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quarta-feira, 31 de maio de 2017
TABERNAS
Como um perigoso labirinto, a grande metrópole contém armadilhas aparentemente anestesiantes mas destinadas a tornar irreversível a submissão das vítimas. É o caso das tabernas. Nas aldeias, estes estabelecimentos eram uma espécie de anti-igreja, o sítio onde aos domingos, à hora da missa, os aldeãos não praticantes tinham encontro marcado. Mas embora esse templo báquico assustasse um pouco a comunidade dos crentes com a sua ruidosa espontaneidade, era necessário à vida social e os transbordamentos perigosos eram evitados pelos mesmos aldeãos.
No ambiente citadino não havia autodisciplina. Quase sempre desnaturado, o álcool devia ser vendido sem limites e dar lucro máximo, se necessário envenenando os consumidores. Muitos operários gastavam o seu magro salário e arruinavam para sempre a saúde nesse sórdido antro. Contrariamente ao operário resignado, o herói abstém-se sempre de entrar na taberna.
Carlos Fonseca, in Mitos e Lendas Bíblicas no teatro português de temática operária, in Flauta de Luz, n.º 4, edição de Júlio Henriques, Abril de 2017, pp. 110-111.
COMEÇOU A PARVALHEIRA
As autárquicas aí estão. Por arrasto, o pior do folclore
nacional espalha-se pelas ruas na figura de outdoors. Por aqui já deu para
constatar a candidatura de um individuo com o apelido de Patacho. É quase tão
bom como Cafôfo, mas presta-se a trocadilhos de outra índole. O Malomil tem
vindo a partilhar alguns exemplares desse tal folclore. Três
exemplos que parecem mentira:
A DESGRAÇA ÁRABE
Quando há anos andei pelo Egipto, uma das perguntas que
mais vezes registei entre turistas foi: "por
que nos odeia tanto esta gente?" Podemos supor a mesma questão formulada, em inúmeras circunstâncias, por um qualquer herdeiro da cultura
árabe, esteja ele em Bagdade, Alepo ou Cabul. Reencontrei o problema,
recentemente, num excelente ensaio do historiador libanês Samir Kassir (1960-2005), assassinado em Beirute na sequência de um atentado com veículo
armadilhado. Em Considerações Sobre a Desgraça Árabe (Edições Cotovia, 2.ª
edição, Maio de 2017), Kassir formula a pergunta “Porque é que eles nos odeiam?”
a partir de uma reflexão acerca da vitimização que, em grande parte, vem alicerçando o
islamismo jihadista, obstaculizando uma afirmação progressista da cultura árabe
no mundo. Declaradamente laico, o autor não se inibe de citar Nietzsche para colocar
essa islamização das sociedades árabes ao nível de «uma visão da religião como
sistema de crueldade» fortalecida pelo culto do sangue e da morte. Ora, a principal razão pela qual nos interrogamos quanto
a um eventual ódio que separa o Oriente do Ocidente tem que ver, quanto a mim,
com uma terrível ignorância do outro, caricaturada, por cá, no preconceito etnocêntrico
de que tudo quanto é bom só reconhece a assinatura da civilização
ocidental. Facilmente a história desmentiria o preconceito, mais ainda num caso
como o português onde a presença árabe deixou marcas culturais suficientemente
fortes para não ser esquecida (mais que não seja na língua que falamos todos os
dias).
Tempos idos, como é óbvio, incapazes de evitar «que o olhar europeu sobre os árabes raramente seja desprovido de emoções, do mesmo modo que alimenta o rancor dos árabes por já não serem depois de terem sido». Tanto assim é que quando algo de belo e de positivo chega dessas bandas a tendência é para justificarmos o achado com a ocidentalização dos povos. Interiorizamos diariamente, apoiados numa opinião mediática desinformada, a ideia do mundo árabe como mundo parado, estagnado, deveras atrasado face ao ocidente, embora próspero em sociedades localizadas, mas fechadas às liberdades sociais, castrador da criatividade artística, homofóbico, machista, mundo de príncipes multimilionários e povos miseráveis, região politicamente instável, viveiro de fundamentalistas capazes de espalhar o terror internacionalmente. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 agravaram o panorama, fazendo-nos esquecer, a título de exemplo, que um dos principais arquitectos de tais ataques foi um amigo do Ocidente outrora apresentado pela imprensa norte-americana como herói ao serviço da liberdade enquanto combatia o avanço da URSS pelo Afeganistão. Nunca será excessivo recordá-lo.
Tempos idos, como é óbvio, incapazes de evitar «que o olhar europeu sobre os árabes raramente seja desprovido de emoções, do mesmo modo que alimenta o rancor dos árabes por já não serem depois de terem sido». Tanto assim é que quando algo de belo e de positivo chega dessas bandas a tendência é para justificarmos o achado com a ocidentalização dos povos. Interiorizamos diariamente, apoiados numa opinião mediática desinformada, a ideia do mundo árabe como mundo parado, estagnado, deveras atrasado face ao ocidente, embora próspero em sociedades localizadas, mas fechadas às liberdades sociais, castrador da criatividade artística, homofóbico, machista, mundo de príncipes multimilionários e povos miseráveis, região politicamente instável, viveiro de fundamentalistas capazes de espalhar o terror internacionalmente. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 agravaram o panorama, fazendo-nos esquecer, a título de exemplo, que um dos principais arquitectos de tais ataques foi um amigo do Ocidente outrora apresentado pela imprensa norte-americana como herói ao serviço da liberdade enquanto combatia o avanço da URSS pelo Afeganistão. Nunca será excessivo recordá-lo.
A recente visita de Donald Trump à Arábia Saudita,
seguida de passagem estratégica por Israel, é mais simbólica do que possa
parecer, na medida em que torna clara a hipocrisia da realpolitik que
governa as relações internacionais entre o capitalismo ocidental e o médio
oriente. Desinteressados das populações, os líderes de cada um dos lados
apertam cinicamente as mãos depois de assinarem acordos comerciais que em nada
fazem transparecer preocupações de fundo com a realidade, seja ela o conflito
israelo-árabe enquanto fonte de repetidas frustrações para a parte oprimida, a
islamização da luta árabe e o recrudescimento do fundamentalismo na sequência
da invasão do Iraque ou, por consequência, a guerra na Síria e a visível
incapacidade do Ocidente em lidar com as hordas de refugiados oriundos da
região. Citando o texto de Samir Kassir: «Concentram-se aqui os
três males que obstruem o futuro: a ditadura, e que ditadura, sempre traumática
mesmo depois de ter desaparecido, a ocupação estrangeira e, devido às
derrapagens da ocupação, a violência cega que se justifica pelo messianismo
religioso» (p. 37). O massacre continua, ontem em Manchester, hoje em Cabul, amanhã sabe-se lá onde.
O défice democrático, não exclusivo dos árabes, talvez seja o mais grave dos males que obstruem o futuro, porventura por se conjugar no mundo árabe «com uma hegemonia estrangeira, o mais das vezes indirecta, por vezes apenas económica, mas que outras vezes, nos casos mais extremos — como o da Palestina e, agora, o do Iraque —, se aparenta a um novo colonialismo» (p. 49). Conseguem imaginar um senhor a olhar para os escravos enquanto se questiona: por que me odeia tanto esta gente? Talvez por se sentirem impotentes perante a força dominadora, talvez. Mas a mensagem de Samir Kassir é optimista, é anti-vitimização. Sem rejeitar o passado optimista do mundo árabe, ilustrando-o com exemplos de progresso e multiculturalismo que a historiografia ocidental tende a largar na penumbra, ele não deixa de apontar as causas e os efeitos de um processo de decadência e deterioração de praticamente todo o Médio Oriente. Como ultrapassar o tempo da desgraça?
«Isto passa em primeiro lugar por uma re-perspectivação do estatuto de Vítima ou, por outras palavras, por uma relativização do estatuto de vítimas a que as sociedades árabes se habituaram: não cultivando uma lógica de poder ou o espírito de vingança, mas aceitando a ideia de que, apesar das derrotas, o século XX trouxe aos árabes um certo número de conquistas graças às quais podem participar na marcha do mundo. Mas é preciso também, simultaneamente, rejeitar o pragmatismo que procura legitimar-se no culto da vítima: se não se pode aceitar que o fim justifica os meios para os poderosos, há que saber recusar isso também às vítimas. Na prática, isto significa não confundir o terrorismo com a resistência, pelo facto de o Ocidente confundir a resistência com o terrorismo» (p. 130).
O défice democrático, não exclusivo dos árabes, talvez seja o mais grave dos males que obstruem o futuro, porventura por se conjugar no mundo árabe «com uma hegemonia estrangeira, o mais das vezes indirecta, por vezes apenas económica, mas que outras vezes, nos casos mais extremos — como o da Palestina e, agora, o do Iraque —, se aparenta a um novo colonialismo» (p. 49). Conseguem imaginar um senhor a olhar para os escravos enquanto se questiona: por que me odeia tanto esta gente? Talvez por se sentirem impotentes perante a força dominadora, talvez. Mas a mensagem de Samir Kassir é optimista, é anti-vitimização. Sem rejeitar o passado optimista do mundo árabe, ilustrando-o com exemplos de progresso e multiculturalismo que a historiografia ocidental tende a largar na penumbra, ele não deixa de apontar as causas e os efeitos de um processo de decadência e deterioração de praticamente todo o Médio Oriente. Como ultrapassar o tempo da desgraça?
«Isto passa em primeiro lugar por uma re-perspectivação do estatuto de Vítima ou, por outras palavras, por uma relativização do estatuto de vítimas a que as sociedades árabes se habituaram: não cultivando uma lógica de poder ou o espírito de vingança, mas aceitando a ideia de que, apesar das derrotas, o século XX trouxe aos árabes um certo número de conquistas graças às quais podem participar na marcha do mundo. Mas é preciso também, simultaneamente, rejeitar o pragmatismo que procura legitimar-se no culto da vítima: se não se pode aceitar que o fim justifica os meios para os poderosos, há que saber recusar isso também às vítimas. Na prática, isto significa não confundir o terrorismo com a resistência, pelo facto de o Ocidente confundir a resistência com o terrorismo» (p. 130).
Para que a desgraça seja ultrapassada é preciso que autores como Samir Kassir ganhem voz, que as suas reflexões penetrem a consciência dos povos como um vírus e nela se instalem favorecendo o crescimento da laicidade contra a ignorância alimentada pelo discurso religioso. Todo o discurso religioso, pois é sempre da ignorância do outro, mesmo que revestida de tolerância, que ele se alimenta - estropiando a singularidade da pessoa humana ao mesmo tempo que vincula o indivíduo a um absoluto supostamente universal.
Samir Kassir, in Considerações Sobre a Desgraça Árabe,
trad. António Gonçalves, Edições Cotovia, 2.ª edição, Maio de 2017.
terça-feira, 30 de maio de 2017
UM POETA TRANSGÉNERO
Não há outra forma de o dizer: Thurston Moore, aos 50 e
tal anos, virou hippie e receia-se seriamente que não haja caminho de regresso.
Consolemo-nos, então, com o facto de, musicalmente, Rock’n’RollConsciousness ser o seu melhor álbum desde o fim dos Sonic Youth...
João Lisboa, aqui.
REMINISCENTE
(Poema anti-saudosista)
1
Apagou-se o candil duma antiga saudade
Que me acenderam numa sala da memória,
Onde sozinho me deixaram
À espera que chegasse o médico da casa.
Eu padecia de lembranças sucessivas,
Incongruentes, interseccionadas,
Como a sombra das árvores quando as luzes
São móveis e de vária intensidade.
(Mordomo, por exemplo, do castelo
Onde já fui morgado,
Agora ia sofrendo a mágoa de o não ser
E após sentia a dor de me saber sonhando
sem poder acordar).
2
Irado porque o espelho onde pousei a fronte,
Liquefeito ao calor da minha febre
Me entrou pelos olhos dentro,
Bati com toda a força numa esquina do fogão
Até partir o crânio e despejá-lo a rir
De ter posto lá fora o espelho impertinente.
Depois fui assentar-me numa nuvem
De tabaco holandês que roubei a meu pai,
À espera que chegasse o médico da casa.
Mas, ai! a dor já era doutro lado,
Oriunda, talvez, do tanque onde eu brincava
E um dia me afoguei sinceramente
E fui comido pelas rãs e pelos sapos.
3
O relógio de pinho, a fingir de borracha,
Caía da parede ao chão e vice-versa;
E o cuco, sem tirar os olhos da cadeira
Onde eu me fui sentar,
Surripiava as horas lá de dentro
E atirava com elas à vidraça
A fingir que era o tempo.
Eu não sei se dormia ou se estava a pensar
Que tudo isto me podia acontecer,
No reino felizmente ainda ignoto
Da Quarta Dimensão:
— Mas a verdade é que senti outra pontada
Por causa da sirene que silvava
Dentro dum frasco de remédio,
Onde vi naufragar o titanic.
4
Ai, que tristeza a minha! Ai, que tristeza!
Tão jovem, tão sportivo,
E o peito, assim, tão cheio de Passado,
Arfando molemente
Como debaixo d'água!
(Embaciadas, lúgubres lembranças
Da minha meninice...)
Ali cheirava tanto a coisas esquecidas
Em gavetas fechadas e sem chave
Por serem recordações!
Ali doía tanto a glória de ser novo
E ter nascido português e ser
Romântico hereditário!
"Tenham pena de mim, vamos! Lamentem
Que eu não seja do Norte!
Ensinem-me a sorrir nos lábios tendo
O claro frio dos fjords!
Digam todos em coro que sou esbelto
E penso escandinavo!"
