segunda-feira, 24 de abril de 2017

BASEADO NUMA HISTÓRIA VERÍDICA

— Se tivesse de escrever um filme sobre a sua vida, por onde começaria?
— Pelo Magalhães.
— O navegador português?
— Não, o computador. Foi o meu primeiro computador. Acho que foi aí que a minha vida começou.
— Ah, daí este objecto.
— Sim, isso é tudo o que sobrou do saudoso Magalhães. Um adaptador. Eu era um jovem muito revoltado contra as velhas tecnologias. Sempre que saía uma nova, dava cabo da antiga... para que os meus pais investissem na minha educação.
— Então e ao Magalhães seguiu-se…´
— O ASUS. Foi uma outra fase da minha vida, deveras importante.
— O que fazia nesses tempos?
— Ahhh… saudosos tempos... Olhe, fartei-me de viajar. Calcorreava tudo o que eram chats, caixas de comentários da imprensa on-line, weblogs, e fartava-me de comentar,
— Que assuntos?
— Não interessava, desde que fosse para desestabilizar.
— Então era um troll?
— Não, era mesmo parvo.
— E as pessoas respondiam-lhe?
— Quais pessoas?
— As pessoas com quem se metia nas discussões.
— Geralmente, não. Por vezes, sim. Raramente. Quase nunca. Nem sei bem se havia pessoas, não estou certo disso. Mas eu procurava na mesma desestabilizar. Sempre fui muito dado ao conflito e à discussão, sou um adepto do espírito crítico.
— Bem, mas a atitude do troll opõe-se exactamente ao espírito crítico.
— Não seja imbecil.
— Lá está.
— O quê?
— Não conseguiu debater um assunto sem partir para o insulto.
— Você é um palerma, nota-se que desconhece a diferença entre um troll e um hater. Não têm nada que ver uma coisa com a outra. Você fala do que não sabe, devia morrer.
— Considera-se um hater?
— Não. Simplesmente gosto de insultar pessoas, de desestabilizar, de preferência no anonimato. Diverte-me, é um passatempo que me ocupa a alma. Toda a minha vida é um passatempo, é a vantagem que retiro disto.
— Então e qual é o momento mais alto da história da sua vida?
— O Mac. Ou talvez o smartphone. Mudaram-me ambos a vida.
— Como assim?
— Pude andar para sempre conectado, 24 horas por dia, em qualquer parte do mundo, permanentemente. Nas redes sociais, nos weblogs. Os de poesia são especialmente interessantes.
— Hmmm, muito bem, gosta de poesia.
— Não. Gosto de mandar bitaites, deixar comentários do tipo: “isto não é poesia, isto é uma bosta”. Os poetas são muito sensíveis, zangam-se facilmente.
— Interessante.
— O quê?
— A sua história de vida, é realmente muito interessante.
— Julgava que se referia à minha análise sobre o temperamento dos poetas.
— Não, referia-me mesmo à sua esplendorosa vida. À sua magnífica existência. Dava um filme incrível, imensos momentos interessantes para contar aos netos.
— Não tenho netos.
— Mas vai ter.
— Nem sequer tenho namorada.
— Mas vai ter. Ou namorado. Deixe lá, isso passa. Um dia terá uma vidinha. Isso passa.