quarta-feira, 12 de abril de 2017

EXERCÍCIO N.º 2


Imaginar um texto para teatro a partir desta fotografia de Gregory Crewdson, da série Dream House.


No palco reproduz-se exactamente o que observamos na fotografia. O homem e a criança mantêm-se estáticos. A mulher fala:

Que programa mais imbecil. Com sorte, adormecerei nos primeiros minutos. É só os comprimidos começarem a fazer efeito. Embalada pelas imagens, entregar-me-ei ao… Quem foi que disse? Se bem me recordo, era cineasta. Sim, realizava filmes. Sim. Uma vez cruzámo-nos com ele numa sala, fartámo-nos de rir quando o ouvimos ressonar. Qual era o filme? Merda, sou péssima com os nomes. Nunca me lembro de nada. Lembras-te? Claro que te lembras, estávamos tão felizes nesse dia. Tinha acabado de te dizer que crescia dentro de mim uma semente por ti plantada, a mais bela das tuas adoráveis flores. Que saudades desse dia, dessa noite, desses tempos. Paulo Rocha. Sim, acho que era o Paulo Rocha.

O homem, que continua estático atrás do vidro com a lâmpada na mão, esboça um sorriso. A mulher continua.

Só não consigo lembrar-me do nome do filme. Sou um desastre com os nomes. Tu adorava-lo. E contaste-me que certo dia o ouviste dizer numa entrevista que um bom filme é aquele que nos adormece. Eu interpretei isso literalmente, como sempre faço, mas perguntei-te que quereria ele dizer. Sou péssima com metáforas, não tenho jeito. Só sei que concordo, tudo quanto nos adormece é bom. Tu sorriste como só tu sabes sorrir, sorriste sem censurar o que eu dizia, sem criticar a minha inaptidão. Sorriste como quem encolhe os ombros, mas com ternura. Ora, quer dizer precisamente que um bom filme é aquele que nos adormece, disseste. Ah, como eu queria agora um bom filme. Que programa mais imbecil. Mas só dá disto agora na televisão? Acho que vou tomar mais um comprimido. A Rita adormecia sempre a ver televisão. Lembras-te? Estavas tão feliz. Uma vez adormecemos todos a ver… Qual era o filme? Meu Deus, sou desastrosa com os nomes. Não fixo nada, esqueço tudo. Só não esqueço o que… Só não esqueço o que me tira o sono. Como posso esquecê-lo? Queria esquecer. Queria esquecer e adormecer para sempre enrolada no manto do esquecimento. Mas é impossível. Merda de metáforas, odeio metáforas. Prefiro-te a ti nos roseirais, como Diógenes com uma lâmpada na mão à procura de um homem honesto.

O homem ergue ligeiramente a lâmpada, inflecte a cabeça na sua direcção e observa-a por breves segundos. Volta ao estado inicial. A mulher continua:

As tuas rosas não mentem. Se têm sede, murcham. Sei que murcham. Uma vez esqueci-me de regá-las e ficaste furioso. Disseste-me que de tudo no mundo jamais poderia esquecer-me de regar as rosas. Estavas com a Rita ao colo, lembro-me bem. Destas coisas lembro-me bem. Adoravas o cheiro dela, o cheiro a bebé. Era tão pequena, a nossa Rita. Cheirava a rosas. A mais bela das tuas rosas. Um sonho de criança. Nunca nos deu uma má noite. Adormecia a ver televisão. Acho que vou tomar mais um comprimido. Que programa mais imbecil. Só queria que aqui estivesses. Seria tudo tão mais fácil, por certo já estaria a dormir. A Rita deitada no chão, tu nos roseirais, a olhar para nós. Seria como num sonho. Meu Deus, porquê? Por que me os roubaste? Que cruel tens sido para mim. Não merecia. Não mereço. Eu só me esqueci de regar as rosas.

A mulher fecha os olhos. O homem abandona a posição estática, pousando a lâmpada no chão. Abre a porta da varanda e entra na sala. Senta-se no sofá. Olha para a criança deitada no chão, depois para a televisão e, por fim, para a mulher. Suspira. Diz:

Sentes-me? Será que me sentes aqui? Conseguirás sentir-me? Preciso saber se me sentes aqui sentado, ao teu lado, a olhar por ti. A olhar para nós. Dá-me um sinal. Preciso de um sinal.


(a desenvolver)


Exercício executado a 11 de Abril, no contexto de uma Oficina de Escrita Teatral orientada por Joseph Danan, no Teatro da Rainha.

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