. Talvez alguém perdido no tempo entre loas a Viriato e flores ao de Santa Comba Dão tenha idealizado o acto vândalo. Como sabê-lo? Certo é que mais adiante, rodeado de tascos, El-Rei D. Duarte mantém a sua impecável forma física, velando por todos quantos se excitam com um red light district à portuguesa perturbador dos bons costumes visienses. Subo à Sé Catedral e paro no meio da chuva a pensar em museus e monumentos e muralhas romanas e restos e rastos e rostos. Alguns esguelham-me com desconfiança, outros com desprezo, talvez ironia, parecendo perguntar: que faz aquele parvo à chuva? É à chuva que melhor se anda por terras do demo, respondo-lhes. Mas não me ouvem.
Também eu exilado no imo de mim mesmo, limito-me a trocar palavras circunstanciais com quem me serve o jantar. Outrora jornalista, regressado à terra, abriu um restaurante e procura refazer a vida. Quer saber o que faço por ali. Respondo-lhe que não sei, que vim em busca de poetas, passei por Mortágua mas já não encontrei o Fallorca, virei para Nelas mas ninguém sabia do Poema do Mar, subi a Lamego e era tudo Nossa Senhora dos Remédios, memórias da infância em turismo familiar, o Jorge Aguiar a contar-me de Tondela nervos que por lá ficaram, o Fausto Guedes Teixeira indeciso entre o amor e o ódio nestas tão estranhas terras do centro, um centro centralíssimo, nevrálgico, centro a norte, no esófago do país, centro diabólico. Outrora jornalista, abriu um restaurante e procura refazer a vida. Também este deslocado de si próprio, todos a desenrascarem-se com o ser aguardando exumação. Somos de um país que nos impede o ser, exigindo-nos que sobre ele inventemos o que não somos. Em nome da sobrevivência dizemos: não dá. E então dedicamos a vida à sobrevivência, pousamos a espada numa pedra e vamos ao Centro Comercial comprar gomas. 
Desvio-me para São Pedro do Sul em busca de repouso. Já me referi anteriormente a uma passagem termal por essas águas, não quero repetir-me. Por vezes, o corpo reclama seus spas. Sento-me à beira do Rio Vouga, escuto o passar das águas, há pontes belíssimas que as atravessam. No Hotel do Parque faz-se silêncio noite dentro, fecho os olhos a imaginar duas margens separadas por um caudal de águas chocas, uma ponte velha vitimada pela falta de manutenção. Sonho com margens separadas pelo tempo, o passado e o agora. Acordo estremunhado pela ausência de transformações de fundo, tudo permanece como estava apesar da paisagem transformada, o país mantém-se inalterado, um país de exilados que espalham pela atmosfera uma fragrância a bafio. Venho de uma zona de moinhos ao abandono, alguns recuperados para efeitos turísticos, mas em já praticamente nenhum deles demónios que valha a pena combater com espadas quixotescas. Não admira que Salazar tenha surdido destes ares, a ele devemos o bolor que ainda não expurgámos definitivamente das paredes da consciência. Que tantos ainda o amem, reforça-me as convicções.

Sem comentários: