quarta-feira, 5 de abril de 2017

EPÍSTOLA COM ATRASO



Querido amigo,

Desculpa-me resposta tão abrupta, mas nunca hei-de perdoar-me o tempo usurpado pelo trabalho. Precioso tempo que deveria servir-me para estar mais perto e presente, tempo que me falta porque a ele me entrego quando, e por isso não me perdoo, dele deveria libertar-me. Não consigo. Insisto em responder a quem não merece resposta, perco-me num labirinto de afazeres medíocres e deixo tudo o que realmente interessa por fazer. Tudo quanto engrandece um espírito humano é na minha vida secundado pelo dever e pela obrigação, criminosa arma de fogo que, ao fim e ao cabo, mantém viva a raiva de viver. Desperdiço assim a vida, consciente de que nada me absolverá à hora de dizer onde estava eu.
Vi agora o teu tremor. Que nada temas entretanto e tudo te pareça natural é o que mais desejo, para ti como o desejo para mim. A vida não nos merece, a morte ainda menos. Não porque sejamos especiais, que não somos. Vulgares como todos os demais, distingue-nos apenas esta mania de olhar para dentro das feridas e regalarmos os olhos com a verdade que delas surde. Digo que a vida não nos merece precisamente por dela termos ambos sido expulsos, cada um à sua maneira.
Mas fomos expulsos para onde? Para a morte não foi, que ainda por cá andamos acometendo a respiração. Estamos como que num limbo, tu condenado ao sofrimento de seres livre, eu condenado ao sofrimento de ser recluso.
Ainda hoje, na pausa para jantar, atendia um telefonema a pensar na miséria destes dias. Um amigo telefonou-me a ler versos novos, bons versos, autênticos e penetrantes como verdades pressentidas. Não lho disse, mas deveria ter dito, que me salvou as 24 horas de um dia desperdiçado num baile de fantasmas ridículos ao som de música ambiente. Ao nível dos versos que me leu, só mesmo o melro que ontem me visitou na livraria galgando gôndolas sob a forma de alucinação.
Estou certo de que não será desta que nos livraremos um do outro nem de todos quantos amamos. A morte nada quer connosco, anda entretida com homens de bom sangue. Somos ruins, temos a nosso favor a inclemência de um sonho descerrado. Que no momento de as pálpebras cederem, feches fortemente o abandono nos punhos. Que ao acordares, abras as mãos e largues no ar esse abandono como o pólen a soltar-se da corola de uma rosa silvestre.

Saúde,
h



Fotografia ao alto: Jorge Aguiar Oliveira.

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