(Isto sonhando, assim, como dizendo,
O cabelo rasgava por não ser
Do louro natural das novas raças.)
5
Mais densa do que o ar a nuvem desce
Comigo e pousa sobre a secretária;
Espalha-se o tabaco pela sala...
— E agora, com o pai quase a chegar,
Amanhã já não vou ao cinema.
Se eu tivesse uma irmã era ela
que dizia que foi o vento:
Mas eu não tenho olhos de donzela
Para mentir com talento...
6
A febre que me vem das penas de pavão
Em jarras, — porque a avó não tem superstições, —
Sobe tão alto que o mercúrio
Rebenta no termómetro.
(E o médico sem vir
Curar a minha dor destas coisas antigas
Que me entraram nos olhos como espigas
E não podem sair, e não podem sair!)
7
Mas o pior não é isto: o pior
É que Morfeu não tarda aí
De dentro daquele armário,
Com um abismo — pérfido! — nos braços,
Coberto com papel e um sorriso,
— Como um açafate de flôres.
Tem muita graça, não tem?
Vir assim abusar de um espírito indefeso
Que na terra surgiu num sem-querer de cardos,
Como criança maltratando
Um pássaro engaiolado!
8
Se batessem à porta e me acordassem!
Se alguém se debruçasse sobre mim
E levemente pelo nome me chamasse,
Se alguém se debruçasse sobre mim
E levemente pelo nome me chamasse,
— Era o bastante, como antigamente,
Para ir p'rá escola...
Sim, porque embora tudo isto seja sonho,
Metade d'alma está desperta e atenta
Sofrendo pela outra,
Como um burguês numa janela sofre
Ao ver um ébrio passar na rua.
9
Ah! o passado, o passado!
Que ventoinha, que remoinho,
Que sorvedouro inexorável!
— Todas as bolas se perdiam agora para sempre
No encantado canteiro do jardim,
Que era em frente da nossa casa
O meu recreio predilecto:
Mesmo quando a fingir ao destino sem querer
(Heróica experiência que recorda
O papagaio de Franklin),
Ao ar as atirava no sentido
De lá irem cair — o saudoso canteiro! —
Onde as últimas horas dessas tardes
Em vão perdia a procurá-las...
E o doce mistério do profundo
Escuro poço esvaziado,
Quando os ramos a arder que eu lá cair
Deixava, a meio sempre se apagavam?!
E o som das pedras atiradas
P'ra dentro da cisterna?
— Que tardes esquecidas a escutá-lo,
Sozinho, na herdade! que Infinito
As vibrações sonoras da água me eram
No quase-espasmo de senti-las!
10
Ah! o passado, o passado!
Não conhecem aí nenhum dentista
Que me arranque este dente cariado?
Para que quero eu isto? (esta saudade?)
Eu, que não sou filatelista,
Nem numismata, nem bibliófilo,
Nem arqueólogo, nem nada
Disso, que vai além de ser sif'lítico?!
11
Aquela vez? aquel' passeio?
Aquela menina que me disse
"Pois sim, quando quiser"?
Aquela criada velha que me queria
Como se eu fosse seu filho?
O colégio? o avô? as férias grandes?
Os meus brinquedos? o meu fato de marujo?
Tudo isso passou, tudo isso morreu!
Com isso já não posso fazer nada
E cheira mal, — mesmo se cheira a flores, —
E sabe mal, — mesmo se sabe a frutos! —
A memória devia
ser uma espécie de cabelo
que a gente cortasse quando quisesse...
(Mas finalmente, finalmente
Vêm bater à porta! Vem aí,
Com certeza, o café! Já ouço mesmo
Chamar por mim: MENINO...)
E eu volto a ser igual a toda a gente.
Lisboa, 1925.
Carlos Queirós (n. 1907 - m. 1949), in Presença, n.º 23. O desaparecimento precoce não o impediu, apesar da obra curta, de se tornar num dos mais representativos poetas presencistas. A primeira edição de Desaparecido data de 1935, tendo merecido à época rasgados elogios do colega Fernando Pessoa — que viria a falecer nesse mesmo ano. Na História da Literatura Portuguesa, A. J. Saraiva e Óscar Lopes dedicam-lhe uma linha lacónica: «verte em formas mais flexíveis mas cantantes a temática lírica tradicional». Adolfo Casais Monteiro coloca-o como discípulo directo de Fernando Pessoa, ou seja, em sintonia com um "segundo modernismo" que ao combinar melancolia com ironia busca «nas luzes da cidade uma ilusão de presença impossível, perseguindo pelas sombras da noite dos bares e nas miragens da vida nocturna, na agitação "mundana", um sonho impossível, e o adormecimento duma insatisfação que é angústia de eterno adolescente perante a vida».
domingo, 28 de maio de 2017
OCIDENTE
Do périplo trumpiano pelo mundo árabe, o negócio de venda
de armas aos sauditas foi um dos temas que menos interesse gerou por cá. A palmada
de Melania na mão de Trump foi, pelo contrário, um dos temas mais debatidos.
UM POEMA DE IBN ṢᾹRA
ÉS TÃO lesto a escutar
Quem para as festas te convida...
Não vês cãs a segredar
Que a morte te leva a vida?
Deu-te Deus sabedoria,
Porque ignoras o Destino
Cego e surdo como um muro?
És e foste, isso é o Futuro.
Das esferas a harmonia
Findará em desatino:
Morrerão o Sol e a Lua
E a própria terra que é tua.
E na choça da carência
Ou na mansão da cidade
Todos perdem na verdade
Sua fugaz existência.
Ibn Ṣᾱra (nasceu em Santarém, provavelmente em 1043, e morreu em 1123), in O Meu Coração é Árabe - A Poesia Luso-Árabe, org. Adalberto Alves, Assírio & Alvim, Outubro de 1987, p. 108.
INVERNIA
Catorze anos depois da invasão do Iraque, sob falsos
pretextos e a estapafúrdia intenção de levar a democracia ao mundo árabe, numa
operação que chegou a ter o nome de Operação Liberdade do Iraque, os EUA
aterraram, na figura estroina do seu actual presidente, numa das mais rígidas ditaduras do Médio Oriente com o discurso abaixo ilustrado num post intitulado
Manchester (aqui). A Arábia Saudita é, desde há muito, um viveiro do terrorismo que os
americanos dizem andar a combater, ao mesmo tempo que negoceiam armamento e
mantêm excelentes relações com a pátria do mártir Osama bin Laden. A Arábia
Saudita, onde os poderes político e religioso sempre se confundiram, tem sido
uma das fontes fundamentais da islamização política das sociedades árabes, patrocinando
os fundamentalistas da literalidade corânica. Se a Primavera Árabe não surtiu
resultados animadores, o que esperar desta invernia ocidental que estamos a
atravessar?
sábado, 27 de maio de 2017
FOME DE FARTURA
Poderá a governação à esquerda durar duas legislaturas? A
pergunta aparece formulada no Público, com link para texto que não apetece
ler. Quando a solução governativa actual tomou forma não foram poucos aqueles que lhe vaticinavam seis meses de vida. Chamaram-lhe geringonça. Coisa para durar
pouco. A pergunta agora é outra. De seis meses de vida, saltamos para duas
legislaturas. Os incompetentes que então profetizaram doenças terminais a uma
putativa governação de esquerda serão os mesmos que, num contorcionismo
intelectual sem par, formulam agora tamanha dúvida: Poderá a governação à
esquerda durar duas legislaturas? Não há fome que não dê em fartura. Dúvidas
não restam que, digam o que disserem, os incompetentes continuarão a ser
requisitados à mesa da opinião. Empanturrados com opiniões, ainda nos tornamos
todos turistas na nossa própria casa.
