quinta-feira, 13 de abril de 2017

MOMENTOS ANTES DA EXPLOSÃO

No dia em que foi lançada a mãe de todas as bombas

Momentos antes da explosão
os trânsitos circulavam normalmente
um condutor era fiscalizado
no âmbito da operação via livre
Taurus e Cassiopeia brilhavam a olho nu
por cima de um claro céu
obnubilante

A manhã exibia seu perfil mais insuspeito
com filas de jovens carregando nas mochilas
pesados manuais para a conquista de futuros
Filas de mochilas lãzudas
aos ombros da juventude marchante

Berenice deu por aberto o quiosque
depois de pendurar na soleira
um vaso com margaridas
Margarida saiu de casa revestida de flores
numa redundância polissémica
cativa de mirones

O sol raiava por entre nuvens finas

Por cima por entre por baixo
de tudo quanto se ergue todos os dias
seria uma manhã perfeita
se feitas não fossem todas as manhãs
de grotescas prefeituras

Como que pairava no ar um clima
ameno de novo dia mesmo dia
e até a filha do homem voltou para trás em busca
de um molho de chaves algures esquecidas

«É sempre a mesma coisa» —
bocejou Deus ao roncar dos motores
e por transferência somática de núcleo
todos os restantes animais
bocejaram à semelhança do criador
enquanto prosseguiram em silêncio

progredidos agredidos gregários
feridos de mortes que se não vêem
como Andrómeda na companhia
de seus sete filhos predilectos

Foi numa manhã como todas as outras
desperdiçada entre atrasos agitados
pressas sonolentas e saudades-brancas
que a determinada altura o mundo parou

Aquilo a que chamamos mundo:

gaivotas a planarem no céu seus urros
ratazanas especadas a espreitarem
pelos bueiros homens estarrecidos
com tamanho silêncio

Henrique olhou à sua volta
permanecendo no centro de um círculo
que desenhou no ar com os olhos
uma perspectiva de sublevados 360 graus

isto não pode estar a acontecer
disse
isto não pode estar a acontecer
repetiu

e na manhã outrora jazente
as mulheres penduraram nos estendais
seus maridos desprovidos de sonho
Precisos momentos antes da explosão

aceleravam de um lado para o outro
grupos informais de baratas tontas
discutindo Kant lendo Kierkegaard sublinhando Kleist

KKK de espirituosas criaturas
tão embrenhadas nos livros
fundidas com as páginas como a cola com o ar
colando pedacinhos de ar no vidro das teorias
cinzeladas a custo
com os martelos pneumáticos do pensamento

Puta que pariu as teorias os sistemas
numa gloriosa manhã como esta
magnificamente leviana e luxuriante
condizente com as pernas da mulher por debaixo
do vestido
Manhã de luz
aranha capturada em teia própria
pássaro em voo picado
estatelando-se no alcatrão submerso
por charcos de regadio

Momentos antes da explosão
breves instantes vivos de uma banda sonora
em ondas propagadas longitudinalmente
morcegos, baleias, golfinhos
ajustaram infra-sons em canal FM

A fêmea pariu um monstro
a que só por respeito poderemos
chamar filho
A custo cuspiu seus venenos
preparou mezinhas simpatias conjurações
na calada de uma rarefeita água-furtada
temendo que lhe chamassem bruxa
e a queimassem numa fogueira
de impropérios

Não não não não não
não posso ter parido tamanho monstro
nesta manhã tão bela
de pássaros embalados pelos lamentos dos poetas
de águas vertidas por amantes em fúria
de corolas desabrochando vénias solarengas

O que fomos nós fazer?
agora é tarde
a manhã passou

Porque as mães caminham em terras desconhecidas
Como árvores cambaleantes
trazem seus filhos pela mão
enquanto os homens engendram
o gérmen do terror
a que chamam eufemisticamente
a mãe de todas as bombas
por terem olvidado a mãe que os pariu
por nem sequer lhes passar pela cabeça
quão insultuoso pode ser dar o nome de mãe
a uma coisa que mata

Quanto tempo nos resta até ao final do dia?
Estou só e agonizo
pelo meu corpo perpassam tais sombras
de um sonho interrompido
os nomes de todas as cidades

Penso nesses instantes anteriores à explosão
como tudo seria corrente
e ironicamente libertador
penso nas horas investidas na nudez
desvestidas
e por tal sorte puras
como outrora as cristalinas macumbas
do saber

Rio do meu desespero
talvez já esteja morto e não me tenha apercebido
com sorte ainda é manhã
e tudo se mantém suspenso nessa fracção
de segundos que precede a explosão

E dentro dessa fracção de segundos
desmultiplico a eternidade
com um canto sombrio a um canto luminoso
atenho-me a tudo quanto respira
e a tudo quanto não respirando
é como se respirasse

Suponho que em certas pedras
vibre mais vida
do que no coração de muitos homens

Tremendo cansaço
a mãe de todas as bombas foi lançada
suponho que em nome de todas as mães
que pariram órfãos
que geraram defuntos
que no ventre trazem carreiros de formigas
perscrutados exaustivamente
nas ampulhetas do senhor

Uivam as formigas no interior desses ventres
são lobos microscópicos encurralados nos fojos da cobiça
procuro entendê-los
fracasso nos meus intentos

Vão desígnio vã glória
dissolvida no ar dos tempos
a virtude é o líquido amniótico de uma inominável
monstruosidade
Varremos da terra quem mais a queria
venerando chuvas e trovões
o sol saibroso dos pântanos
deitámos a perder luas cheias
com que se concebem  filhos pródigos
para estancarmos no mais cruel dos meses
elaborando velhas questões:

“What shall I do now? What shall I do?”

Momentos antes da explosão
nas aldeias de xisto
um burro levantou a cabeça
e olhou de esguelha o turista
que embevecido com o olhar dócil do burro disse

Yes
ao que o burro respondeu
zurrando


(inédito)

2 comentários:

M disse...

Lindíssimo, obrigada.

hmbf disse...

Eu é que agradeço o comentário.