segunda-feira, 15 de maio de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #4


O que é uma boa canção? Regresso a esta caixa à procura de uma resposta. Billie Holiday cantou alguns dos que são hoje considerados entre os melhores compositores de canções de todos os tempos: Irving Berlin, George Gershwin, Cole Porter, Duke Ellington. Em todos eles encontramos as tradicionais histórias de amor para a vida e para a morte, ora nostálgicas, ora descontinuadas, quando não amaldiçoadas. Amores doentios, românticos e trágicos, ligeiros como uma brisa em noite de Verão. Por vezes, o elogio da vida simples. Noutras ocasiões, a dança, o álcool, a alegria nos clubes nocturnos, um encontro fugaz e um copo para matar a tristeza, a nostalgia, a melancolia. A lua é quase sempre mais cantada do que o sol, apesar de Summertime.
No blues vislumbramos ainda as entrelinhas sociais e políticas, o canto da libertação, o lamento, o protesto sofrido. Abel Meeropol serviu-se do pseudónimo Lewis Allan para escrever Strange Fruit, canção que viria a tornar-se icónica no reportório de Lady Day pela denúncia que fazia do racismo em terras norte-americanas. Mas estes temas não são tão frequentes quanto seria de esperar, assumindo até o papel de peças raras entre uma infinidade de histórias de amor para “cocantar”. I’ve Got My Love To Keep Me Warm, de Berlin (que importa se faz frio lá for a?), Let’s Call The Whole Thing Off, de Gershwin (divertido jogo de palavras sobre desaguisados), Night and Day, de Porter (a omnipresença da figura amada), são apenas exemplos de grandes canções sobre temas… banais.
O que faz, então, uma boa canção? Há canções excelentes de dois acordes (Lou Reed escreveu imensas em ré e sol), pelo que a complexidade da composição não responde à nossa dúvida. Inúmeros blues são variações da sequência clássica mi-lá-si. Melodia e harmonia, arranjos equilibrados, ajudam a fazer uma boa canção. Talvez o que faça uma boa canção seja, em parte, o intérprete. Interrogada sobre a prestação de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão, Luísa Sobral disse que até podia ter dado ao irmão a canção do "parabéns a você". Ele faria, por certo, algo de muito especial com ela. É, sem dúvida, um excelente intérprete. Não obstante, bastará ser um excelente intérprete? A Luísa Sobral estava a ser modesta.
Em 44 anos de vida, Billie Holiday legou à posteridade um conjunto generoso de magníficas e impagáveis interpretações. Quando a escutamos percebemos tanto o que significa feeling como o que quer dizer swing, entendemos os conceitos de blues e de soul, e compreendemos como nada disto tem tradução literal para português, pois feeling não significa sentimento, nem soul quer dizer alma, swing é algo mais do que balanço e blues, bem, blues não é de todo uma cor plural. É costume ouvir aos fadistas falar do fado como um modo de vida. Enfim, numa boa interpretação a gente pressente um modo de vida. Emoção talvez seja conceito relevante, talvez uma boa canção seja aquela que nos emociona.
Ora, haverá sempre um elevado grau de subjectividade nestes domínios. Nem toda a gente se emociona da mesma maneira. Se muita gente, e tão dissemelhante, se emociona com uma determinada canção, será no mínimo escusado questionarmos a sua qualidade. Já não se trata de um problema de minorias contra maiorias, de uma pretensa racionalidade de certas elites esclarecidas contra a histeria colectiva das massas, não se trata de opor o erudito ao popular. Não é uma questão de popularidade. É uma questão de agarrar na canção e isolá-la, levá-la para a ilha deserta da nossa intimidade e tentar perceber se ela nos emociona ou não, se nos toca ou não nesse lugar onde um corpo dispensa outro corpo para se sentir tocado. Basta uma boa canção.
Foi Deus, na voz de Amália, jamais me tocará tanto como Embraceable You, na voz de Billie Holiday, desde logo porque aquele simples verso “Bring out the gypsy in me” me dirá sempre mais do que o tom oratório de Deus a pôr no peito da fadista um rosário de penas. São duas grandes vozes, são duas belas canções, mas basta-me um verso para decidir. Contra isto, nada há a fazer. Também ninguém espera que se faça o que quer que seja. São apenas canções:



2 comentários:

Anónimo disse...

Brevemente no Jornal Região de Rio Maior :)

Ricardo

hmbf disse...

:-)