ESTÚPIDA #5
Estúpida Magazine
Quinto Número
Maio de 2017
Director: António S. Oliveira
Edições Mortas / Black Sun Editores / N edições
Do Trumpismo, pp. 3-4.
DO TRUMPISMO
Se algum dia me dissessem que um pato
chegaria à presidência dos EUA, eu não acreditaria. Continuo a não acreditar.
Ao contrário dos ilustres portugueses que participaram num vídeo apelando ao
voto nas últimas presidenciais norte-americanas, Trump é só Donald. Não é pato.
Desconfio que um dos descuidos da oposição que mais o favoreceu foi
precisamente passarem a vida a olhar para ele como se ele fosse um pato. Não é,
nem quem votou nele.
É verdade que o penteado, a dicção, os
lábios, os olhos, prestam-se a caricaturas. Mas cuidado, tenham medo, por baixo
da falsa peruca ainda hão-de descobrir um cérebro verdadeiro. Trump é a voz de
muitos que nos states pensam como ele, desde há muito e em variadíssimas
latitudes. Estamos fartos de os observar nos westerns. Ainda que o talento dos
argumentistas seja indubitável, a realidade supera sempre a ficção.
Olhemos o anormal nos olhos, não nos
deixemos distrair pela psoríase. O que tem Trump de tão anormal que Bush não
tenha tido? O Twitter, o Facebook e outras armas de destruição maciça que
jamais passaria pela cabeça de Bush serem tão poderosas. Os energúmenos do ISIS
perceberam-no, servindo-se delas como forma de recrutamento transfronteiriço.
Trump percebeu-o, servindo-se delas como forma de recrutamento dentro das suas
fronteiras.
Ele fala directamente ao seu público como só
Hitler outrora falou, colocando-nos neste estado embasbacado de observadores
impávidos mas aflitos. Nascendo rico, dirige-se aos pobres assegurando-lhes a
salvação como se fosse no mesmo corpo e na mesma carne profeta e messias.
Moisés em tempos de pós-verdade, promete devolver aos esquecidos da América a
sua querida e majestosa nação. O discurso é típico de um nacionalista com
inclinações fascistas, empolgado pela xenofobia, pelo racismo, pela homofobia, pelo
machismo, por tudo quanto há de mau na raça humana e a raça humana adora. Pelo
menos aquela que se revê na lógica propagandística de Trump, um retórico que,
na realidade, vem devolver a uma larga fatia da nação norte-americana o orgulho
que lhe foi roubado ao aguentarem um afro-americano na presidência.
Os tipos e as tipas que votam em Trump são
seres humanos como os outros, embora julguem que não. Na verdade, estão
convencidos de que os outros não são seres humanos como eles. Por isso não
querem pagar impostos para sustentar chulos, drogados e prostitutas com sotaque
estrangeiro que passam a vida aproveitando-se do sistema. Curiosamente, em certa
medida Trump é um desses chulos. E a primeira-dama uma dessas prostitutas.
Descendente de alemães emigrados na América,
nasceu em berço de ouro e fez carreira nos negócios de família. Ao mesmo
tempo, foi cedendo aos apelos de uma sociedade do espectáculo sempre disposta a
patrocinar nas suas páginas quem tenha dinheiro para lhe pagar as futilidades.
O mundo dos reality shows é o seu, assim como o das redes sociais (que, em boa
verdade, não se distingue do outro). Um produto cozinhado nos mass media contemporâneos,
destemperado como a fast-food, muito do agrado de quem, à nossa escala
portuguesa, se delicia com cronistas a coçar os tomates e primeiras páginas de
vomitório sensacionalista.
Insisto, não foi um pato quem chegou à
presidência da mais poderosa e paradoxal das nações neste mundo. Foi um Trump. Ainda
por cima de mão dada com uma sinuosa Melania. A imprensa adora.
Ora um Trump é, como diria o poeta, uma
coisa em forma de assim, que nos deixa perplexos como as coisas que não
julgaríamos possíveis até nos darmos conta de que foi precisamente por não as
julgarmos possíveis que elas se concretizaram. Aí temos: quando a técnica
substitui a reflexão, gera-se o vazio crítico onde germinam as vozes da
leviandade. Chamámos-lhe em tempos populismo, até o politicamente correcto nos
convencer de que não seria muito agradável fazer derivar de povo doutrina tão
desprezível.
O que lhe vamos chamar agora?
Trumpismo é conceito a ter em conta, ainda
para mais com associações tão foneticamente pertinentes em língua portuguesa.
Trumpismo de trampa, toda a trampa, a trampa de um mundo pervertido e às
arrecuas, desmemoriado, acrítico, insensível, cativo de uma hipersensibilidade
que rapidamente degenera em depressões impotentes, um mundo de suicidados à
nascença, monstrinhos educados para vencerem, serem os melhores, andarem nos
quadros de honra, independentemente da infelicidade e das frustrações que
carregam dentro, um mundo completamente afastado da Natureza e dos seus
sagrados ensinamentos, um mundo de precários, gente que trabalha mas não sobe
acima da miséria, gente sem tempo para desfrutar da vida porque a vida foi entretanto
desclassificada como um planeta anão, é uma utopia. E, como sabemos, as utopias
morreram, já não servem para nada, foram superadas, lá está, pelo trumpismo,
este novo tempo tecnológico de sedutoras ilusões em que para ejacularem com uma
mentira consoladora as pessoas preferem varrer para debaixo do tapete as
verdades incómodas.
Como, por exemplo, esta: «as oito pessoas
mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente àquela que se concentra
na metade mais pobre da população mundial». Mas isto não interessa, é como o
aquecimento global e as utopias. Tudo mentiras e falsidades. Num mundo de
trampa, Trump é a verdade. A pós-verdade.
Henrique Manuel Bento Fialho
20 de Janeiro de 2017
Enquanto Donlad Trump tomava
posse como 45.º presidente dos Estados Unidos
sexta-feira, 26 de maio de 2017
MANUEL DE SEABRA (1932-2017)
Ernesto Manuel de Seabra Ferreira Bértolo nasceu em Lisboa a 7 de Julho de 1932. Devemos-lhe, entre outras pérolas, estas Antologia da Poesia Soviética e Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, datadas de 1973 (clicar nos títulos), e a Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, de 1982. Tradutor há muito radicado na Catalunha, estudou teatro, esteve preso durante a ditadura, foi jornalista no exílio, publicou várias obras, algumas das quais traduzidas para esperanto. Mais informações: aqui. Faleceu no passado 22 de Maio do ano corrente.
