terça-feira, 11 de abril de 2017

EXERCÍCIO N.º 1

Tomando como exemplo um excerto da peça O Tempo e o Quarto, de Botho Strauss, conceber um diálogo em que uma das personagens assuma a consciência de uma figura mítica.


Sala escura. Um foco de luz incide sobre um homem que se encontra de costas voltadas para o público. O homem está vestido como se regressasse do trabalho, usa gravata. À frente do homem está um espelho. O público vê o reflexo do homem no espelho.

HOMEM
Esta dor, onde está esta dor? Não consigo localizá-la. É como um bicho a percorrer-me o corpo através do sangue. Precisaria de um mapa para o meu próprio corpo. Estou cansado. Não entendo o meu corpo. Estarei cansado? Diz-me, responde-me, estarei cansado? Nada reconheço no meu reflexo, nada me diz. Por que te calas? Fala comigo. Preciso que me expliques onde está a dor que agora sinto em mim, preciso que a identifiques, que localizes o local exacto do meu corpo onde possa atacá-la. Não é o coração, há muito que não sinto o coração. Talvez me tenhas roubado o coração. Por que não falas comigo? Por que te fechas nesse silêncio como se não soubesses do que falo? Sei que sabes, estou aqui, falo contigo, olho-te, observas-me… Suplico-te, explica-me, diz-me onde está esta dor que sinto em mim.

Desaperta a gravata com um gesto muito lento.

HOMEM
Este grilhão que me aperta o pescoço durante o dia inteiro, este grilhão não me deixa respirar. Eternamente condenado a não respirar, levanto-me, caminho, deito-me, volto a levantar-me. Dia após dia após dia após dia após dia… Faço coisas. Serão coisas as coisas que eu faço? Serei eu quem as faz? Por que passo a vida a fazer coisas que não entendo? Não percebo. Talvez tu saibas e possas explicar-me de onde vem esta dor, onde está esta dor. Talvez saibas que ontem esforcei-me, fiz tudo para compreender o que não merece compreensão. Noites sobre noites de insónia, sem sonhar, sem ter com o que sonhar, cativo de uma dor ilocalizável. Fala comigo, Prometeu, oferece-me a luz do teu fogo, ilumina esta noite negra de insónia.

A pasta que o homem segurava cai no chão. O homem volta as mãos para o reflexo, mantendo os braços caídos.

HOMEM
Olha para estas mãos. Consegues vê-las, Prometeu? Que mãos são estas que trago amarradas ao pescoço? São mãos que suam. E ao suarem é como se chorassem. Incapaz de verter uma lágrima, eu choro através das mãos. Que coisa mais estúpida de se dizer. Um homem não chora através das mãos. Poderá o reflexo de um homem chorar através das mãos? Tu, que deténs a sabedoria do mundo, por que não me a ofereces e me libertas finalmente destas mãos. Liberta-me das minhas mãos, Prometeu. Suplico-te. Rouba-me de mim, rouba-te de mim. Odeio as minhas mãos, só me servem para coçar os pés. Odeio os meus pés. São pés que não caminham, não pontapeiam, apenas obedecem. São duas rochas pesadas. Talvez os teus pés possam caminhar nos meus. Falo contigo. É a mim que me dirijo. É comigo que falo. É a mim que me dirijo, Prometeu.

O foco de luz apaga-se subitamente. A sala permanece totalmente escura durante cerca de 10 segundos, voltando a iluminar-se lentamente com especial incidência sobre o homem. O homem está agora voltado para o público, encontra-se nu.

HOMEM
Fala comigo. É a ti que me dirijo.



Fim.



Exercício executado a 10 de Abril, no contexto de uma Oficina de Escrita Teatral orientada por Joseph Danan, no Teatro da Rainha.

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