terça-feira, 18 de abril de 2017

ACERCA DE "A GRUA"


Paulo José Miranda escreve sobre A Grua. Abra a imagem num novo separador para ver melhor ou siga para a edição on-line: aqui. Um excerto: 


Mas há alguma coisa boa neste livro? De outro modo, há alguma coisa boa que este livro nos mostre, para além da consciência cortante do estado miserável do mundo e dos homens? Há! Mostrar-nos que precisamos de ver. Não é urgente o amor. É urgente ver. É urgente a consciência da existência do fora de nós. Impossibilitados que estamos de nos olhar a nós mesmos, neste mundo que nos pisa, neste mundo em que o emprego nos suga as horas e a alegria e a possibilidade de pensar, e nos empanturra de entretenimento, é urgente olhar as coisas como se nos olhássemos a nós. Uma grua, um sapato, uma árvore que resiste nos baldios, podem despertar-nos para a nossa vida. Ver lá fora é preciso, diz-nos este livro. Talvez o diabo tenha criado o ecrán de televisão, o ecrán de computador, o ecrán, para nos impedir de ver o mundo, de ver as coisas, de ver os outros. Porque o mundo que nos aparece nos ecráns não é o mundo, mas um filtro do mesmo. No ecrán o que nos aparece é a distancia, uma distância em relação ao mundo. O mundo é o que nos é próximo. Embriagados de distância, afastamo-nos de nós e do mundo.

3 comentários:

Anónimo disse...

És um visionário. lamento.

maria disse...

"não é urgente o amor. é urgente ver." mas ver não é já o amor em acto? parece-me que sim.
sim, a desesperança, mas saber do olhar amoroso que permitiu a foto que ilustra a capa (que não é segredo)dá uma dimensão redentora (não encontro palavra melhor)a todos os desastres que a grua testemunha.

hmbf disse...

Agradeço o teu comentário, Maria, que muito aprecio. ;-)