María Lorena Ramírez
Uma mexicana
venceu uma ultramaratona de 50 quilómetros a correr de saia e sandálias de
borracha. María Lorena Ramírez, de 22 anos, não é atleta profissional, nem
recebeu treino específico para a Ultra Trail Cerro Rojo, prova que venceu, mas
pertence à tribo Tarahumara, com uma longa e invulgar tradição de excelentes
corredores.
María Lorena é
pastora, percorre diariamente 10 a 15 quilómetros. Nasceu e cresceu no seio da
tribo Tarahumara, na qual a corrida é um hábito e uma diversão.
Os índios
rarámuri, da Serra de Tarahumara, daí o nome da tribo, no estado mexicano de
Chihuahua, são criados a correr pelas montanhas, descalços ou com sandálias de
borracha, que eles próprios conceberam para a prática da corrida.
A Ultra Trail
Cerro Rojo realizou-se no final de abril em Puebla, no centro do México, mas só
agora a insólita notícia começa a correr mundo. A prova contou com cerca de 500
concorrentes, de 12 países.
Como manda a
tradição Tarahumara, María Lorena correu sem equipamentos especiais, de
sandálias, de saia e de cachecol, deixando para trás as concorrentes dos mais
modernos apetrechos, GPS, suplementos e sapatilhas próprias para corridas de
longa distância.
Lorena terminou
a corrida em 7 horas e 3 minutos, e conquistou o 1º lugar no escalão feminino,
que lhe valeu o prémio monetário de 6 mil pesos (perto de 300 euros). Já no ano
passado, tinha chegado na 2ª posição na Ultramaratona Caballo Blanco, em
Chihuahua, uma corrida de 100 quilómetros.
(…)
Notícia respigada: aqui.
OS POMBOS
O olhar do Papa Francisco e o brilho da Sara Sampaio, a
última foto de Madonna em Lisboa com seus filhos benfiquistas (ai, ai, esta
mania de enganar turistas ainda nos sairá cara), o Fassbender de Alfama, os
beijos da Bellucci, a disputa entre o Phil Collins e a Madonna por um palacete
no Chiado (a bem dos vizinhos, torço pela autora de Like a Prayer), são
questões que não apoquentam Quitéria. Ao som do hip hop cigano sintonizado no Citroën
de portas escancaradas, ela acerta passo enquanto olha para o céu encoberto e
sentencia o dia avizinhado: puta que pariu os pombos que cagam esta merda toda.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
MELANIA E IVANKA
Melania e Ivanka andaram pelas arábias de cabelos ao vento,
merecendo elogios por terem ousado ser como são na terra delas. Em visita ao
papa, vestiram-se de negro e usaram véus. Melania ficou especialmente patética
com aquela coisa na cabeça, enquanto Ivanka parecia uma jovem viúva. Figurinos
deprimentes de um ocidente ensimesmado, resolveram ser mais papistas do que o
papa em pleno Vaticano. Talvez se tenham confundido e julgassem estar no Irão,
depois de na Arábia terem pensado estar num hotel luxuoso do Dubai. Mas quem viu Trump de quipá na cabeça junto ao muro das lamentações já pode esperar tudo no que respeita a limites para a hipocrisia.
MIGUEL DE CARVALHO
Há dias, entretido com as tristezas do zapping, apanhei
de raspão o Miguel de Carvalho num qualquer programa do canal 2. Recuei para
vê-lo e ouvi-lo desde o início. Tínhamos estado juntos e o Miguel falara-me de
uma entrevista onde afirmara, e passo a citar, que se instalou numa cidade com
mais de 1700 docentes. “Contam-se pelos dedos das duas mãos os que vêm a esta
livraria, e pelos de uma mão os que vêm comprar.” A cidade é Coimbra, mas podia
ser outra qualquer. O cenário não mudaria muito. Talvez um dia venhamos a ser
apanhados de surpresa com a notícia do fecho de um dos mais belos e agradáveis
espaços da baixa conimbricense, a livraria antiquário do Miguel de Carvalho.
Nessa altura teremos direito a 1700 lamentos, 1700 comentários no Facebook,
1700 likes, 1700 manifestações de indignação sobre o estado a que isto chegou,
o fim do comércio tradicional, as cidades invadidas por turistas, as livrarias
que fecham, 1700 tretas fiadas para disfarçar o indisfarçável: não há negócio
que sobreviva sem vendas. Portanto, caríssimos, salvem-nos das 1700 patranhas e
actuem, encomendem, comprem, desloquem-se ao Adro de Baixo ou visitem o sítio:
fica aqui. Não é muito longe.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
SUPERTUBOS
Quem frequente este weblog saberá da admiração que nutro
pela poesia de Hugo Milhanas Machado (n. 1984), declarada em textos dedicados a
livros tais como Clave do Mundo (Sombra do Amor, 2007) e As Junções (Artefacto,
2010) ou a plaquettes das quais Plato chico é apenas um exemplo (Edição do
autor, 2012). Sinto-me tanto mais à vontade quanto não conheço o autor
pessoalmente, nada me influencia que não seja o gosto alimentado pelos seus
versos. Hugo Milhanas Machado estreou-se em 2005 com Poema em forma de nuvem
(Gama), tendo, desde então, publicado regularmente em editoras de circulação
restrita. Supertubos (Enfermaria 6, 2015) colige poemas vindos a lume entre o
ano de estreia e o da publicação em causa. É uma excelente janela sobre um
trabalho que tem vindo a ser desenvolvido com incontestáveis aprumo e coerência,
podendo aqui servir uma breve reflexão sobre discussões recentes acerca da poesia
portuguesa contemporânea.
Estamos na presença de um autor com intensa
actividade académica, doutorado em Filologia pela Universidad de Salamanca onde
é docente. Não obstante, em nada que seja óbvio a sua poesia se deixou
contaminar pelo academismo notório de muitos dos seus contemporâneos. Um dos
aspectos mais evidentes desse academismo é a hegemonia da intertextualidade, a
qual ultrapassou os domínios da alusão e do diálogo para se transformar em
pastiche e bricolagem. Na poesia coligida em Supertubos essa hegemonia foi
superada pela busca da singularidade, almejando-se uma muito particular forma
de tratar a palavra poética arreigando-a à experiência vivida sem limitá-la ao
retrato ou à confissão emotiva. Tal prática remete-nos para um confronto tantas
vezes equívoco entre as noções de complexidade e simplicidade no discurso
poético. Sendo esta uma poesia altamente complexa, não deixa de acolher no seu
caudal lírico as coisas simples da vida.
