sexta-feira, 14 de abril de 2017

EXERCÍCIO N.º 5


Tendo em conta o conceito de peça-paisagem, elaborar um texto teatral a partir do quadro de Paula Rego reproduzido ao alto.

O cenário é uma lixeira repleta de objectos abandonados, quadros antigos, bonecas, livros, roupa, um carrinho de bebé, brinquedos diversos. Cinco actores com um aspecto andrajoso circulam aleatoriamente, movimentam-se na posição de respigadores, remexendo o lixo. Um ronca como um porco, outra muge como uma vaca, um zurra como um burro, outra cacareja como uma galinha, outro fareja como um cão. De cada vez que um fala, todos os outros o escutam atentamente. Não interagem. Durante os primeiros cinco minutos limitam-se a circular aleatoriamente remexendo o lixo, comportando-se como animais. O homem-porco agarra num hipopótamo de peluche e começa a observá-lo. Todos os outros param a olhar para ele. Diz:

Parece mesmo um porco. Tem o focinho demasiado desenvolvido para ser um porco. Talvez seja um cão. É um porcão.

O homem-cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente, cacarejando, zurrando, mugindo, roncando, farejando. A mulher-vaca retira do lixo um hábito de freira e veste-o. O hábito tem de ter as cores preta e branca. A mulher-vaca mostra-se vaidosa com o seu hábito de freira preto e branco.

Se encontrasse por aqui umas ervas fresquinhas, seria uma vaca feliz. Talvez desse leite para vos alimentar a todos, do leite faríamos queijo e do queijo… Ah, que saudades de um bom queijo.

O homem cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente, intensificando os grunhidos. O homem-burro encontra no meio do lixo uma corda e começa a saltar à corda. Todos os outros param a observá-lo. Diz:

Sou um cavalo, sou um cavalo! Hei-de saltar todos os obstáculos, serei o mais rápido dos cavalos e farei o meu jóquei feliz. Sou um cavalo, um puro sangue latino!

O homem-cão ladra. Regressam aos movimentos aleatórios. Repetem-se os grunhidos, cada vez mais intensamente. A mulher-galinha pega no carrinho de bebé. Todos os outros a observam. Diz:

Não posso pôr o carro à frente dos bois, isto é, não posso pôr o carro à frente do galo, isto é, não tenho um galo, isto é, onde poderei eu desencantar um galo, isto é, estou tão necessitada de um galo, isto é, que galo não haver um galo por perto.

O homem-cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente. Os grunhidos são insuportavelmente violentos, estão todos muito agitados, cada vez mais agitados. O homem-cão ladra. Param todos a observá-lo. Ele retira do lixo uma imagem de São Sebastião. Diz:

Ah, que mártir tão belo. Quem será? Talvez consiga descobri-lo na Wikipédia.

Retira um smartphone do bolso das calças de mendigo. Liga-se à Internet, pesquisa por «santo flechas», abre o artigo da Wikipédia dedicado a São Sebastião e começa a lê-lo:

São Sebastião (França, 256 d.C. – 286 d.C.) originário de Narbonne e cidadão de Milão, foi um mártir e santo cristão, morto durante a perseguição levada a cabo pelo imperador romano Diocleciano. O seu nome deriva do grego sebastós, que significa divino, venerável (que seguia a beatitude da cidade suprema e da glória altíssima). Ele teria chegado a Roma através de caravanas de migração lenta pelas costas do mar mediterrâneo, que na época eram muito abundantes por causa do mar mediterrâneo e o Sahara e os dias não tão quentes por causa da latitude em torno de 40°. De acordo com Actos apócrifos, atribuídos a Santo Ambrósio de Milão, Sebastião era um soldado que teria se alistado no exército romano por volta de 283 d.C. com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão e, por isso, o designaram capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas…

O homem-cão é interrompido pelos restantes, que o olham enfurecidos, apontam-lhe os dedos, grunhem como animais enraivecidos. O homem-cão ladra furiosamente, procurando impor-se aos restantes. Todos se calam, mas logo começam a chamar-lhe infiel. A mulher-vaca despe o hábito de freira e arremessa-o contra o homem-cão. O homem-porco atira-lhe ao focinho o hipopótamo de peluche. A mulher-galinha atira-lhe o carrinho de bebé, provocando a queda do homem-cão. O homem-burro chicoteia o homem-cão com a corda que tinha encontrado no lixo. Todos gritam:

Infiel, infiel, infiel!

(fim)


Exercício executado a 13 de Abril de 2017, no contexto de uma Oficina de Escrita Teatral orientada por Joseph Danan, no Teatro da Rainha.

4 comentários:

MJLF disse...

gosto muito! :)

hmbf disse...

:-)

ZMB disse...

Permita-me interagir consigo, para além de dizer um simples «gosto»
http://zmb-mur.blogspot.pt/2017/04/e-se-o-homem-cao-tivesse-encontrado.html

hmbf disse...

:-)