Complexa, desde logo, pelo labor
sintático que por vezes nos coloca perante um discurso aparentemente desordenado.
Depurada nos adjectivos, com um sentido gramatical apoiado mais no ritmo do que
na melodia, coloca-nos amiúde desafios à leitura que apelam a uma convergência
natural entre o escrito e o lido: «o poema não persegue resultado» (p. 65). E é
precisamente por não persegui-lo que dispensa as fórmulas, assentem elas na
ironia como modo de sedução ou no absurdismo verbal enquanto estratégia
encantatória. Portanto, longe de se tronar hermética esta é uma poesia
complexa. Complexa em si mesma, naturalmente, sem que para tal recorra a um
léxico desusado ou a uma exaustiva multirreferencialidade. Antes pelo contrário, como fica evidente nos poemas que trazem à tona o linguajar de uma certa fauna da faina marítima: «ó
camandro de paisagem» (p. 28), «era da gente ali morrer / com os olhos assim»
(p. 38), «Tá claro que o amor é assim / cravado de algas» (p. 50).
Por fim, mas
não menos relevante, julgo dever sublinhar como nos poemas de Hugo Milhanas
Machado vislumbramos uma alegria de viver que nada tem que ver com a pretensão
de confinar à melancolia o tom geral da poesia portuguesa contemporânea. Não deixa de ser curioso constatar, contudo, que dois dos poetas portugueses da nova geração acolhidos com maior entusiasmo por crítica e público também não encaixem nesse
gavetão da melancolia. Refiro-me a Miguel-Manso (n. 1979) e a Matilde Campilho
(n. 1982). Os poemas de Supertubos são geralmente luminosos, referem-se a momentos de
descontracção e à suspensão das horas aziagas. Basta olhar para o índice de
primeiros versos que logo encontramos palavras ou expressões tais como sossego,
entusiasmo, bom dia, luz, dançar, festa, cantam, gostar, numa celebração do
movimento e da passagem dos dias, dos amigos e dos encontros fortuitos, que
nada tem de melancólica. Quando muito, nostálgica. Mas naquele sentido de quem
lembra as férias do Verão ou recorda uma paixão antiga e diz: «vai embora
dia tão triste» (p. 80).
Em suma, aí estamos nós perante uma poesia nada académica,
apesar da formação do seu autor, complexa mas acessível, luminosa, solar,
alegre, se quiserem, cujo maior mérito é fazer-se por si mesma, assumindo-se na
sua singularidade, sem concessões às tendências que no seu tempo pretendem impor-se
como se nada mais houvesse:
O ferro na figura
O rei aparece
e a metáfora é dos feiticeiros
essa gravidade por ritmos e flechas
nas grandes manifestações
É uma sobra da figura e na
mais precisa cor a dimensão de terra
a quantidade vai descendo na tradição
quando as flechas começam a cair
Eu não escuto onde tu dizes
eu não tenho formação de ferro
eu não organizo limpo tanto texto
em lance todo de puxar futuro
E se palavra a caçadora e por grossas figuras
vou tornar às tarefas do país
o ambiente nas festas merece
minhas canoas nessas frases tuas
É que nunca houve bem o descanso
e se concede mais luz na espera da sílaba
um material é duro por identificação
arrasta muitos a falar
Só penso nas remadas
nuns sumos para o lanche
que na divisão de movimentos
ninguém venha fechar olho
Hugo Milhanas Machado, in Supertubos: Poemas 2005-2015,
Enfermaria 6, Dezembro de 2015, p. 98.
terça-feira, 23 de maio de 2017
ROGER MOORE (1927-2017)
Motivos que não consigo compreender tornaram-me fã de Roger
Moore. Foi indubitavelmente o meu 007 preferido, talvez pelo estilo espadachim
que a foto ao alto ilustra. Moore pegava no revólver com um estilo especial,
como se fosse um espadachim ou aplicasse um golpe de Kung Fu. Sendo admirador
de westerns, não posso deixar de referir a participação do actor na série
Maverick. Robert Altman foi um dos realizadores com quem trabalhou nesse
contexto. Já a minha mãe admirava-o pelas prestações em O Santo. A história
recordá-lo-á como um dos mais especiais agentes especiais que o cinema
engendrou:
MANCHESTER
Trump foi à Arábia Saudita dizer que os árabes têm de
se ver livres dos terroristas. Entretanto, assinou com esse pacífico país «um
negócio para a venda de armamento no valor de 110 mil milhões de dólares, que
inclui aviões militares, navios e mísseis». Os turbantes continham o riso
enquanto Trump discursava.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
"Os Dias do Abandono"
Os Dias do Abandono, originalmente publicado em 2002, é o
segundo livro de Elena Ferrante, posteriormente incluído no tríptico Crónicas
do Mal de Amor (Relógio D’água, Maio de 2014) com tradução de Miguel Serras
Pereira. Relata-nos a fúria de uma mulher depois de ter sido abandonada pelo
marido com dois filhos nos braços e um lobo-d’alsácia para cuidar. Olga é-nos
apresentada como tendo abdicado parcialmente da sua vida após o casamento com
Mario, acompanhando-o «onde a sua actividade profissional de engenheiro o
levasse». Alimentou, em tempos, a vontade de ser escritora, de escrever sobre
«mulheres cujas palavras fossem invencíveis, e não um manual da mulher
abandonada subordinando ao amor perdido todos os seus pensamentos». Têm dois
filhos, um rapaz e uma rapariga com os nomes de Gianni e Ilaria. O casamento
dura há quinze anos sem que nada fizesse prever a brusca decisão de Mario.
A separação abrupta deixa Olga à deriva, tomada por uma
agressividade ilustrada tanto pela linguagem obscena como pelas acções
desesperadas. Referir-se-á a tal estado como o de uma «situação borderline que atravessara»,
reconhecendo, desse modo, a dimensão patológica da sua existência. Não conseguimos
odiá-la nem por ela ter grande simpatia, tentamos compreender-lhe as obsessões,
concentramo-nos nos seus 38 anos e tentamos imaginar o que pode sentir uma
mulher da sua idade trocada por uma rapariga de 20 anos. Assistimos ao seu desespero, aos tormentos, à raiva e ao sentimento de solidão
que a desorientam com distante cumplicidade.
A determinada altura, a casa onde Olga vive com os filhos
e o cão é invadida por formigas. O episódio lembra-nos Um Copo de Cólera, novela
do brasileiro Raduan Nassar publicada em 1978. Mas se neste caso as formigas
espoletam o fim da harmonia num casal, no livro de Elena Ferrante elas potencializam
a deriva emocional. É por essa altura que reparará em Carrano, violoncelista
que vive no andar de baixo e acerca do qual Olga constrói uma imagem deturpada
pelas suas próprias frustrações mais íntimas: «Quem sabe que segredos de homem
só alimentaria, a obsessão viril do sexo talvez, o culto serôdio do caralho.
Também ele, com toda a certeza, não via outra coisa que não fosse o seu
fiozinho de esperma cada vez mais miserável, e só ficava satisfeito quando
verificava que o membro ainda conseguia entesar-se-lhe, como as folhas
moribundas de uma planta ressequida que recebe um pouco de água». Cogitações
sexuais deste tipo acompanham o dia-a-dia de Olga, são o fio condutor de uma
brutalidade que no divã do Dr. Freud mereceria o diagnóstico de histeria.
Motivada, claro está, pela experiência radical de um trauma: o abandono.
A espaços, julgamos que se encontra à beira da
loucura. O modo desleixado com que procura resposta para as carências dos
filhos, o trato oferecido ao cão, intempestivas perdas de autodomínio, a inabilidade
doméstica transformam-na momentaneamente num animal selvagem. «Não é fácil
passar-se da tranquila felicidade de um passeio sentimental à desordem, à
confusão do mundo». Com o tempo, a lucidez tomará conta da fúria. O romance
acaba bem, o que é uma chatice, caucionando o lugar-comum do tempo que tudo
cura, o tempo, esse grande escultor capaz de projectar o futuro sem abandonar
por completo o passado.
Mas ainda a meio da história há um sobressalto reflexivo
que nos interpela. Olga diz: «Uma mulher pode matar mais facilmente no meio da
rua, no meio de toda a gente que passa, pode matar mais facilmente do que um
homem. A violência da mulher parece um jogo, uma paródia, um uso impróprio e um
tanto ridículo da determinação viril de praticar o mal». De onde vêm estas
palavras? Qual o fundo moral que as justifica? Por que parece um jogo a
violência da mulher? Em que se distingue, nesse sentido, da violência exercida
por um homem? Nada há no texto que nos responda.
Nas «tensões desvairadas» relatadas em Os Dias do
Abandono a violência surge antes de uma assexuada perda de sentido, de uma obliteração
do autodomínio enquanto força matriz do autoconhecimento. No meio da rua, tal
violência é indiferente aos géneros (mesmo que, por convenção, um deles esteja
socialmente protegido). O desespero de Olga é em si mesmo violento como
violento é um parto, daí que a própria seja levada a concluir: «Escrever
deveras é falar do fundo do ventre materno». É talvez das mais belas definições
de escrever que li até hoje. Ao abandono, à perda, corresponde, desta forma, a
redescoberta do “si mesmo” que a arte é capaz de revelar quando logra falar do
fundo do ventre materno.
GLOBOS DE OURO
Após uma semana atribulada, um fim-de-semana
entre o agitado e o descomprimido, a noite de Domingo pedia forte lenitivo. Deitei-me
no sofá a fingir que via os Globos de Ouro. Trata-se de uma festa que procura
premiar talentos portugueses nas áreas da música e da moda, do desporto e do
teatro, da televisão e do cinema (ainda há), com lugar a prémio revelação e
carreira. A possibilidade de adormecer era forte, pelo que aos dois minutos já
as pálpebras me tombavam sobre os globos.
Sucede que a espaços despertava,
agitado pela algazarra, pelo colorido ou pela maquilhagem incandescente das
diversas personagens ali colocadas como quem espalha bibelots pela casa. Sei que o ambiente nestas coisas presta-se ao piroso, mas jamais me passaria
pela cabeça que nesses instantes de despertar eu pudesse ser estremunhado por
personagens de tal forma delirantes que ficava sem saber ser real ou irreal o
que meus olhos saturados hesitavam percepcionar.
Medalha de bronze para este rapaz cujos talentos
desconheço, com sapatos à Bento XVI e uma indumentária algures perdida entre
o Cardeal Cerejeira e um monge tibetano daltónico. Tendo em conta o penteado,
há também a forte possibilidade de ser só um surfista que se equivocou
na data e no caminho. Queria ir ao Carnaval de Torres, acabou nos Globos do
Coliseu.
A medalha de prata condiz com estas duas dignas representantes
da estroinice chique. O aspecto de falsas gémeas é muito típico das mães que
hoje em dia pretendem parecer-se com as filhas permitindo que as filhas almejem
parecer-se com as mães. A ambas talvez fizessem falta cubos de enchimento, mas
não podemos reclamar da louvável atitude austera ao tão bem terem reciclado os
cortinados lá de casa.
Por fim, mas em primeiro, isto. Não me restam comentários. O ar aparentemente assustado da criança fala por si.
CUIDADO COM O BILL
Trump anda pelas arábias na companhia da mulher e da filha.
Chegado a Israel, deixou Melania aos cuidados de Sara Netanyahu. Foram visitar
um Hospital. Presumo que tenham aproveitado a hora do chá, podiam desempenhar o
seu papel com um programa cultural ou numa acção de beneficência. Uma completa
ignorância do protocolo leva-me a questionar como se organizam estes encontros
quando um presidente é do sexo feminino. Por exemplo: se Hillary Clinton
tivesse vencido as eleições, levaria pela mão o marido Bill? Deixá-lo-ia aos
cuidados de Sara Netanyahu? Benjamin ficaria descansado?
domingo, 21 de maio de 2017
POETAS E ACADEMIAS
Uma declaração que eu julgava óbvia e anódina parece ter
provocado alguma perplexidade em participantes deste encontro, a ponto de me
ter sido pedido que elencasse autores que sustentassem, enquanto exemplo, a
afirmação de que muita da poesia hoje produzida surge de autores com uma vida
académica ligada à literatura. Assim muito rapidamente, e limitando-me a copiar
o que sobre esses autores é público na rede, eis alguns exemplos:
Ana Salomé licenciou-se em Estudos Portugueses, pela
Universidade do Minho, fez mestrado sobre “O Anjo Mudo”, de Al Berto, é
doutoranda em Estudos Culturais, Catarina Nunes de Almeida (Doutoramento, Univ.
NOVA de Lisboa, 2012) é uma investigadora de pós-doutoramento (título do
projecto: A Viagem ao Oriente na Literatura Portuguesa Contemporânea
(1990-2012)), Daniel Jonas (1973) licenciou-se em Línguas e Literaturas
Modernas na Universidade do Porto e obteve o grau de Mestre em Teoria da
Literatura na Universidade de Lisboa com uma dissertação sobre John Milton, Elisabete
Marques é doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Frederico
Pedreira, nascido em 1983 e doutorando em Teoria da Literatura, Hugo
Milhanas Machado (Lisboa, 1984), docente do Camões, Instituto da
Cooperação e da Língua, na Cátedra de Estudos Portugueses da Universidad de Salamanca,
Margarida Vale de Gato (Vendas Novas, 1973) é Investigadora Auxiliar no Centro
de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, Matilde Maria d'Orey de Sousa
e Holstein Campilho tirou o curso de Literatura e depois foi para Florença
estudar pintura, Paulo Tavares nasceu em 1977, é licenciado em Línguas e
Literaturas Modernas, está actualmente a terminar uma tese de doutoramento na
área dos Estudos Literários, Pedro Sena-Lino nasceu em 1977 em Lisboa, licenciou-se
em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa, onde concluiu o Mestrado
em Literaturas Românicas sobre José Régio, Ricardo Gil Soeiro (Paredes da Beira, 1981)
é um ensaísta e poeta português doutorado em Estudos
de Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é
investigador do Centro de Estudos Comparatistas da FLUL, onde leccionou
Literatura Comparada, Literatura Portuguesa Contemporânea, Leituras Orientadas,
Ricardo Marques é licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses e doutorado
em Estudos Portugueses pela FCSH-UNL, Rui Lage é doutorado em Literaturas e
Culturas Românicas – especialidade em Literatura Portuguesa – pela Faculdade de
Letras da Universidade do Porto, Tatiana Faia, Portugal (1986), vive e trabalha
em Oxford (Mississippi), é doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese
sobre a Ilíada de Homero…
A lista podia continuar, mas parece-me mais do que
suficiente como resposta às dúvidas então surgidas.
sábado, 20 de maio de 2017
COIMBRA, 19 DE MAIO DE 2017
Para o Miguel de Carvalho.
Em memória do Carlos.
*
«Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê
taberna deve ler-se perdição».
*
Palavras como salvação e perdição são-me estranhas.
Salvação de quê? Perdição de quê? Julgo-as manifestamente exageradas.
*
No meu caso a errata poderia incluir um sentimento que nem
me é especialmente querido: onde se lê taberna deve ler-se nostalgia.
*
A primeira profissão do meu pai, com 11 anos mal contados
e o primeiro par de sapatos, convenientemente rotos nas solas, foi a de
taberneiro no Cartaxo.
*
Em 2009 passaram na televisão uma reportagem sobre o
último taberneiro do Cartaxo. Sobre isso, e embalado por um livro de poesia de
Vítor Nogueira intitulado “Comércio Tradicional”, escrevi então:
«Preso ao passado, sem esperança no futuro, o último
taberneiro do Cartaxo já não serve a quantidade de cartolas de vinho que servia
noutros tempos. Vai ficando atrás do balcão, entretendo-se com quem passa, e
explica agora para a TV, transformado numa raridade, as três medidas de vinho
que ainda hoje serve a quem lhe frequenta a casa. Ao bater com o vidro dos
copos no mármore do balcão, gesto insignificante para uma imensa maioria de
pessoas habituadas a coca-colas de pressão servidas em copos de papel, o último
taberneiro do Cartaxo desperta-nos do sonambulismo provocado por uma
contemporaneidade alheia ao serviço afectuoso do chamado comércio tradicional.
(…) Perdeu-se o conforto de uma relação marcada pela familiaridade, ganhou-se
em agitação, alvoroço, claustrofobia, pressa».
*
Em suma, não se ganhou nada.
*
Ocorre-me a taberna da Dona Ilda, no Bairro da
Serradinha, em Rio Maior, onde comprei os primeiros definitivos (ou seriam
Kentucky?) e bebi as primeiras ginjas, com menos primaveras contadas que as de
meu pai quando começou a trabalhar.
*
Parece mentira, mas era possível ter-se 10 anos e beber
uma ginja ao balcão. Um tipo começava a fingir-se homem desde cedo, enquanto
mirava os velhos a jogar o dominó dos dias contados.
*
Portanto, para mim taberna começa por querer dizer
nostalgia. E a nostalgia, como bem mostrou Andrei Tarkovsky, é altamente
poética.
*
Já adolescente, dividi-me pelo Escritório, taberna a
escassos metros da escola que então frequentava, e pela Taverna da Raposa (com
um “v” no lugar do “b”, evolução linguística que não me sinto apto a discutir).
Ao vinho a retalho, preferíamos litrosas de cerveja Sagres e aquilo a que os
irlandeses chamam “a pint of Guinness”. Para nós eram canudos de preta.
*
Canudo de preta é uma expressão que ainda hoje me soa
erótica, apesar de a guardar associada ao saudoso Carlos que nos servia tais
regalos. Enforcou-se para espanto de todos, precisamente na sala onde tantas
vezes nos sentávamos dando corda a intermináveis discussões.
*
Suponho que desde então as tabernas tenham perdido
qualquer significado na minha vida, substituídas por cafés de passagem com os
quais procuro não gerar afinidades. Não-lugares, nada que se compare ao Cheers
da deliciosa série televisiva dos anos 80.
*
Só mais tarde vim dar com Fernando Pessoa no Martinho da
Arcada, com os poetas do Café Gelo, com as deambulações alcoólicas do Al Berto.
Houve, de facto, um tempo em que muita poesia saía dos cafés, das tabernas, da
pastelaria. Os poetas andavam na rua, frequentavam-se. Agora sai directamente
das academias e da sala de estar, com as devidas e muito estimáveis excepções.
*
Mantenho-me fiel ao Três Arquinhos, no Rogil, sempre que
por lá passo ligeiros dias de Verão. Agrada-me o cheiro a bagaço pela manhã, o
medronho que acompanha o café, as conversas de circunstância com que se ocupam
os vazios da existência. E passo por lá horas a ler, a escrever, a desenhar. Foi
lá que li “As Cantinas e Outros Poemas do Álcool”, de Malcolm Lowry. Suponho
que as tabernas do poema de Manuel de Freitas devam qualquer coisa às cantinas
de Malcolm Lowry, lugares de desolação e desesperança onde homens destroçados
pelo medo e pela solidão afogam as mágoas em tequila. As tabernas surgem aí
elevadas ao estatuto de santuários onde esperança alguma se ilude e realiza.
*
Igualmente devedoras desta ética do vício são as minhas “Mesas
Privadas, e De Vítima”, título, aliás, respigado num poema de Jorge Falllorca
justamente intitulado “Café”. Publiquei essa sequência de 30 poemas em prosa em
2006, num livro cujo título contrasta com a assumida face selvagem e espontânea
dos textos. O livro chama-se “Estórias Domésticas”.
*
Os cafés, as tascas, os bares, as tabernas desses textos
são palcos para um ambiente de suspensão da vida doméstica. São lugares de
observação do outro, o “eu” neles exposto é absolutamente artificial. Só o
outro ali importa, um outro tão concreto que, em certos casos, facilmente
identificável, como o senhor Alexandre dos matraquilhos, antigo colega de
carteira de Ruy Belo, ou o Noel da “Mesa 7”.
*
Mesa 7
Sempre que o Noel entra no café, olham-no como se ele
fosse um cancro. Uns chamam-lhe Pai Natal, outros chamam-lhe prémio. Ele
senta-se, trauteia uma cantiga francesa, bebe o vinho de um só trago. É um
cancro benigno.
*
Em suma, acerca de tabernas posso constatar haver muita
virtude em certos vícios, saudáveis vícios saudosos. Diria antes, talvez, que
nos salvam do desespero na medida em que nos fazem crer não estarmos sós em
matéria de perdições.
*
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